Por Fernando Grisi.

“A Different Man” estreou no Festival de Berlin deste ano, onde Sebastian Stan venceu o prêmio de melhor atuação, e desde então venho me interessando por sua premissa intrigante sobre um homem que decide mudar completamente sua identidade.

Sebastian Stan interpreta Edward, um ator que tem o rosto deformado, e por isso não consegue papéis fora de seu estereótipo de “pessoa deformada”, como são chamadas satiricamente no filme. Quando conhece sua nova vizinha Ingrid, interpretada por Renate Reinsve, os dois começam a se aproximar e, ela sendo uma dramaturga, diz que irá escrever uma peça para Edward atuar.

No entanto, o ator se cansa de viver com sua deficiência, e aceita participar de um experimento médico que promete “curá-lo” de sua condição, e que se mostra assustadoramente eficiente. Assim, Sebastian Stan, que até então usava uma prótese imitando o rosto característico de Adam Pearson, retira sua “máscara” e resta apenas o estereótipo de homem atraente no qual o próprio ator se enquadra. Edward então decide assumir uma nova identidade completamente, ao invés de explicar o acontecido para Ingrid. Muda seu nome para Guy (que em português significa “cara, moço”), e só depois descobre que Ingrid realmente escreveu uma peça sobre Edward, e está buscando atores com deformidades faciais para interpretar o protagonista. Guy, mesmo sendo um “cara normal” agora, vai tentar conseguir o papel que, afinal, foi mesmo feito para ele. Mas é aí que o personagem de Adam Pearson, Oswald, entra em cena, e o filme toma um novo rumo deliciosamente cômico e tematicamente profundo.

Sebastian Stan interpretando Edward em “A Different Man”. ©A24.

Falei até que bastante sobre alguns pontos da história, mas foi somente porque não vou voltar a falar dela especificamente, e queria criar um bom contexto para a discussão desta crítica. Além disso, este longa tem seu triunfo muito mais em como as situações acontecem, e não o que elas são propriamente.

Enquanto assistia ao filme não pude deixar de fazer comparações ao cinema de Kristofer Borgli. Em “Doente De Mim Mesma” há uma situação quase oposta à desta obra, na qual uma mulher decide que a solução para sua vida miserável é adquirir uma deformidade física. Já em seu trabalho mais recente, “O Homem Dos Sonhos”, estrelado por Nicolas Cage, há uma semelhança até mesmo estética, na maneira que os dois filmes são fotografados, e tematicamente em como levantam discussões sobre o politicamente correto, a ética em julgarmos alguém apenas pelo que sabemos dela, e a autopiedade que nos infligimos.

O subtítulo que escolhi para esta crítica, “Confissões de uma Máscara”, é sim uma referência ao romance de Mishima. Apesar de não terem semelhanças óbvias, o que mais me pegou em “A Different Man” foi a representação, através do drama e uma pitadinha de terror corporal (aliás, cada vez mais convencido que o body horror é um ótimo gênero para tratar questões de identidade), de como sentimos a necessidade de nos enquadrar e nos encaixar na sociedade exatamente do jeito que ela espera que o façamos, e independente de como nos sentimos realmente em relação a isso. E é aí que entramos em uma dualidade de interpretações a respeito de máscaras que utilizamos ou deixamos de utilizar diariamente que irei tentar explorar a seguir.

Adam Pearson & Sebastian Stan como Oswald e Guy em “Um Homem Diferente”. ©A24.

No início do filme um personagem lembra despretensiosamente de uma frase que (ele acha que) Lady Gaga disse uma vez: “Não há porque tentar mudar as coisas, temos que aceitá-las como são.” Uma frase bem impactante, apesar de batida, e claramente nada a ver com a Lagy Gaga, em meio ao dilema do nosso protagonista, que está pensando em justamente alterar sua fisionomia por completo. Aqui é interessante apresentar os lados deste dilema e suas implicações, ou seja, discutir sobre se a decisão de Edward o favoreceu, desfavoreceu ou se não fez diferença perante o grande esquema das coisas.

Se por um lado Edward finalmente conseguiu se livrar da característica que fazia com que as pessoas olhassem de modo diferente para ele, por outro ele perdeu aquilo que o fazia único. E, afinal, sua personalidade não foi alterada. Então o que Edward (agora como Guy) está fazendo é baseando sua “nova” personalidade em sua aparência física. O que, se pararmos para pensar, ele na verdade já vinha fazendo desde sempre, apenas com uma visão oposta.

Não é novidade para ninguém o fato de que a aparência não é tudo na vida. Mas…será que não é mesmo? É estranho ver que, ao mudar de aparência e agora ter o rosto de um “homem normal”, ou até de um “homem bonito” o personagem principal decide interromper sua carreira de ator, e se torna corretor de imóveis. Apesar de ser bem-sucedido, fiquei intrigado com a decisão de se afastar da atuação, sendo que agora com seu novo físico poderia facilmente se aventurar na área que desejasse. Mas a maneira que interpretei foi como se Edward tentasse deixar para trás tudo que representasse sua vida pré-tratamento. É ele mesmo que declara a morte de Edward, e que cria Guy como sua nova persona. Agora ele utiliza esta máscara, que não replica uma deformidade, mas faz algo ainda pior: não permite que seu portador seja enxergado de verdade. Talvez nem mesmo ao se olhar no espelho.

Sebastian Stan como Guy em cena de “Um Homem Diferente”. ©A24.

A aparição de Oswald (Adam Pearson) na narrativa desperta no personagem de Sebastian Stan uma inveja imensurável. Alguém que se parece exatamente como ele se parecia no passado, mas que a maneira de lidar com isso é oposta. Oswald é bem-humorado, leve, divertido, caridoso e extrovertido. Enquanto Guy não consegue deixar de parecer um estranho em seu próprio corpo. É aqui onde vemos as impressionantes atuações dos dois em seu máximo. O personagem de Pearson inclusive pode ser até interpretado como positivamente tóxico. Ele é alguém que, apesar da deformidade facial, não a vê como definidora de sua vida ou de suas possibilidades. Alguns dos momentos mais engraçados do filme acontecem ao presenciarmos Oswald fazendo algo que Edward nunca conseguiu, principalmente por medo, e que, nem mesmo agora em sua “máscara” de Guy, consegue fazer. Os dois personagens, apesar de já terem possuído o mesmo rosto, são quase opostos, e é isto que dá uma energia e cria uma antecipação eletrizante para querermos saber o que vem a seguir.

Oswald talvez sirva para mostrar a Edward que na realidade este é quem ele é de verdade, e que, negando sua identidade, Edward acabou por comprometer qualquer chance que tinha de alcançar suas realizações, tanto pessoais quanto profissionais. Parece óbvio dizer, mas nossas vitórias, bem como nossos fracassos, estão ligadas a nós mesmos. Não são transferíveis. Sabe quando pensamos “O que eu faria de diferente se voltasse para a época que tinha 18 anos?”. E é um pensamento besta, porque não faríamos nada de diferente. Teríamos 18 anos novamente e a mesma mentalidade e condições, e por isso muito provavelmente faríamos as mesmíssimas escolhas que nos trouxeram até aqui.

O personagem de Sebastian Stan sente que sua vida foi roubada, e cria um ódio por Oswald mesmo este sendo provavelmente a pessoa mais adorável do mundo. Ora, se eu não posso ser feliz mesmo com um rosto “perfeito” obviamente não vou querer que este cara com o rosto deformado (e aqui entramos em discussões muito interessantes sobre o auto ódio também) seja feliz ou alcance seus objetivos. O resultado de tanta raiva acumulada, somado ao arrependimento por ter mudado quem ele era e uma crise de identidade gigantesca fazem com que o protagonista entre em uma jornada de destruição (e consequentemente autodestruição) que leva o filme a lugares inesperados.

“Um Homem Diferente” já tem data para estrear nos cinemas brasileiros: dia 12 de dezembro, um lançamento da distribuidora Clube Filmes. Não deixem de conferir nas telonas!

Nota: 8,6

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