Por Fernando Grisi
Tornou-se uma reclamação recorrente em filmes de terror, filmes de zumbis e, consequentemente, na franquia “Extermínio”, o fato de as crianças nestes filmes estarem sempre “estragando tudo”. Tomando decisões estúpidas, não reagindo da maneira esperada ou se colocando no caminho de uma possível solução para os dilemas da humanidade. Mas, alguma dessas coisas se encaixa no papel de uma criança? “28 Years Later” acerta em dar protagonismo a uma criança que, em meio a um mundo assustador, é obrigado a crescer rápido demais, mas que ainda age de acordo com suas emoções genuínas. Lembre-se que você deve morrer, mas lembre-se também que você deve amar.
Há um poema intitulado Boots (Botas), escrito em 1903 pelo autor Rudyard Kipling, nascido na Índia ainda dominada pela Inglaterra. O poema descreve os horrores da guerra, a partir da observação de soldados britânicos durante a guerra que ocorria na África do Sul naquela época. Em 1915 o ator Taylor Holmes gravou uma performance do poema, e é esta gravação que podemos ouvir durante o belo trailer de “Extermínio: A Evolução”, e em uma cena dentro do próprio filme. Apesar da relação entre o que se passa em tela com uma guerra não ser exatamente palpável, ao menos nos proporciona uma experimentação interessante da forma fílmica, e abre também espaço para expandirmos e discutirmos essa possível relação.
A franquia tem a clara intenção, desde 2002 com seu primeiro filme, de não apenas ser composta por cenas tensas envolvendo infectados e nem mesmo por seu modo inventivo em apresentá-las, definido muito bem pelo diretor Danny Boyle, que não dirigiu o segundo filme mas retornou para o terceiro. Além desses aspectos, “Extermínio” visa nos mostrar que o verdadeiro horror de qualquer sociedade, pós apocalíptica ou não, são os humanos que a compõem, e as atrocidades que podem vir a cometer utilizando-se de sua consciência, algo que os diferencia dos infectados neste universo, mas não por isso os faz melhores.

A história aqui se passa, como o título original expõe, 28 anos após o início da infecção que levou a Grã-Bretanha à ruína. Uma comunidade isolada em uma pequena ilha vive tranquila, com uma passagem que os liga ao continente e permite que alguns a atravessem em busca de recursos. Aaron Taylor-Johnson é um homem bruto e falho, apesar de claramente se importar com seu filho Spike (muito bem interpretado por Alfie Williams), que com apenas 12 anos de idade está partindo em sua primeira expedição no continente com o pai. A mãe de Spike, Isla, interpretada por Jodie Comer, está doente na cama e tendo alucinações. Seu marido está de saco cheio de ter que cuidar dela, mas Spike se mostra extremamente preocupado e carinhoso com Isla.
Após uma bem-sucedida, mas não isenta de tensão visita ao continente, Spike retorna vitorioso para casa, quando descobre que pode existir alguém no continente capaz de curar sua mãe. E assim a verdadeira jornada do filme se inicia, com Spike tentando salvar sua mãe mas tendo que colocar ela e a si mesmo em perigo para isso. Atos de amor são quase sempre ligados a atos de loucura, de qualquer modo.

Não falo tanto sobre os aspectos que dizem respeito ao gênero do filme propriamente pois acredito que não são eles os mais interessantes de serem comentados, e que aspectos semelhantes já foram muito explorados nas duas últimas entradas. “28 Years Later” adiciona algumas pitadas de informação e construção de mundo ao lore da franquia, como a introdução de infectados “Alfa”, maiores, mais fortes e mais inteligentes do que seus semelhantes. Há também outra questão fisiológica de um tipo bem específico de infectado que é apresentada aqui e adquire relevância para a trama principal, mas no geral seguimos com as mesmas regras, mesmos costumes e mesmos comportamentos que se espera de uma população sobrevivendo ao apocalipse zumbi. A sociedade da ilha não é explorada para além do básico, e tampouco são os grupos que estão no continente, com exceção do personagem de Ralph Fiennes e da participação do Sueco Edvin Ryding, que mais serve como alívio cômico.
No entanto, não é nessa falta de expansão de mundo onde acredito que o filme peca. O maior problema aqui, para mim, foi a tentativa de fazer de tudo um pouco. Comecei a crítica falando sobre as crianças em filmes de terror. Tenho certeza que Spike, apesar de bem intencionado e, em última instância sustentar seus valores e ações, será julgado por suas decisões por parte do público. Acho que o filme é muito feliz em colocar o protagonismo, o ponto de vista, todo no personagem de Alfie Williams. Isso faz com que a história se volte mais para um drama de amadurecimento e amor filial do que uma história de violência e da decadência humana, o que também não é novo nos filmes “Extermínio”. Contudo, não há um bom equilíbrio entre o drama e a ação, a vida e a morte, o íntimo e o externo. Tais dualidades são bem desenvolvidas em momentos separados, claro, com destaque para as cenas das quais o personagem Kelson participa, mas como um todo, dentro do longa, acabam quase que se cancelando, não atingindo seu máximo potencial.

O personagem de Ralph Fiennes explica ao jovem Spike o conceito de “Memento Moris“, conhecida expressão em latim que se traduz para algo como “lembre-se que você deve morrer”. Logo depois, diz a ele “Memento Amoris“, que seria “lembre-se que você deve amar”. Acredito que foi na tentativa de mesclar amor e morte que “Extermínio: A Evolução” acabou se perdendo e deixando de explorar ambos em suas totais potencialidades. Ainda assim, essa mesma mescla, essa dualidade, se apresenta em todos os longas “Extermínio”, e em “A Evolução” não é diferente.
Gostei muito do fato de que fomos guiados pela visão da criança, sempre tão julgada dentro e fora dessas narrativas, e acredito que há espaço para reflexões também dentro e fora dela (podem comentar sobre aqui após assistir). Existe a possibilidade de amor na morte? Uma coisa depende necessariamente da outra? Os horrores provocados pela humanidade deveriam nos fazer abdicar de nossa própria humanidade?
Só por diversão, vou fazer meu ranking da franquia por enquanto:
1º: 28 Weeks Later, 2º: 28 Days Later, 3º: 28 Years Later.
Nota: 7,7

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