Ti West leva-nos de encontro à uma Hollywood em crise em MaXXXine. Decorrido aproximadamente seis anos após o massacre de uma equipe de atores amadores em uma fazenda no interior do Texas em X – A Marca da Morte (2022), e mais de uma década do desmoronamento dos sonhos febris da filha de um casal de imigrantes alemães em Pearl (2022), é chegada hora de Maxine Minx (Goth) reclamar por uma posição entre grandes estrelas de cinema como Bette Davis e Mia Farrow. Apesar de ensaiar um compromisso com o paralelismo entre sua protagonista estar correndo contra o tempo que lhe resta e a questão feminina dentro da indústria do entretenimento, este aguardado encerramento da saga que lançou um breve olhar às questões sexuais, políticas, e religiosas de uma América na iminência de lidar com mudanças sociopolíticas em seu seio chama atenção, na verdade, pela maneira como West apropria-se de referências em antemão a esvaziá-las em um encadeamento de causa e consequência monótono, dando vazão ao que parece ser uma mera adesão de códigos determinantes para então dobrá-los à uma ideia de sofisticação do cinema de gênero.

Imediatamente após sua audição para um papel em Puritan II, um “filme B com ideias A” dirigido por Elizabeth Bender (Debicki), a produção mapeia sua protagonista neste meio que substituí a suposta pacificidade do interior do Texas pelo caos de uma metrópole banhada pelas luzes neon como Los Angeles. Tendo escapado de Pearl e brevemente consciente que seu ‘fator X’ não tardará a ser considerado descartável pela indústria caso não consiga um papel relevante, o que resta à Maxine é sobreviver em uma cidade que está na iminência de uma crise, tomada pelo pânico decorrente dos assassinatos de Richard Ramirez e pela insatisfação de uma camada conservadora da sociedade norte-americana, que tem protestado em frente aos estúdios de cinema, culpando-os pela perversão e deterioração dos valores transmitidos de uma geração à outra. Não tarda, contudo, para que este cenário frutífero, materializado por meio da sobreposição de reportagens sobre o assassino em série e um split-screen embalado por Obsession, de Animotion, passe a exprimir o que esta trilogia tem sido: um território amplo de boas ideias vagamente exploradas.

É, portanto, através do olhar que o cineasta delega à exploração da crise moral no bojo conservador desta comunidade, do processo de culpabilização do cinema como sendo um antro de perversão aos bons costumes por comercializar o sexo e sensualidade em seus filmes, da maneira como esta mesma indústria lida com os corpos femininos ora objetificando-os ora descartando-os (“Tenho quase 33 anos”, aponta Maxine durante sua audição para Puritan II), que se torna possível perceber uma condução que perambula próxima a indiferença, perpassando as questões citadas enquanto não segue adiante com nenhuma tentativa de dar base ao drama que parte das ações de uma protagonista que segue empenhada em sobreviver em uma cidade que poderia matá-la na primeira oportunidade. É como se West começasse MaXXXine intencionado a resgatar uma parte dos elementos visuais e narrativos que o atraíram quando passou a ter contato com um cinema B – ou com a carreira de Brian de Palma –, mas então se recusasse a rearranjá-los de uma maneira menos óbvia, de modo a escapar da mecanização do “isso é certo porque está descrito nesta cartilha” por detrás da construção.

Goth retorna tão empenhada quanto esteve durante os capítulos anteriores, assídua para emprestar seu corpo e sua presença à construção de uma protagonista que ressurge inicialmente segura de si e de que será capaz de lidar com os problemas que estão sendo somados ao seu redor logo após os primeiros assassinatos e a chegada de John Labat (Kevin Bacon). Contudo, West assume decisões que pouquíssimas vezes tem relação com a tomada ou retomada de agência pela protagonista, tornando-a apenas uma parte da ação que está decorrendo neste meio de estrelato em colapso e não a centralizando como fundamental neste encadeamento, restando à atriz apenas o espaço que lhe é reservado para que possa falar cada sentença com seu melhor sotaque e com as melhores caras e bocas que têm demonstrado ser mais do que capaz de oferecer. Sim, Maxine Minx finalmente está em Hollywood, e quando MaXXXine começa, ela está prestes a conseguir o papel que impulsionará sua carreira como atriz. Sim, o assassino com luvas de couro está a sua procura. No entanto, decorrida primeira hora, por que tão pouco parece estar partindo de suas próprias escolhas?

Do assassino com luvas de couro ao personagem que visualmente faz as vezes de Jack Nicholson em Chinatown, da granulação da imagem às fachadas banhadas em neon e a estilização no processo de reconstrução de um período cuja faceta marginalizada do cinema chamava atenção justamente pela exploração despudorada dos corpos e da violência, Ti West cerca-se de referências, intencionado a novamente costurá-las nas relações dos personagens e com o meio enquanto dá forma à este novo cenário, da crítica ao tratamento das atrizes dentro da indústria do entretenimento e da sátira ao puritanismo da sociedade. Contudo, enquanto os capítulos anteriores souberam lidar com o peso do pastiche, o mesmo não ocorre neste, que vislumbra inúmeras oportunidades e não se debruça sobre nenhuma, perpassando os códigos com breves piscadelas. Não é um thriller sensual como uma peça de Brian de Palma em 80. E tampouco uma homenagem ao giallo, subgênero que parece ter assumido a dianteira para afagar o pensamento de que era o único que o cineasta não retornara até então. É um produto que soa como sendo o de menor autenticidade entre os demais, o mais próximo da assimilação das configurações de gênero e de sua consequente sofisticação.

Nota: 5/10

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