Por Thiago Barboza

Se algum dia você imaginou o que aconteceria se “Possessão” e “Meu Namorado é um Zumbi” tivessem um filho dirigido pelo Tim Burton, você não precisa mais imaginar o resultado. “Lisa Frankenstein” é um amálgama de referências do terror, do expressionismo, da literatura fantástica, da comédia que juntos criam um filme que mesmo parecendo difícil ser original, é um sopro de entreterimento e diversão.

O nome Frankenstein no título não é apenas coincidência. A trama do filme é uma subversão ao clássico romance homônimo, ao pegar o monstro criado pelo doutor maluco no conto e transformar o monstro em um desejo de uma adolescente repreendida no fim dos anos 80. Lisa, interpretada por Kathryn Newton, acaba trazendo de volta à vida um jovem rapaz da época vitoriana após uma tempestade misteriosa.

Antes de tudo, preciso separar um espaço para falar só de Kathryn. A jovem atriz é um esplendor em Lisa Frankenstein. Ajudada por um forte roteiro, Kahtryn se sobressai e encanta na timidez de sua personagem, na raiva, na emoção, no medo. Independente do recorte que você faça, é impossível separar a grande realização que Lisa Frankenstein é da atuação perfeita de Newton, acertando na mosca o tom de uma adolescente dos anos 80, mas que poderia ser de qualquer década.

A forma com o que o filme lida com o cotidiano de Lisa é muito criativo. Os principais momentos do filme parecem que são retirados da mente de uma adolescente divagando em sua cama, imaginando como seria viver um romance com um jovem de séculos atrás. A direção de arte e figurino dão um toque imprescindível para criar um cenário de fantasia que escorre para realidade de Lisa e dialoga não só com a imaginação da personagem como com as referências artísticas buscadas.

A produção é dirigida por Zelda Williams e roterizado por Diablo Cody. Este é o primeiro trabalho de Zelda, filha da lenda da sétima arte Robin Williams. Já Diablo já é conhecida no meio, tendo em seu currículo sucessos como “Garota Infernal” e “Juno”. Uma vez que você descobre que o filme foi roterizado por Cody, o humor ácido e as decisões criativas firmes que o filme tem começam a fazer bastante sentido.

A obra tem alguns momentos chave que ditam o rumo da trama e que podem pegar de surpresa alguns espectadores. São momentos rápidos que se não prestarem atenção, podem fácil se perder. Este, na minha opinião, é o principal destaque do roteiro, o não medo de seguir suas convicções. Além de um momento crucial bem no meio do filme, fica claro desde o início o distanciamento do clichê de romance entre os protagonistas.

O sentimento entre eles pode até aparecer, mas é algo sugerido pelo roteiro ao longo de sua duração e não algo condicionado ao primeiro momento de encontro entre eles e este também é um ponto que traz um ar de frescor para tramas desse tipo, onde parece que amores à primeira vista são indispensáveis. Isso também é acentuado pelo fato da diretora e a roterista serem mulheres e por serem mulheres, elas sabem tratar a personagem, seus sentimentos e vontades e rechacam a idéia da donzela que se apaixona rapidamente pelo cavaleiro.

A trilha sonora é outro destaque, ambientando o filme no fim dos anos 80 mas também dialogando com os sentimentos das personagens dentro de cenas específicas. As escolha das canções usadas não é apenas para dar um tom para a cena, mas para acrescentar com as letras das músicas andando paralelamente com a progressão narrativa de Lisa, Taffy e todos os personagens.

A sensação de gostar de um filme faz com que você queira destrinchar cada frame do filme e isso é maravilhoso. Sentir que você assistiu algo que te atingiu de uma forma positiva e que trouxe alegria para você é uma das diversas magias que o cinema nos proporciona. Para não correr o risco de ser prolixo e para deixar você descobrir Lisa Frankenstein da mesma forma que eu descobri, terminarei em breve este texto mas não antes sem dizer que este filme é uma linda homenagem não só para todos os realizadores que foram usados como referência, mas também uma homenagem ao público ao entregar um filme genuinamente bom, que com certeza deu gosto de se fazer e dá gosto de se assistir.

NOTA: 10

Deixe um comentário