Por Fernando Grisi

É difícil escrever sobre um filme que traz uma premissa interessantíssima mas que peca em desenvolver sua narrativa em torno dela de maneira igualmente interessante. “A Lenda de Ochi” é o primeiro longa-metragem do diretor Isaiah Saxon, que antes trabalhava principalmente com animações. É perceptível seu amor e fascínio por histórias de aventuras fantásticas, com presença forte de efeitos práticos e cenários que parecem sonhos, mas infelizmente não se sentem como um.

No filme seguimos Yuri, garota interpretada por Helena Zengel que, entrando na adolescência, vive com seu pai Maxim, interpretado por Willem Dafoe e Petro, interpretado por Finn Wolfhard, que é como se fosse seu irmão postiço. Eles vivem na ilha fictícia de Cárpatos, em um cenário que mistura os tempos medievais com o contemporâneo. Não existem smartphones ou redes sociais, mas há rádios, televisões e carros. Ao mesmo tempo, neste universo existem também elementos fantásticos, mas principalmente um ser: os Ochis.

Willem Dafoe assume dentro deste contido universo uma posição de treinador, uma figura de autoridade e ao mesmo tempo paterna para os jovens garotos daquela comunidade. Garotos que, aliás, não possuem personalidade e protagonismo algum. É como se os quase dez jovens fossem a mesma pessoa… Até o personagem de Finn Wolfhard tem dificuldade em se colocar como uma pessoa real, com sentimentos e motivações. O peso dramático cai, então, sobre o problemático relacionamento de Yuri e seu pai.

Willem Dafoe & Finn Wolfhard em cena de “The Legend Of Ochi”. ©A24.

É notável um certo machismo e brutalidade exagerada no personagem de Maxim. Ele admite que gostaria de ter tido um filho homem, mas que isso não aconteceu (provavelmente o motivo pelo qual sua filha possui um nome comumente masculino), e por isso assumiu Petro também como se fosse seu filho. Dafoe acerta em dar vida a um personagem que consegue soar ameaçador mas ao mesmo tempo um tanto quanto abobalhado. Ele fala de modo imponente e assertivo, mas não consegue sustentar uma conversa com as personagens femininas do filme (sua filha e a mãe dela), e nem com os personagens masculinos (interações estas que mais se baseiam em insultos e gritos), sendo totalmente despreparado para verdadeiras interações sociais. Talvez justamente por isso seu foco primário seja apenas caçar os Ochis.

A maior qualidade de “The Legend of Ochi” são seus visuais. Como se pode ver na imagem abaixo, muitos cenários, assim como algumas cenas das criaturas foram feitas em grande parte sem a utilização de efeitos visuais. É realmente muito agradável observar o filhotinho Ochi se movimentar e interagir com Yuri, sabendo que seus movimentos estavam realmente sendo coreografados por mestres de marionetes dentro dos sets.

Contudo, mesmo os efeitos práticos sendo muito eficientes e os cenários mais intimistas serem muito bem construídos, como um quarto, uma cozinha ou um celeiro, a construção de mundo em uma esfera macro falha em nos apresentar o quão rico aquele universo poderia ser. Primeiro, não sabemos praticamente nada sobre o vilarejo, nem sobre os Cárpatos. Para além dos personagens de apoio, os meninos, que não possuem personalidade ou individualidade, não somos expostos ao dia a dia daquela população. Desse modo, como toda a ação catalisadora aqui parece envolver a caça aos Ochis, também não somos devidamente introduzidos a esta mentalidade assassina. Tudo o que temos, no fim das contas, é uma história já contada muitas vezes, de uma garota que não se encaixa na sociedade fazendo amizade com um ser temido mas, ao contrário do senso comum, inofensivo, e sua jornada para devolvê-lo ao seu lar. Possivelmente descobrindo coisas sobre si mesma no processo e mudando seu mundo para sempre.

O diretor Isaiah Saxon no set de “A Lenda de Ochi”. ©A24.

Infelizmente, quando há mudanças estas ocorrem de modo telegrafado e acabam não sendo convincentes o suficiente. Existem muitas oportunidades perdidas aqui que poderiam ser resolvidas em futuros tratamentos do roteiro, que claramente possui boas ideias, mas não consegue sustentar todo um longa-metragem. Os atores esforçados e cenários bem trabalhados nos fazem em alguns momentos ter a sensação de estarmos em uma aventura instigante, mas nunca chegamos a presenciar todo esse potencial concretizar-se na tela.

Enfim, a mais nova fantasia da A24 deixa a triste sensação de um filme que poderia ter ido muito mais fundo tanto na construção de mundo como nas relações entre seus personagens. Mas que, ao invés disso, nunca sai da superfície de uma história meramente interessante porém clássica sobre vínculos formados apesar de diferenças. “A Lenda de Ochi” estreia em breve nos cinemas brasileiros. Um lançamento da Paris Filmes.

Nota: 6,5

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