Por Fernando Grisi

O único filme que assisti cuja direção foi assinada apenas por Pedro Diógenes foi “Pajeú”. O longa de 2020 que mescla ficção com documentário não funcionou para mim em nenhum dos dois aspectos, mas por outro lado, “Inferninho”, de 2018, filme que Diógenes dirigiu em parceria (de longa data, inclusive) com Guto Parente, me impactou muito intensamente ao ponto de considerá-lo um dos melhores filmes brasileiros do século. Por conta disso, estava com uma boa expectativa para seu novo longa-metragem com direção solo, ao mesmo tempo que mantinha um pé atrás me impedindo de esperar muito dos trabalhos recentes do realizador cearense.

A premissa de “A Filha do Palhaço” foi o que de cara mais me atraiu quando a obra começou a entrar no meu radar no começo deste ano. Aqui temos a história de Renato, um ex ator que hoje apresenta shows de comédia em bares e casas noturnas de Fortaleza interpretando a drag Silvanelly. Um dia, ele recebe a visita inesperada de sua filha adolescente Joana, com quem há muito tempo não tinha contato, e os dois passam alguns dias juntos reconstruindo sua relação. O longa chegou a ser referido na internet, a partir de sua sinopse e trailer, como uma espécie de “Aftersun” brasileiro.

Jesuíta Barbosa, Demick Lopes e Lis Sutter em cena de “A Filha Do Palhaço”. © Embaúba Filmes.

Costumo gostar muito de histórias sobre pais e filhos. E, apesar de não ser também o maior fã de Aftersun, me dói admitir que “A Filha do Palhaço”, mesmo sendo uma história totalmente diferente, não foi capaz de me envolver em sua narrativa. Não me entenda mal, a trama de reencontro entre pai e filha que não se viam há muitos anos é emocionante e abre possibilidades de identificação e reflexão para quem já teve ou tem uma relação complexa com figuras paternas (o que parece ser o caso da maioria das pessoas hoje em dia, e, sim, é o meu também).

Mas talvez tenha sido justamente esta trama direta e bem tradicional no que se diz respeito a estrutura de roteiro que me impediu de enxergar o longa como algo para além de coerente e competente. Ainda mais levando em conta que o diretor foi um dos responsáveis por realizar “Inferninho”, que foge às normas tradicionais de construção de roteiro e personagens e justamente daí vem seu brilhantismo, em “A Filha do Palhaço” senti muita falta de algo que fugisse, ou ao menos expandisse, nossa noção do que deveria ou poderia ser uma história de reencontro entre um pai e uma filha. Porém, o que encontramos aqui de fato são todas as batidas tradicionais de um manual de roteiro clássico, preenchendo todos os requisitos para uma história linear que desenvolve seus temas mas sem espaço para uma maior originalidade ou inventividade, seja em suas batidas ou em seus diálogos, o que para mim fez com que nada em especial se destacasse na produção.

No entanto, isto também não quer dizer que o filme não funcione no que se propõe a fazer. As mensagens e visões que são transmitidas e observadas durante a duração são genuínas e bastante sensíveis, somente entregues de maneira que me pareceu demasiado óbvia e por vezes desinteressante. Mas Demick Lopes entrega uma boa atuação com várias camadas no papel principal, Jesuíta Barbosa é sempre um deleite para os olhos, e, apesar da estreante Lis Sutter, que interpreta a filha, ser bem limitada e apenas mostrar uma boa atuação em alguns poucos momentos, o filme não possui muitos deméritos propriamente ditos que poderia elencar aqui.

Mesmo com todas as minhas questões pessoais explicitadas acima, recomendo que assista a “A Filha do Palhaço” se tiver a oportunidade e caso a premissa tenha lhe chamado a atenção. A história intimista e simples contada de forma linear e sem muitas surpresas ou invenções tem grandes chances de agradar aqueles que buscam por um simples entretenimento que consegue também emocionar, sem sair muito da caixinha do que já estamos acostumados a ver em filmes mais comerciais. Recomendo principalmente que assista com alguém da família. Acredito que a experiência pode ser ainda mais enriquecida se compartilhada entre pais e filhos, assim como o longa faz em sua história. “A Filha do Palhaço” estreia nos cinemas brasileiros dia 30/05.

Nota: 6,2

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