Por Fernando Grisi
Algumas horas antes de viajar para exibir seu filme no Festival de Toronto pela primeira vez, o diretor e roteirista gaúcho Gabriel Motta cedeu um pouco de seu tempo para conversar comigo sobre “O Véu”, curta-metragem de terror queer que terá sua estreia mundial no programa Short Cuts do Tiff, e que pude assistir mesmo (infelizmente) não estando presente em Toronto este ano.
Na primeira entrevista realizada pela A24 Brasil, conversei com Gabriel sobre sua trajetória, suas referências (inclusive filmes da A24), sua relação com equipe e elenco, e o cineasta até deixou uma mensagem para jovens realizadores. Leia até o fim para conferir tudo.
*A menos que indicado pelo uso de aspas, as palavras aqui não são citações diretas do entrevistado*
O Filme
“O Véu” conta a história de uma família que coordena um culto religioso, realizando falsos rituais de possessão. Até que um dia a filha do pastor é tomada por uma entidade real, o que desencadeia eventos macabros.
Em apenas 19 minutos de duração, o filme constrói uma atmosfera de terror de possessão que começa sutil e se intensifica até culminar em um final explosivo, sem deixar de plantar seus temas e ideias ao longo do caminho. O destaque que salta aos olhos imediatamente é a Direção de Arte, assinada por Gabriela Burck. Os cenários são polidos e versáteis, migrando da calma limpa, serena e clara da igreja para o escuro misterioso e desarrumado da casa antiga da família. Ambos locais assustadores a sua própria maneira.
Dentro do elenco, que é forte mas não possui tanto material para trabalhar mudanças de emoção e jornadas pessoais assim, a performance de Rafaela Lima como a filha do pastor chama a atenção pela maior complexidade de sua personagem, que ora contrasta ora reforça as histórias de seu pai e irmão, e que é a principal responsável por elevar o impacto da cena final.

Trajetória e Referências
Gabriel vem fazendo filmes há mais de 10 anos, mas recentemente seus trabalhos passaram a chamar mais a atenção de importantes festivais no Brasil e ao redor do mundo. Em 2024 seu curta-metragem “Pastrana”, co-dirigido por Melissa Brogni venceu 3 prêmios no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e outros 3 prêmios no Festival de Cinema de Gramado, além de ter sido o único curta-metragem brasileiro a ser exibido no Festival de Tribeca do mesmo ano.
Motta revelou que sua relação com o terror teve início ainda na sua infância, quando ele e seu irmão, Jonts Ferreira, que é co-roteirista de “O Véu”, costumavam alugar fitas de VHS, e inclusive tentavam convencer seu pai a alugar títulos do gênero proibidos para menores de 18 anos. Ele relembra também uma sessão de cinema extremamente marcante para sua formação e interesse pelo terror. Foi quando assistiu a uma restauração de “O Exorcista”, clássico de William Friedkin, na sala de cinema. Como seu pai ainda não tinha assistido ao filme, permitiu que Gabriel fosse à sessão, sem imaginar o impacto (no caso, positivo) que este contato geraria em seu filho.
Hoje destaca filmes recentes do gênero que o inspiram e/ou o interessam. Entre eles, filmes da A24 como “Hereditário” e “Fale Comigo”, e o terror queer “Faca no Coração”, o qual destaca, junto com o subgênero do terror queer no geral, como sendo uma das coisas mais interessantes sendo feitas no audiovisual atualmente.
O Terror é um gênero que nos permite desfrutar de todas as possibilidades técnicas e temáticas que o cinema tem a nos oferecer, elevando ambas a uma nova potência. Perguntei ao cineasta gaúcho se para a criação de “O Véu” houve mais inspiração visual, pensando a imagem e a técnica (no caso do terror, o sangue, o gore, os gestos) ou se antes disso houve uma proposta temática que ele quis muito discutir através do filme (sua “mensagem”, seus temas).
Motta me respondeu que as duas coisas na verdade vieram juntas. Que a estética religiosa de possessão (como alguns cultos evangélicos, espíritas e até mesmo da União do Vegetal, inspirações para a história) convida uma reflexão sobre sua veracidade e também sobre o fanatismo, que se coloca no caminho muitas vezes da identidade individual, e acabou se tornando esta história que, no fim das contas, fala sobre emancipação. Gabriel aponta também para um tema que pode acabar passando despercebido pelos espectadores: a relação fraternal e de libertação entre Ismael Júnior e Rebeca, os dois filhos do pastor. Até porque, como bem relembrou, o curta foi uma colaboração de roteiro entre ele e seu irmão, Jonts Ferreira.

Relação com Atores e Equipe
Minha própria trajetória como realizador audiovisual de ficção me levou a questionar Gabriel Motta também sobre seu processo criativo depois da etapa do roteiro. O diretor de “O Véu” revelou que se coloca bastante aberto a receber ajuda e feedbacks de sua equipe, ao menos dos “cabeças” (Direção de Foto, Direção de Arte etc.). Ele me contou que desde o processo da escrita do roteiro houve a colaboração coletiva, que vários amigos e colegas opinaram e expandiram as ideias possíveis para este terror (inclusive os cineastas proeminentes Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, também de Porto Alegre). Sobre a montagem, o cineasta diz que o editor de seu filme, Bruno Carboni, participou do filme desde a etapa do roteiro. Algo não muito comum e até mesmo desincentivado, mas que Gabriel defendeu como um dos motivos de sucesso do curta em seu ritmo.
Sobre o elenco, Motta compartilhou uma estratégia bastante interessante que permitiu aos atores performar com naturalidade e segurança nos sets. O elenco principal teve diversos ensaios, até que se fosse construída uma atmosfera de confiança uns nos outros e em seus personagens. Assim, no momento das gravações, os atores já estavam bem entrosados entre eles e mais confiantes para não necessariamente improvisar, como apontou o diretor quando perguntei, mas para poderem agir e reagir conforme o período intenso de vivência com seus textos originais os fizerem se sentir no momento.
Toronto, Projetos Futuros e Mensagem para Realizadores.
Gabriel, por fim, me contou que está bastante animado para participar do Tiff pela primeira vez. Mas também admite que esse ambiente dos festivais, das rodadas de negócios, do networking, são um pouco intimidadores. Algo que, por sempre sentir pessoalmente, me fez compartilhar com ele algumas experiências. Falamos sobre como é difícil fazer cinema no geral, que tomamos muitos “nãos”, e frequentemente chegamos até a nos questionar sobre o porquê de seguir fazendo o que fazemos.
Além disso, o universo dos festivais e eventos é uma besta à parte, onde muitas vezes parecemos não nos encaixar, ou estarmos fisicamente presentes mas sem nenhum objetivo concreto ou real possibilidade de que algo aconteça a nosso favor. Mas Motta finaliza sua fala com uma mensagem de esperança para novos e entusiasmados realizadores audiovisuais. O cineasta acredita que, se você realmente pensa que nasceu para isso, e que é isso que deve estar fazendo, não deve desistir ou se deixar desanimar com os muitos “nãos” ainda por vir. Claro, eles virão, mas tudo vale a pena no fim.
“O Véu” terá sua estreia no programa Short Cuts do Festival de Toronto (Tiff) 2025, e depois seguirá com seu circuito por festivais internacionais e também nacionais. Já há um projeto para uma versão em longa-metragem de “O Véu” sendo desenvolvido pelo diretor, então ainda vamos ouvir falar muito dele, em breve, e em um formato onde seus temas e estéticas poderão ser ainda melhor explorados.
O filme foi produzido pelas produtoras Fogo Filmes e Onomato, ambas de Porto Alegre, e contou com o financiamento do Edital de Seleção Pública Paulo Gustavo Porto Alegre – Cinema.
Acompanhem os responsáveis no Instagram: @oveufilme, @gabbmotta, @fogofilmes, @onomatoconteudo.
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