Por Fernando Grisi

“É difícil ser chamado por outro nome”, diz a maravilhosa personagem da igualmente maravilhosa atriz Tânia Maria. Nesta cena do longa, provavelmente a melhor do filme para mim, se confirmou o tema central de “O Agente Secreto”: Família.

Após sua estreia em Cannes este ano, onde conseguiu o impressionante feito de vencer duas categorias da premiação: Melhor ator para Wagner Moura e Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto” teve uma exibição especial no Recife em setembro e abriu o 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro apenas alguns dias depois, nesta sexta-feira (12). Com a distribuição da Vitrine Filmes no Brasil, e da Neon nos Estados Unidos, o longa chega aos cinemas dia 6 de novembro.

Este não é um thriller de espionagem. Também não é a história de um agente secreto. Não é exatamente um drama, apesar de ser muito emocional, e não é uma comédia, apesar dos inúmeros alívios cômicos. Este é um filme que se aproveita da situação de uma personagem central (Marcelo, interpretado por Wagner Moura) para construir um emaranhado de acontecimentos, cenários, personagens e vivências que nos transportam para a Recife dos anos 70 e moldam nossa experiência por lá.

Algo que Kleber sempre soube fazer muito bem em sua carreira foi entregar filmes muito políticos mas não necessariamente panfletários. Mesmo quando uma metáfora visual ou insinuação um pouco mais óbvia começava a incomodar, não se tornava um grande empecilho para o funcionamento das obras como ficção e entretenimento, para além da importância temática. Aqui isso se mantém, de forma até melhor, com a criação de uma atmosfera politicamente hostil e perigosa em meio a beleza da capital Pernambucana. Mas não por apontar inimigos explícitos ou mostrar cenas típicas de ‘filmes de ditadura’, e sim construindo aos poucos pessoas que nos levam a temer suas reais intenções e potencial de influenciar o núcleo central, e, principalmente, nosso protagonista. Para citar um aspecto negativo do filme: diferente do que ouvi falar desde sua estreia em Cannes, não achei que todos os (muitos) atores possuem um bom desenvolvimento e tempo para explorarem seus personagens. Não seria, de qualquer modo, uma tarefa fácil, pois há realmente muitas pessoas diferentes contracenando aqui, e um exemplo disso é Maria Fernanda Cândido, que apesar de não destoar de seu grupo não tem tanto tempo nem tanta força dramática para sustentar a personagem e deixar sua marca.

Wagner Moura interpreta Marcelo em “O Agente Secreto”. © Vitrine Filmes.

A história se passa em 1977, plena ditadura civil-militar brasileira. Uma época de muita pirraça, como o próprio longa coloca explicitamente. Neste contexto, somos introduzidos a Marcelo. E “introduzidos” é a palavra certa, pois ficamos sabendo muito pouco sobre ele durante toda a introdução da obra. Sabemos que ele está em fuga, buscando refúgio, mas não sabemos exatamente o motivo dele estar sendo perseguido, nem por quem, ou como tudo isso veio a ser. O longa adota um ritmo bastante paciente, construindo cenas que focam mais em construir ambientes visualmente e sonoramente marcantes do que em revelar através de exposição as motivações e o passado das personagens. Muitas pessoas com quem conversei após a exibição mencionaram uma certa semelhança entre “O Agente Secreto” e o último filme de Kleber, “Retratos Fantasmas”. E, realmente, por ambos se passarem em Recife (um dos personagens é projecionista do Cine São Luiz, inclusive), e ambos tratarem sobre memória, afetos e, sim, vou falar de novo: família, é realmente difícil não fazer a conexão com o documentário. Além de um easter egg divertidinho que você consegue perceber se forçar a vista.

Não há muito o que se comentar sobre os aspectos técnicos do longa, já que o diretor vem provando há muito tempo que sabe muito bem contar suas histórias visualmente. Ainda mais sendo uma história ambientada em Recife. Aqui o que chama a atenção logo de cara é a reconstrução da cidade setentista, muito vibrante, colorida e barulhenta. E, apesar de ser um filme de época com diversas locações, o diretor de arte Thales Junqueira ressaltou na coletiva de imprensa que apenas três delas foram construídas do zero, e para as outras foram utilizados locais já existentes. Outro ponto que se destaca é a fotografia, feita pela francesa Evgenia Alexandrova, em sua primeira colaboração com KMF, o que destaca o aspecto forte de coprodução do longa, que além da França ainda conta com o apoio da Holanda e Alemanha. Vou destacar também, como surpresa, a atuação de Wagner Moura. E minha surpresa não foi por sua entrega ao personagem, mas pelo fato do júri de Cannes ter concedido a palma de atuação masculina a um trabalho que não implora por atenção e que não entrega cenas conhecidas como “Oscar clips”, por exemplo.

De volta a história, é somente pela metade de “O Agente Secreto” que temos acesso a informações relevantes sobre o passado de Marcelo e o porquê dele estar refugiado dentro de seu próprio país. É aqui também que se faz claro o peso e a importância das relações familiares no filme. O homem que busca se vingar de Marcelo está sempre com seu filho, o assassino de aluguel que conhecemos trabalha com seu enteado, o próprio Marcelo busca se reconectar com seu filho ao mesmo tempo que procura informações sobre sua mãe. E o “hospício” de Dona Sebastiana abriga desconhecidos que se relacionam por compartilhar um aspecto muito específico e muito triste de suas vidas. A partir do encontro de Marcelo com a personagem de Maria Fernanda Cândido, a trama se desenrola de maneira intrigante e mais enérgica, até chegar a um final bastante inesperado, que não vou detalhar por conta de spoilers, mas que reforça a noção de família, seja de sangue (literalmente), ou não, e a busca por sentido dentro destes símbolos e concepções que podem, ou não, significar algo. O último diálogo do filme fala sobre coincidências…

Por fim, é preciso comentar sobre a personagem de Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria (uma “não atriz”, apesar de Kleber ter dito odiar este termo). Além de ser a maior fonte de alívio cômico do filme, pode-se dizer que ela é também a cola que une todas as pessoas refugiadas que abriga, unindo suas histórias e criando laços entre elas que, novamente, nos lembram do tema central da obra. Tanto nossa família de sangue como as famílias que construímos ao longo de nossa vivência, a famosa “família escolhida”, nos afetam, nos moldam e nos guiam em nossas decisões. Dona Sebastiana ao mesmo tempo nos emociona e nos faz rir na cena do frame abaixo, ao relembrar que, mesmo quando temos de suprimir nossa identidade de alguma maneira, ainda podemos encontrar refúgio e reconforto em outras pessoas. E isso não é verdade para todos nós?

O senso de comunidade e de família é a melhor coisa de “O Agente Secreto”.
© Vitrine Filmes.

Nota: 8,5

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