Por Fernando Grisi
Gosto do Trey Edward Shults. O diretor estadunidense ficou 6 anos sem lançar um longa-metragem, após escrever e dirigir “As Ondas” (“Waves”) para a A24 em 2019, e agora retorna às telonas em uma parceria com The Weeknd.
Shults também é o responsável pela direção e roteiro do interessantíssimo terror “Ao Cair Da Noite” (“It Comes At Night”), de 2017, também uma parceria com a A24. Seus filmes costumam ser divisivos, mas gosto da forma com que ele filma os personagens e como decupa de maneira inusitada. E neste longa ele também foi o único responsável pela montagem. No entanto, as escolhas visuais ousadas de Trey Edward Shults não foram suficientes para tentar dar significado e profundidade ao que considero um trabalho feito exclusivamente para vender as novas músicas de The Weeknd.
O principal problema da produção, para mim, parte desde sua concepção. Primeiramente, o roteiro foi uma colaboração entre o diretor Trey, o cantor (e agora ator, aparentemente) The Weeknd, aqui creditado por seu nome real Abel Tesfaye, e Reza Fahim. Estes dois últimos responsáveis por criar a infame minissérie de 2023 “The Idol”, que comentamos na época em Spaces no nosso twitter. “The Idol”, apesar de não ser tão desastrosa como se falou na época do lançamento, nos serviu um grande vazio vendido como espetáculo, em todos os sentidos: estético e narrativo.
Em “Hurry Up Tomorrow”, até temos valor estético aplicado às cenas (créditos ao diretor e seu diretor de fotografia Chayse Irvin, que fez filmes bem interessantes), mas eles também acabam caindo no território da previsibilidade. Às vezes parecia que os planos ‘diferentões’ e a ‘blocagem’ estavam não exatamente servindo à história mas apenas checando alguns requisitos do que seria uma atmosfera … ‘diferentona’. Por exemplo, depois de algumas cenas, fiquei me perguntando quanto tempo demoraria para termos um plano com a câmera de cabeça para baixo, apenas por conhecer o cinema de Shults e o que ele estava querendo fazer com as imagens de “Hurry Up Tomorrow”… e, depois de alguns minutos, o plano de cabeça para baixo aconteceu. Não é um problema propriamente dito, claro, mas entra na questão do filme parecer mais preocupado em alcançar um nível estético específico do que qualquer outra coisa. Algo típico de álbuns visuais, aliás, mas vou desenvolver.

O maior “problema” aqui, na minha opinião, é que a história tenta fazer comentários profundos a respeito de traumas, perdão e honestidade, mas acaba entrando no território da auto flagelação e autoindulgência que seria digno somente de, talvez, um álbum visual. E não falo isso com desdém, de forma alguma. Muitos álbuns visuais são brilhantes, inclusive há um ensaio aqui no site sobre um, mas nem todo álbum visual merece a atenção e a plataforma de um lançamento em longa-metragem em cinemas ao redor do globo. O que fiquei pensando durante toda a exibição do filme foi exatamente isso. The Weeknd queria promover seu novo álbum, que assim como o longa chama-se “Hurry Up Tomorrow”, e ao invés de fazer um álbum visual como muitos de seus pares normalmente fazem, decidiu ser ambicioso (temo que após “The Idol” ele realmente tenha pego gosto por produzir e estrelar obras de ficção) e realizar um longa-metragem inteiro.
A trama de “Hurry Up Tomorrow” se enfoca praticamente toda na figura de Abel, que interpreta ele mesmo. O filme, afinal de contas, é baseado em seu álbum homônimo e serve como uma espécie de continuação/complemento a ele. Apenas partindo dessa constatação já se pode imaginar que o projeto como um todo seja uma baita egotrip, como por vezes são chamados projetos feitos apenas para massagear o ego daqueles envolvidos. Mas não seria justo julgar apenas por este fato. Um filme pode ser feito com intenções egoístas (aliás, acredito que todos são, mas é papo para outro texto) e ainda sim ser um bom filme (um bom exemplo é o projeto “Inside”, do Bo Burnham: uma obra focada 100% em sua figura mas que consegue ser honesta e expandir seus temas).
O problema em “Além dos Holofotes” é que Abel, ao tentar falar sobre si mesmo e seus problemas, as autorreferências acabam se tornando muito óbvias e, sinceramente, cansativas. Em poucos minutos de filme já entendemos onde a estrela do R&B quer chegar com seu discurso auto importante e sua atuação que apesar de competente também nunca abandona o óbvio, o que acaba por retirar do filme qualquer possibilidade de surpresa (filme que é um suspense, vale ressaltar). Aliás, a personagem de Jenna Ortega está ali com o único propósito de tentar retirar algum tipo de verdade de The Weeknd, mas isso nunca acontece. Chega a ser irônico. E o curioso é que, caso a ironia fosse abraçada, poderíamos ter tido um resultado diferente e, consequentemente, mais verdadeiro. Um filme com o qual pudéssemos nos conectar. Mas todos os envolvidos (especialmente Abel) parecem levar tudo muito a sério, resultando em minutos finais que poderiam ser potentes mas acabam beirando o constrangedor.

Jenna Ortega é um destaque no longa, com uma interpretação forte que nos deixa sempre adivinhando o que ela fará a seguir, mas acaba perdendo sua força e potencial ao ser utilizada para tentar extrair algo do personagem de Abel, sem sucesso. Barry Keoghan também complementa o elenco, mas apesar de ser um ótimo ator não consegue expandir suas capacidades por conta do foco que deve sempre estar na figura central de The Weeknd. Como o filme é um suspense, há de se reconhecer que todo o trabalho técnico, como mencionei anteriormente, é digno de respeito por ter conseguido criar uma atmosfera desconvidativa, enervante e até psicodélica por vezes, ainda mais contrastando com a obviedade e falta de criatividade do texto. Infelizmente nada disso foi suficiente para segurar o peso de uma premissa já fadada à auto importância exacerbada de The Weeknd como realizador audiovisual, algo que provavelmente não gostaria de vê-lo fazendo outra vez…
Enfim, acredito que o filme possa agradar aos fãs de The Weeknd, visto que toda a trajetória conversa diretamente com suas criações musicais e sua própria psique, e também quem admira muito o trabalho e estilo de Trey Edward Shults. Se não for o caso, acho realmente difícil que haja uma conexão do público com o filme, que tampouco oferece um suspense verdadeiramente intrigante para além dos visuais rebuscados. “Hurry Up Tomorrow: Além dos Holofotes” estreia nesta quinta-feira (15/05) nos cinemas brasileiros.
NOTA: 4,0

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