Por Fernando Grisi
Acompanho o trabalho de Pedro Geraldo, diretore deste filme, há um tempinho (somos moots no IG inclusive, hi bestie!), então venho acompanhando a bonita trajetória de seu primeiro longa-metragem também, e acumulando antecipação para quando finalmente pudesse assisti-lo. Quando foi anunciado que o longa faria parte do catálogo da Vitrine Filmes, lançado através da recentemente retomada Sessão Vitrine Petrobrás, fiquei animado pela obra ter a oportunidade de ser lançada comercialmente nos cinemas, considerando a premissa simples e condução nada ambiciosa de sua narrativa, se aproximando muito de um cinema slow, algo nada comum de encontrarmos nas salas de cinema, ao menos não distribuído por grandes empresas.
A história de Sofia Foi é a história de Sofia. Não a história de sua vida, e nem de suas ações após ou durante um grande evento traumático e/ou de grande impacto em sua vida. Mas sim a história de um período bastante reduzido de tempo (uma madrugada) na qual a protagonista, interpretada pela atriz de mesmo nome, Sofia Tomic, vagueia pela universidade a qual estará deixando em breve, no caso a Universidade de São Paulo (USP).
Faz um tempo que não apareço por aqui para escrever uma crítica, e para quem se lembra de ter lido algo que escrevi sabe que chegou o momento de ficar pessoal. Também estou enfrentando atualmente o processo de deixar a faculdade. E com isso o de deixar cidades também. Escrevo agora de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, pouco mais de 24 horas após ter cruzado três estados voltando para casa da cidade na qual curso Audiovisual. Toda vez que retorno fico com um sentimento misto de prazer, por estar voltando para o ambiente que me é mais familiar e pacífico, mas também há um certo arrependimento, uma sensação ruim de que estou fugindo de uma possibilidade de vida que vinha construindo, que estou virando as costas para uma parte de mim que tem seu desenvolvimento pausado toda vez que atravesso uma linha imaginária. Não sei para onde irei depois de me formar, e esta travessia/não travessia/futura travessia conversou muito com a proposta de Sofia Foi para mim, mesmo com a estranheza de uma obra que transmite seus signos e significados em pouco tempo mas decide se alongar bastante neles.

Como estudante universitário consigo me identificar rápida e facilmente com alguns dilemas e situações postos à Sofia. Quem nunca se viu de repente em meio a um “rolê aleatório” dentro da faculdade certamente ainda o fará. Ainda mais se fizer parte de uma universidade grande e diversa como a de São Paulo. Assim como na grande cidade, entre seus prédios haverá na sua noite uma menina chorando baixinho sentada num canto do corredor, alunos dormindo nos sofás dos centros acadêmicos em meio a fumaça, e pessoas se beijando numa festa ao ar livre enquanto bebem álcool de procedência duvidosa misturado com suco em pó pelos pés de um veterano. Enquanto Sofia tatuava pessoas no meio do departamento em uma mesa móvel, ou procurava um canto seco e relativamente seguro para cochilar, eu era levado a memórias de universidade que, mesmo não sendo exatamente as mesmas, e mesmo tendo sido estas interrompidas bruscamente pelo aparecimento de um vírus, me fizeram ter apreço e até felicidade por poder fazer parte das pessoas que conseguem ter estas experiências, e felicidade também por estar vendo experiências parecidas retratadas e imortalizadas em tela.
Sofia Foi não funciona como uma aventura pelos prédios da USP, nem mesmo aventura intimista, e nem mesmo como estudo de personagem. É justamente o oposto. As “tentativas” do filme em mover sua personagem para frente são como as próprias tentativas de Sofia em se mover, se deslocar da situação estagnada na qual se encontra e que francamente parece ter ela mesma se colocado. Poesias e frases de efeito não são suficientes para nos fazer torcer ou mesmo nos importarmos com a personagem do título, mas é o que temos, pois é o que Sofia também tem para hoje. Não conhecemos nada a respeito de nossa protagonista, o que é uma subversão de convenções de personagem muito bem aplicada ao considerarmos as reflexões aqui propostas a respeito de identidade, busca de sentido na vida, efemeridade de relacionamentos, o local social que pessoas jovens ocupam, etc. etc. etc.
Suas poucas trocas de diálogos com colegas e desconhecidos não são suficientes para que a entendamos como pessoa, mas abrem frestas para os pensamentos, contradições e talvez esperanças que existem atrás de sua expressão fechada. Ao mesmo tempo, ao não ter para onde ir, ou melhor, não ter como ir, as memórias de afetos, beijos, carícias e desenhos, permanentes ou não, são tudo que restam. Afinal, ao deixar tudo isso também para trás, memórias serão realmente tudo que restarão. O ciclo se repetindo infinitamente. Se Sofia Foi não é como uma tatuagem de coração feita com tinta que sairá no banho do mesmo dia, eu não sei o que é. Tirem disso o que quiserem, mas não deixem de tirar algo. Ao menos talvez possamos ter o coração de tinta tatuado em nosso braço novamente em breve.
Sofia Foi estreia em circuito limitado nesta quinta feira (19/09). Apoie o cinema independente brasileiro nos cinemas!
Nota: 6,0

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