Por Fernando Grisi

“We Live In Time” é a mais nova distribuição da A24 nos EUA, e no Brasil chega pela Imagem Filmes no dia 31 de outubro com o título “Todo Tempo Que Temos”. O filme conta a história do relacionamento de Almut (Florence Pugh) e Tobias (Andrew Garfield), de maneira não linear e ao longo de vários anos, desde que se conheceram por acaso até o momento em que estão criando uma filha juntos.

O destaque da produção é, sem dúvidas, a química entre Florence Pugh e Andrew Garfield nos papéis principais. Almut tem uma bondade e uma delicadeza inatas, mas também é alguém que sabe o que quer e está disposta a seguir seus objetivos profissionais sem colocar situações pessoais no caminho. Enquanto Tobias é um romântico sonhador que sempre quis uma família, e por isso não é tão ambicioso quanto Almut. Os contrastes entre os dois não são fortes o suficiente para esta ser uma história sobre brigas de casal, idas e vindas e decepções amorosas, mas ressaltam diferenças-chave no que diz respeito ao tema principal proposto pelo longa: o tempo.

Não é spoiler o fato de que o maior conflito enfrentado pela recém formada família é um câncer de ovário que está se desenvolvendo rápido em Almut. E, com esta péssima notícia, dada logo no início do longa-metragem, o casal precisa decidir como seguir. Tobias, seguindo o caminho que parece mais racional, pensa que deveriam tentar todos os tratamentos possíveis para que sua esposa se recupere e possam seguir sua vida juntos. Já Almut se encontra um tanto mais pessimista neste momento, mas também mostra uma intensa vontade de viver. Mas não sobreviver, viver intensamente. Ela pergunta: e se ao invés de passarmos meus últimos meses com tratamentos horríveis que não funcionarão, não usamos estes meses para fazer o que quisermos, sem medo?

Florence Pugh e Andrew Garfield em cena de “We Live In Time”. © StudioCanal/Film4.

E assim entramos de cabeça no cotidiano de Florence Pugh e Andrew Garfield vivendo um casal que tenta seguir a vida normalmente em meio a esta ameaça. E, novamente, como isto acontece de forma não linear, nossa percepção do tempo também muda ao longo da história. A montagem do longa, responsabilidade de Justine Wright, é muito eficiente em nos dar uma perspectiva variada da personalidade do casal protagonista. É muito gostoso acompanhar a mudança de Almut em relação a sua decisão de não querer filhos para a antecipação em poder criar uma criança ao lado de seu marido.

Muitas das pessoas que já assistiram ao filme reclamaram justamente deste aspecto, aliás. Sentiu-se que Almut perdeu um pouco de sua independência e de sua garra para alcançar objetivos profissionais ao decidir ter uma filha e se dedicar mais a seu papel de mãe e esposa. Apesar de entender o motivo do incômodo, discordo desta visão quando me lembro de como senti que ambos os personagens foram muito bem escritos e mudavam de acordo com as passagens de tempo da história. Assim, me pareceu somente natural que Almut, em um primeiro momento, no início de seu relacionamento com Tobias tenha rejeitado completamente a ideia de ter filhos, e após algum tempo, com os dois ficando cada vez mais próximos e sua visão sobre eles mesmos e sua relação ter mudado, tenha também mudado de ideia em relação a ser uma mãe.

É refrescante e satisfatório assistir a uma comédia romântica na qual acompanhamos o crescimento do romance de forma tão sensível, sincera e detalhada. E, sim, há muitos momentos tristes para além dos alívios cômicos e cenas românticas, visto que há uma tragédia iminente pairando sobre esta família durante boa parte do filme, mas o tema nunca é tradado de forma a se tornar o principal aspecto da narrativa, nem mesmo trazendo uma qualidade melodramática à trama. Tudo aqui é tratado de maneira muito similar a como seria vivido em um romance real, por pessoas reais com problemas, preocupações e paixões reais. E, apesar do drama, este é um filme para apreciar como o tempo é percebido de maneira e peso diferente por cada personagem em cada fase da vida, mas também como o amor não conhece, ou não se importa, com as barreiras do tempo.

Nota: 8,1

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