Por Fernando Grisi

10 meses atrás eu assistia a um dos trailers mais instigantes dos últimos tempos. Se tratava do trailer do filme “Challengers“, nova entrada na filmografia do italiano Luca Guadagnino, diretor do incrível “Me Chame Pelo Seu Nome”, do remake de “Suspiria” e da minissérie pela qual sou apaixonado: “We Are Who We Are“. Adoro a maneira do diretor de pensar e de filmar, e desde então tenho criado uma expectativa crescente para o longa que estreia no Brasil nesta quinta-feira (25/04) com o título “Rivais”.

O motivo pelo qual tivemos todos que esperar tanto tempo pelo lançamento de “Rivais” foi a greve dos atores do ano passado. Sem suas estrelas de grande peso disponíveis para realizar a promoção do filme, que inclusive já tinha presença confirmada no Festival de Veneza, a Warner optou por lançá-lo diretamente nos cinemas em abril de 2024. Vamos então discutir um pouco sobre o filme e analisar se minhas altas expectativas conseguiram ser cumpridas.

A promessa de “Challengers“, e o que muito se tem falado sobre desde as sessões antecipadas e cabines de imprensa, é de ser um filme extremamente sensual, provocativo e frenético. E, de fato, é até difícil pensar em escrever sobre ele sem utilizar algum desses adjetivos. No entanto, acredito ser mais interessante analisar o que se encontra por trás de cada um destes seus aspectos no universo da história.

Mike Faist, Zendaya e Josh O’Connor em cena de “Challengers“. ©️Warner Brothers.

A narrativa é dividida entre passado e presente, e de maneira extremamente fragmentada. Começamos acompanhando um jogo entre os protagonistas masculinos, Art (Mike Faist) e Patrick (Josh O’Connor), com Tashi (Zendaya) presenciando a partida aflita. Não sabemos o contexto do jogo, mas sentimos seu peso e a tensão que há entre os jogadores. Tudo indica que há mais em risco nesta disputa do que apenas a conquista ou não de um troféu.

Não demora muito para começarmos a acompanhar a história em suas diferentes linhas do tempo, ao longo de 13 anos, desde antes de Art e Patrick conhecerem Tashi até o momento em que ela está casada com um deles. Há inclusive como enxergar as decisões da montagem em quando entrar e sair de cada momento no tempo dessa história como se fosse a própria progressão de uma partida de tênis, na qual em um momento um dos personagens está com a vantagem sobre a situação, mas rapidamente o jogo vira e o vemos em uma posição de desvantagem, de derrota, apenas para mudarmos de perspectiva uma vez mais, e de novo.

O triângulo amoroso entre os protagonistas é provavelmente o maior motivo de interesse das audiências que anseiam por assistir a “Rivais”. E, realmente, desde o momento em que os dois personagens masculinos colocam os olhos em Tashi Duncan há, tanto de maneira explícita por meio de diálogos quanto de modo implícito em sugestões visuais um desejo descomunal por parte deles. Tashi também se mostra interessada em conhecer mais os dois, e não demora muito para presenciarmos a primeira cena mais sexual do filme, envolvendo os três.

No entanto, ainda que haja várias cenas onde a sensualidade, o sexo e o romance predominam, o que é mais interessante em se perceber nessa(s) complexa(s) relação(ões) entre os três é que o verdadeiro relacionamento parece ser com o esporte em si. “Tênis é um relacionamento”, Tashi diz enquanto os três ainda estão se conhecendo quando jovens. De certo modo, mesmo as cenas mais quentes do longa parecem ser apenas uma construção para o verdadeiro relacionamento aqui presente: as partidas. Não que estas sejam o elemento de maior interesse do longa em si, pois o roteiro não possui essa vontade de nos mostrar jogos completos ou nos ensinar como o esporte funciona. Mas o modo com que os personagens se relacionam entre si mas também sempre e, principalmente, com os jogos, com a competição, com a carreira, faz com que o tênis seja o real motor de suas ações. Em uma outra cena íntima, Tashi e Patrick começam a fazer um dirty talking, falar sacanagens um para o outro. Tashi começa a falar sobre a performance de Patrick nos jogos, e Patrick pede para que eles não falem sobre tênis naquele momento, ao que Tashi apenas responde: “É tudo sobre tênis”.

A personagem de Zendaya, objeto de desejo dos dois homens, parece ser a pessoa ali que mais entende de tênis, e, consequentemente, a que mais entende de relacionamentos, o que dá a ela uma espécie de vantagem estratégica sobre os dois outros personagens fora das quadras. Ao avançarmos no tempo, percebemos um pouco mais claramente um lado um tanto manipulador de Tashi. Afastada das competições, sua verdadeira paixão se encontra nas mãos de outro, de seu marido, que parece, por sua vez, ter perdido a paixão que tinha pelo esporte. Ainda assim, mesmo que Tashi se esforce para assumir o controle do conflituoso triângulo no qual estão os três novamente envolvidos, mesmo que em circunstâncias diferentes, talvez seja justamente a impossibilidade de estar em um jogo, em um “relacionamento de verdade”, que faça com que a vantagem nunca seja sua também na vida real. Tashi é, para mim, a personagem mais intrigante e mais fascinante de acompanhar e de pensar sobre suas ações e motivações, algo que me encontro fazendo até agora.

Patrick, interpretado por Josh O’Connor, em cena chave com a personagem Tashi, interpretada por Zendaya. ©️Warner Brothers.

Todas as idas e vindas do roteiro, que inclusive é assinado pelo marido de Celine Song, diretora de “Past Lives“, culminam em uma partida final entre Art e Patrick. A partida que abre o filme. Desta vez, não estão jogando pela atenção de uma mulher. Estão jogando por muito mais, e pelo quê exatamente cabe a você captar, analisar e interpretar. Gosto muito de como, de modo geral, Justin Kuritzkes escreveu uma história na qual os personagens, mesmo às vezes parecendo que sim, não são fáceis de serem interpretados. Tanto Art como Patrick e também Tashi estão, no final do filme, carregando 13 anos de história compartilhada. Todos ali estão jogando por motivos distintos, incluindo Tashi, que faz suas jogadas mesmo sem raquete. E enquanto um personagem acredita ter um objetivo claro, outro está pensando que conseguiu manipular um terceiro que, por sua vez, tem seus próprios interesses, e todos comunicam essas trocas sem dizer uma palavra, apenas por suas ações e reações durante os sets. Filmado de maneira incrivelmente satisfatória e inventiva, a cena assume pontos de vistas diferentes para que continuemos a sentir cada mudança dentro daquele relacionamento. Toda a situação da partida, ou seja, todos os 10 minutos finais, te deixam extremamente ansioso não apenas para saber o resultado do jogo, mas também os resultados que virão após este resultado. Afinal, será que o verdadeiro relacionamento é realmente aquele dentro da quadra?

Guadagnino mostra mais uma vez que, independente do projeto que esteja realizando, sua voz autoral é forte e única. Seja em um romance intimista como “Me Chame Pelo Seu Nome” ou numa série adolescente como “We Are Who We Are“, ele sempre surpreende por seu modo de contar histórias, utilizando a técnica de forma inventiva a serviço de suas narrativas. Fiquei feliz em observar em “Challengers” as escolhas interessantíssimas feitas pela direção, Algumas já presentes em trabalhos anteriores dele, como frames que se congelam e personagens que aparecem/desparecem do quadro em um fade, ambos artifícios presentes em sua minissérie que aparecem novamente aqui. A trilha sonora tem uma energia absurda, e se faz bastante presente em cenas-chave, sem o menor pudor em aparecer, especialmente na cena final, quando a música também intitulada “Challengers” alcança seu ápice e torna quase impossível seu corpo não ter uma reação espontânea a ela. “Rivais” é um filme que, para além de toda sua pompa visual e promessas em satisfazer a audiência com uma trama de triângulo amoroso traz também muito potencial para discussão e modos distintos de interpretação. Definitivamente não deve ser perdido, e se possível, experienciado nos cinemas.

NOTA: 7,8

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