Por Thiago Barboza
“Guerra Civil” estreia nos cinemas nacionais na próxima quinta-feira, dia 18, cercado de expectativa. Seja pelo ator Wagner Moura em papel de destaque, pelas declarações de Alex Garland dizendo que pode se afastar da direção e focar mais em roteiros, reedição da parceria entre Alex Garland e A24, pode ser também pelas polêmicas que cercam o filme ou até mesmo por ser o maior orçamento da história da produtora. Independente da razão a qual gerou a expectativa, a realidade é que ela está lá e está chegando o momento de descobrir se valeu a pena ou não.

O título da obra já dá o tom da trama, uma guerra civil em território norte-americano. A disputa entre estados separacionistas contra o governo vigente dos EUA, onde acompanhamos uma equipe de jornalistas que foram atribuidos a função de cobrir o conflito de perto. Lee Smith (Kirsten Dunst), Joel (Wagner Moura) e Jessie Cullen( Cailee Spaeny) percorrem o território estadunidese em conflito para tentar chegar a Washington D.C e entrevistar o presidente antes que seja tarde demais.
Antes de falarmos mais a fundo sobre o filme, é necessário destacar as atuações no longa, principalmente de Wagner Moura. Protagonizando o filme ao lado de Kirsten, grande parte da carga emocional do filme parte do personagem de Wagner, dando grande destaque aos momentos de mais tensão e conflito do filme. Enquanto a personagem de Kirsten é uma repórter mais estóica e focada em seu trabalho, o personagem de Wagner é mais aberto e sucinto a sentir os percalços que acontecem ao longo da trama de 1 hora e 49 minutos de duração. É refrescante ver uma produção, que também conta com Nick Offerman e Stephen McKinley Henderson, onde ambos personagens tem importância igual e um ator não precisa dar um passo para trás para destacar o outro.

O trabalho de direção de atores no filme é excelente também. Ao acompanharmos jornalistas de guerra, muitas vezes os profissionais se encontram em meio ao fogo cruzado da guerra com câmeras ao invés de armas de fogo e nota-se que os movimentos de tanto os soldados quanto os jornalistas são parecidos, cada um com a sua especificidade. Enquanto os combatentes tem o intuito de machucar, os repórteres com suas câmeras e canetas em punho tentam documentar o acontecido.

Aprofundando agora na trama do filme, “Civil War” recebeu algumas críticas lá fora devido a alguns temas e a forma com que eles foram apresentados. Acho importante destacar que estamos tratando claramente de uma ficcção. Ao escrever e dirigir o filme, Alex Garland tinha uma história em mente para contar e definitivamente ela foi contada. Garland se utiliza sim de temas, artifícios e situações que reverberam com a vida real mas que são usados em prol de uma narrativa ficcional, onde nada é espetacularizado.
O célebre filósofo Jean-Jacques Rousseau elaborou a famosa frase: O homem é produto do meio em que vive. Nós fazemos parte da sociedade em que vivemos e ela afeta cada um de nós. Ao sermos frutos do meio em que vivemos, as produções artísticas acabam também refletindo os tempos em que ela é feita e o resultado desta influência em “Guerra Civil” é nítida. Alex Garland disse em entrevistas que estudou bastante alguns eventos e acontecimentos para criar a história de seu filme, apesar da narrativa acontecer em uma realidade distópica.

“Guerra Civil” é um filme de guerra, não há muito para onde fugir. Entretanto é importante ter em mente o contexto e principalmente a razão do filme ter sido feito, para não cair na armadilha de tentar achar mocinhos e vilões. A produção não tenta pintar este cenário pois claramente há ações questionáveis de ambos os lados e tais ações são mostradas ao longo de todo o longa.
Como dito anteriormente, Alex Garland dirigiu e roterizou o filme. Com isso, me dou a permissão de opinar seu trabalho nas duas cadeiras. Na direção, Garland é estonteante. As composições que ele traz ao longo de todo o filme são impecáveis, conseguindo trazer o mesmo nivel de tensão de um tiroteio para uma conversa no meio do campo. As escolhas dos planos ajuda a marcar e personalizar ainda mais seus personagens, aliados a uma edição marcante e som espetacular. Garland imita um grande general militar e comanda esta incursão com maestria e tem seu grande momento em sua batalha final, a última sequência do filme que acaba hipnotizando com tamanha precisão e beleza.
Já como roteirista, Garland não consegue alcançar o patamar de sua direção. Em retrospecto, algumas cenas do filme parecem estar deslocadas com o resto da trama, com tons diferentes e algumas tentativas de humor mal colocadas e forçadas. Não é algo que inviabiliza a narrativa, mas que definitivamente poderia ter recebido um trato diferente em algum tratamento do roteiro.

“Guerra Civil” é um filme que trata de um assunto delicado, ainda mais nos tempos que vivemos hoje. Um olhar tendencioso pode acabar tirando conclusões que não são justas ao filme. Com o orçamento de 50 milhões de dólares, a produção se tornou a mais cara da história da A24 e nota-se que cada centavo deste dinheiro foi utilizado da melhor forma. É uma obra que pode afastar em alguns momentos com decisões que causam estranheza, mas que acaba sendo uma experiência audiovisual extremamente espetacular, estimulante, visceral, imersiva e difícil de ser replicada.
Nota: 8

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