Por Fernando Grisi

Has been é uma expressão em inglês bastante comum para descrever pejorativamente alguém que já foi relevante no passado. Hazbin, que possui a mesma pronúncia da expressão, é um jogo divertido com palavras para descrever o Hotel de seu título, que tem como intuito “reabilitar” almas que estão presas no inferno para que possam chegar no paraíso. Quem administra o Hotel Hazbin é Charlie Morningstar, filha de Lúcifer (sim, ele mesmo) com Lilith, e seu sonho é conseguir mostrar para o povo do céu que as pessoas do inferno podem se redimir para também alcançar o paraíso. Com a “ajuda” (aspas pois nem todos estão interessados realmente em mudar suas características ruins) de amigos bastante diferentes, entre demônios, animais e tudo no meio disso com seus próprios objetivos e problemas pessoais, Charlie vai confrontar Adão (pois é) e os outros celestiais para provar que todas as almas merecem o céu.

Esta é a primeira série de animação da A24, e claro que não poderia ser uma série de animação qualquer. “Hazbin Hotel” é um desenho animado, musical e para maiores. A A24 já experimentou com o gênero musical com “Dicks: The Musical“, de 2023, que como bom fã de musicais adorei. Mas, apesar de manter a linguagem imprópria para menores, conteúdo sexual e violência, a proposta de “Hazbin Hotel” é diferente, ainda que igualmente original.

Criado em 2019 por Vivienne Medrano, o piloto da animação “Hazbin Hotel” foi lançado no YouTube, e hoje acumula mais de 100 milhões de visualizações na plataforma. Fiquei feliz que o conceito agradou aos executivos da A24 e que Medrano teve a oportunidade de dar segmento a seu fascinante universo em uma série de 8 episódios que já estão disponíveis no streaming Prime Video. Não consegui deixar de lembrar do caso de “Marcel The Shell With Shoes On“, para mim um dos melhores filmes da A24, que também nasceu como uma série de curtas metragens lançados no YouTube e acabou por se tornar um longa-metragem de sucesso produzido pela A24.

Charlie Morningstar, Filha de Lúcifer e Lilith, princesa do inferno. ©A24.

Vou começar esclarecendo que adorei a série. Inclusive não sei porque demorei um tempo considerável para dar play, sendo fã tanto de desenhos animados como de musicais. A produção é tudo que você poderia esperar dela, o que tornou minha experiência muito satisfatória e prazerosa, emendando um episódio atrás do outro até terminar todos em um único fim de semana. Antes de começar a falar sobre seus muitos pontos positivos, vou apenas esclarecer porque para mim, apesar de ter quase chegado lá, a série não chegou a ser perfeita (não que fosse algo que eu estivesse esperando dela).

Apesar dos episódios curtos e limitados, que fazem com que toda a experiência de assisti-los não chegue a 6 horas, é perceptível a perda de fôlego da narrativa lá pela metade de sua duração. Pessoalmente, achei o episódio 4 o melhor de toda a série (também o com a melhor canção), mas após seu término a série sofre um pouco para recuperar o ritmo frenético da narrativa, que acaba por se estabilizar um pouco demais. Aliás, a narrativa em si não deve ser o principal motivo para você se apaixonar pela série. A história em si é até que bastante previsível, e não apresenta muitos desdobramentos para além do que estava se antecipando desde o primeiro episódio. O forte dos arcos são as interações entre os personagens, assim como a exploração de características relevantes deles através de digressões na narrativa principal para dar mais espaço e tempo de tela para eles.

E estes são os únicos pontos “negativos” que me vêm à mente quando lembro de “Hazbin Hotel“. Quanto a todos os seus outros aspectos não consigo esconder minha empolgação ao lembrar deles. A animação é primorosa, deliciosamente fluida e caótica na medida certa. As cores realmente saltam nos cenários, e o design de personagens, todos bastante diferentes uns dos outros e com características (e até mesmo espécies) bem diversas, dá personalidade e identidade única para todas as cenas. Os números musicais são um show à parte. São aproximadamente duas canções apresentadas por episódio, e duvido muito que você termine a série sem nenhuma delas presa na sua cabeça tocando em loop. O estilo nem sempre varia, mas as vozes, ritmos e letras sagazes são o suficiente para elevar o nível da série, que perderia muito de seu apelo sem sua característica musical.

Poderia passar um bom tempo comentando os arcos de personagens e/ou da série em si, mas prefiro que busquem experienciar “Hazbin Hotel” sem muita bagagem (eu mesmo só assisti ao piloto original após terminar todos os 8 episódios no Prime Video). No entanto, adianto que vale muito a pena, para além do encantador aspecto visual da produção, também por questões existenciais e até políticas/religiosas que são trabalhadas no texto sempre com muita ironia e humor, mas também com aquela verdade mordaz que só a comédia sabe representar tão bem. Sem perder sua graça nem elevar o nível, se afastando dos palavrões, violência, drogas e tudo que normalmente seria passível de julgamento, porém não no inferno, não em uma comédia adulta autoconsciente que ainda assim consegue se divertir e nos divertir ainda mais. Não no Hotel Hazbin.

Nota: 8,8

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