Por Matheus Britto.

No cinema de Sean Baker, o que prevalece é a “expressão individual” descrita anteriormente por John Cassavetes em What’s wrong with Hollywood, texto publicado em meados de 1959. É por seguir uma lógica semelhante àquela empregada pelo cineasta de Uma Mulher Sob Influência (1974) no que dizia respeito a compreender um filme como um retrato das vidas reais de pessoas reais, comumente negligenciadas pelo padrão estabelecido pelo sistema de estúdio, ou seja, aquele que valoriza uma suposta persistência por parte daqueles que estão em busca do Sonho Americano, que o cinema do diretor de Tangerine estabeleceu-se como um ponto que segue na contramão de lançamentos que tem demonstrado predileção à fantasia dos valores e a rejeição de uma América que há muito está em decadência. Em Anora, para narrar o desencantamento e a descoberta da farsa, Baker filia-se à títulos como Depois das Horas (1985), de Martin Scorsese, e Showgirls (1995), de Paul Verhoeven.

Estar em movimento. Estar em busca de um sonho ou da garantia de um amanhã. Nunca parar porque isso significaria ser deixado para trás, principalmente para os personagens como os dirigidos por Sean Baker, inseridos em contextos que lamentam a decadência do mundo por meio do caos e do transicional que opera por sobre as relações, oprimidos, conscientes de que estão sobrevivendo as margens de um sistema. Como em Sweet East, estreia de Sean Price Williams na direção de um longa-metragem após um longo histórico de colaborações com cineastas independentes que surgiram mais ou menos na mesma época que Baker, ou até mesmo como em A Substância, de Coralie Fargeat, Anora assume a roupagem de um conto de fadas sem que para isso tenha que descartar seu compromisso com um olhar moderno. Um Cinderela às avessas que, ao recorrer ao bom humor das comédias screwball para mascarar a tragédia prenunciada, revela a suposta inevitabilidade do destino de uma mulher como Anora (Mikey Madison).

Baker sabe que para fazer sua própria versão de Showgirls – ou pelo menos ensaiar uma aproximação com o clássico estrelado por Elizabeth Berkley e filmado por um então outsider do sistema de Hollywood –, para tecer uma crítica ao Sonho Americano e suas promessas, a transformação do corpo feminino em mercadoria, a sua espetacularização para dar vazão ao prazer masculino, a exploração do trabalho, não é necessário fazer com que seus personagens permaneçam em Las Vegas. Basta, em meio à euforia destes adolescentes despreocupados, levar uma parte do sonho de Anora de ascender socialmente para lá, considerando que, decorrido mais de uma década desde seu lançamento, o porquê do pessimismo de Paul Verhoeven para sobre a maneira como Sonho transforma as relações está mais do que claro. Não é por acaso que, entre as bebedeiras e o sexo, a união deste romance surgido da incomunicabilidade e fadado ao desencanto das partes é selada na calada da noite, quando seus personagens finalmente atendem ao anseio e a inquietação.

O melhor de Anora, entretanto, não está na inserção da protagonista no mundo de Ivan (Mark Eidelsthein), materializado como parte de uma realidade de possibilidades infinitas e oportunidades frutíferas, despreocupação e fanfarrice com uma riqueza que até então estava além do que sequer poderia ser sonhado para um cenário tão mundano quanto o da casa noturna onde Anora trabalha e o primeiro encontro com o rapaz russo acontece, e sim no modo como Baker preza pela movimentação de seus personagens enquanto o sonho começa a desmoronar gradualmente, dando lugar à incerteza quanto ao fato do matrimônio estar ou não em segurança. Em uma Nova York com suas luzes neon borradas, eles buscam pelo príncipe encantado e irresponsável que, temendo perder os privilégios dos quais goza por ser filho de um oligarca russo, optou por escapar, deixando sua princesa supostamente amada para trás, à mercê dos capangas e da verdade quanto a maneira como àqueles que estão no topo da pirâmide social encaram as relações em um cenário transicional.

O cineasta reforça e aprimora o melhor de seu cinema humanista por meio da retomada de alguns dos temas que abordou em Tangerine, principalmente no que diz respeito a ser contrário a uma dinâmica que rotineiramente reproduz os estigmas relacionados aos trabalhadores sexuais, e da inquietação a qual recorre para dar forma à uma noite nova-iorquina dentro de um filme que até então filiara-se às clássicas comédias screwball para narrar a rapidez do envolvimento amoroso entre Anora e Ivan. Baker nunca deixa de demonstrar ternura por sua protagonista, de ser sensibilizado por seus dilemas e por suas reações diante do lento desmoronamento de seus sonhos. Do momento em que a segurança do casamento é colocada em xeque, embora a dançarina demonstre ser aparentemente inabalável no modo como lida com as circunstâncias, ele está ciente de que chorar e lamentar por um mundo que não a reconhece como nada além de uma peça invisível em um tabuleiro social é apenas questão de tempo. Contudo, ele segura o choro, e consequentemente faz com que o público faça o mesmo, liberando-o apenas quando estamos nos termos da própria Anora.

Nota: 9/10

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