Por Fernando Grisi
Adquirido pela A24 após vencer o prêmio de melhor direção no Festival de Veneza deste ano, “The Brutalist”, ou “O Brutalista” chama atenção por sua pretensão em ser um novo épico americano, um daqueles “filmes que não se fazem mais hoje em dia”. Com 3 horas e 35 minutos de duração, dividido em duas partes, incluindo um intervalo de 15 minutos durante a projeção, o longa de Brady Corbet, um diretor não tão experiente, conta a história de László Toth, um ex-arquiteto e imigrante Judeu da Hungria que teve que deixar seu país após a segunda guerra mundial e se mudar para o estado da Philadelphia, nos Estados Unidos.
O Brutalismo é uma vertente da Arquitetura que valoriza a simplicidade, a verdade nas construções, com presença muito forte de concreto sem muitos acabamentos ou decorações, somente o necessário para que o edifício funcione. Sua característica marcante faz com que muitos se afastem desta estética por ser monumental e “fria”, enquanto seus adeptos a adoram por ser simples e honesta. László, nosso protagonista, é um grande adepto do Brutalismo (daí o título), e sua paixão pelo estilo de construção abre caminhos para suas paixões e rejeições emocionais também.
Vou começar dizendo que, como épico, “O Brutalista” ficou aquém do esperado para mim. Claro, o valor de produção é visível em praticamente todas as cenas, e a longa duração permite que a história seja contada de maneira paciente através dos anos. No entanto, ao longo da projeção não pude deixar de comparar a natureza épica do filme com outros semelhantes, e o principal que me veio à mente foi “Sangue Negro”, de Paul Thomas Anderson. Não acho muito justo comparar filmes apenas para facilitar um argumento, mas me lembrando de como “Sangue Negro” construiu sua jornada épica com visuais inesquecíveis e uma construção impecável de seu protagonista, passei boa parte de “O Brutalista” aguardando por algo que me fizesse comprar de vez a ideia de que esta história e a maneira com a qual ela estava sendo contada era importante.

A trama traz temas como a desconstrução do sonho americano, com pinceladas de crítica à intolerância religiosa e aos grandes aristocratas estadunidenses e suas contradições. É uma narrativa clássica de ascensão e queda, na qual seu protagonista irá se reconstruir do zero em um país que não é o dele, sendo menosprezado e achincalhado pelas pessoas que o acolheram e também por pessoas de fora, até que seu talento passa a ser reconhecido por um potencial cliente, impecavelmente interpretado por Guy Pierce. Este sendo um aristocrata que praticamente controla a cidade onde estão, e que dá ao imigrante a chance de não apenas retomar sua carreira e sua dignidade, mas também de se provar como artista, deixando uma permanente marca na arquitetura daquela cidade.
Nosso personagem principal, László, é a melhor coisa do filme. Adrian Brody já se provou como ator anteriormente, mas aqui consegue encarnar perfeitamente as contradições de sua caracterização. Há uma luta interna acontecendo a todo momento com ele. Como um sobrevivente do Holocausto, é óbvio que carrega consigo muitos traumas, e, durante a primeira parte do filme ainda está afastado das pessoas que ama: sua esposa e sua sobrinha. E ainda assim parece que há algo de estranho em seus desejos de reencontrá-las. O sofrimento de estar longe delas o perturba, mas quando é chegado o aguardado reencontro, a relação entre eles se mostra bastante complicada, e o próprio László se mostra já cansado, ou até mais infeliz do que estava quando sozinho. Aqui há vários momentos em que Felicity Jones brilha no papel da esposa, Érzsébet, que se mostra simpática e até submissa com a família do aristocrata que emprega seu marido, mas que não é ingênua e não tem medo de defender sua família e seus valores mesmo em uma situação difícil.

Outro destaque da produção para mim, mas que fiquei com vontade de ver mais, é seu flerte com o místico, com o sobrenatural. Com uma duração tão estendida, senti que o filme se perdeu em alguns fios temáticos que inicialmente havia pensado em abordar. Como acompanhamos László de perto durante muitos e muitos anos, é possível classificar a obra também como um estudo de personagem, mas os lampejos que temos da cabeça do protagonista são curtos e embaralhados. Algo que não é necessariamente ruim, afinal, um filme não precisa nos contar/mostrar tudo, mas senti que teria gostado de ter um acesso maior a psique do personagem de Adrian Brody, já que é ele que acompanhamos por todas as três horas.
A relação do longa com o mágico, por assim dizer, veio em boa hora, apesar de demorar para acontecer, e para mim foram os melhores momentos, pois juntaram a Arquitetura (a paixão de László), bem como seus problemas com drogas que por sua vez refletem em sua personalidade, sua visão sobre si mesmo, e consequentemente afeta a maneiro como o restante da sociedade o vê, assim ditando a maneira como é tratado por ela. “Se você se vê como um lixo, as pessoas vão te tratar como lixo”, diz o personagem de Guy Pearce para ele enquanto o trata como algo muito pior. Todos os momento em que há esta brincadeira com o místico são muito bem filmado, montados e mixados, com ecos nas falas dos personagens, planos que parecem se repetir e a sensação de que estamos entrando mesmo na cabeça das pessoas da história.
“Ao contrário do que querem que você acredite, é o destino, e não a jornada, que importa”. O epílogo de “O Brutalista” nos mostra que tudo é mutável, que nossa história ou nossas intenções pouco importam perante o mundo e sua própria história. Por mais que tentemos controlar a narrativa, ou fugir dela, estamos todos submetidos ao espírito do tempo. Assim como a vanguarda arquitetônica, seu seguidor Lászlo Toth, o Brutalista, também se mostra bruto porém simples, honesto mas também oculto. Sua grande criação durante o filme é um enorme símbolo da contradição dentro de si e também dentro da comunidade a qual pertenceu na Philadelphia. László depositou toda a sua força, suas esperanças e sua vida em um santuário que não condizia com aquilo no qual acreditava. Talvez o próprio fato de tentar construi-lo a sua maneira foi a forma que encontrou de assumir algum controle sobre ao menos um aspecto de sua tão sofrida vida, a antiga e a nova. Um santuário que, ao menos em minha leitura, acaba se tornando um mausoléu ao fim do filme, mas que talvez já tivesse sido desde o início de sua criação, uma maquete de um desenho do mausoléu que sempre habitou a prisão que é a mente de László Toth.
Em resumo, “O Brutalista” traz uma história de grandes proporções de maneira dinâmica e que entretém sem cansar o espectador (não achei o intervalo necessário). Não apresenta nada de muito original ou diferente de histórias com premissas semelhantes, mas definitivamente abre espaço para discussão, e claro, apreciação estética. O filme chega aos cinemas brasileiros pela Universal no dia 02 de fevereiro de 2025, e se beneficia de uma experiência em tela grande e sala escura.
Nota: 7,4

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