A busca por acolhimento dentro da velocidade que domina as interações na metrópole.
Vencedor do grande prêmio do júri durante a 77ª edição do Festival de Cannes, Tudo o que Imaginamos como Luz explora a irmandade e a rotina de três mulheres que estão buscando pela oportunidade de retomarem as rédeas de seus próprios destinos. Escapar de uma dinâmica de gênero e classe que as oprime tanto direta quanto indiretamente está na essência deste drama da cineasta indiana Payal Kapadia (A Night of Knowing Nothing).
O drama acompanha três mulheres, enfermeiras, cada uma de uma geração diferente, e, consequentemente, contextualiza esta representação contemporânea de Mumbai por meio de suas experiências. Prabha (Kani Kusruti) e Anu (Divya Prabha) são colegas de apartamento; a primeira tem aguardado pacientemente pelo retorno de seu marido, que está trabalhando na Alemanha e raramente entra em contato, e a segunda vive um romance ao lado de Shiaz (Hridhu Haroon), ciente de que seus pais não o aprovariam. E por último, Parvaty (Chhya Kadam), que está as vésperas de ser despejada de sua casa após o falecimento de seu marido e o início de uma reapropriação do terreno por uma construtora local.
O primeiro amor e a negação de um futuro que está sendo planejado por seus pais, a incomunicabilidade que surge ao longo de um casamento a distância, e a consequência do agressivo processo de apagamento da própria identidade após anos de devoção matrimonial. Kapadia é direta, sabe bem o que quer contar e o que pretende deixar a margem do quadro. Esta não é uma história pretendida a reforçar quaisquer cenários que lidem com a culpabilização de fatores presentes em uma hierarquia social, e sim explorar os sintomas da marginalização feminina dentro de uma metrópole como Mumbai, como se os dissecasse por meio das inseguranças, das alegrias, das tristezas, e das paixões destas mulheres.
Kapadia centraliza Prabha neste drama. É seu olhar sobre estes acontecimentos que estabelece um paralelo, e por consequência também revela como se dá a progressão da dinâmica de gêneros na Índia, entre o primeiro amor de Anu e a luta de Parvaty para ser reconhecida como uma cidadã com direitos após o falecimento de seu marido. A ruptura da inércia da enfermeira-chefe em relação a própria vida, aguardando o retorno de seu marido, ocorre durante uma pequena mudança em sua rotina: a chegada de uma panela elétrica.
Contudo, mesmo com a chegada da panela elétrica e a reação das personagens, é somente com a passagem de Mumbai para um pacato vilarejo no litoral da Índia que torna-se possível para estas mulheres buscarem por esclarecimento. Longe da cacofonia e da opressão do capital dentro de uma metrópole que tem crescido de maneira desordenada, em um processo de constante destruição e reconstrução enquanto milhares são empurrados rumo à marginalização, finalmente é possível compreender uma parte de si mesma. A paz passa a ser novamente uma possibilidade para elas.
Em Tudo o que Imaginamos como Luz, Kapadia encontra esperança no próprio ciclo, na beleza da incompletude de um retrato que acaba por revelar um amanhã possível para estas mulheres. O último quadro, centrado em quatro dos personagens sentados lado a lado contemplando o oceano, revela-se otimista. Eles de fato não sabem o que os aguarda quando retornarem à cidade, ao caos da metrópole, a marginalização, mas sabem que encararão de uma maneira diferente a como encaravam antes da viagem ao litoral da Índia.
Nota: 9,0/10

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