Por Fernando Grisi

Morte e Vida Madalena

Sinto que digo isso muito, mas para além de colaborador da A24 Brasil, sou também um cineasta. Ainda este ano assisti a “Estranho Caminho”, último filme de Guto Parente antes deste, e fiquei completamente tocado com os comentários emocionais e cômicos sobre ser uma pessoa que faz filmes e como isso impacta nossos relacionamentos pessoais. Sempre gostei do cinema de Guto Parente, que nem sempre se debruçou sobre uma metalinguagem e observações engraçadas e um pouco esdrúxulas sobre o cinema em si, mas em “Morte e Vida Madalena” ele se utiliza dessas ideias para criar um dos filmes nacionais mais divertidos dos últimos tempos.

Quem já participou de um set de filmagens sabe como pode ser (e, via de regra, é) uma experiência caótica. Mas sabe também que pode ser uma experiência extremamente rica e emocional. Em “Morte e Vida Madalena”, a personagem título, uma produtora de cinema interpretada de maneira brilhante por Noá Bonoba, conta que resolveu fazer cinema justamente por ter passado, ainda criança, por uma experiência traumática em um set, mas que justamente por conta do trauma, que foi coletivo com a equipe, sentiu uma aproximação, um senso de propósito e de comunidade surgindo entre eles, algo que passou a procurar depois ao produzir filmes como profissão.

Apesar dos perrengues, os laços formados em sets de filmagens podem ser fortíssimos. ©Embaúba Filmes.

Mas, deixando o romantismo e idealismo para trás, começamos a acompanhar Madalena em um momento bastante estressante e delicado. Além de estar passando por uma gravidez, seu pai acabou de morrer e ela decide gravar o último roteiro que ele havia escrito. Uma ficção científica, aliás. Não querendo se colocar como diretora, o caos se inicia pela escolha de um diretor – que mudará muitas vezes – e passa por problemas financeiros, diferenças dentro da equipe, atores malucos e o que mais se puder imaginar. Todos esses desafios incrivelmente familiares para quem é da área ou tem conhecimento sobre ela.

Contudo, a genialidade do filme está, para além de utilizar o caos de uma filmagem para nos fazer rir (muito), como fez a recente série “The Studio“. Guto Parente cria uma narrativa que nos conecta emocionalmente à Madalena, nos faz entender sua visão do mundo e suas atitudes, que podem por vezes parecer egoístas e até maldosas, mas que são feitas a partir de um lugar de amor e propósito. Algo, arrisco dizer, pelo qual todo diretor passa, ou corre o risco de passar. No fim, a “mensagem”, a resolução, vem para reforçar a ideia de que Cinema não se faz sozinho. Se trata quase de um experimento social, no qual pessoas que não necessariamente são amigas mas não necessariamente se odeiam devem trabalhar juntas para alcançar um objetivo em comum, que neste caso é a Arte. E que, apesar dos problemas e dos perrengues, há um motivo maior que nos atravessa e nos faz perseguir esse sentimento de ver a beleza em nossa criação. O que muito bem se concretiza na imagem final, que está longe de ser inesperada, mas justamente por isso é tão agradável. É de colocar um sorriso no rosto de qualquer pessoa.

A atriz Noá Bonoba interpreta a personagem título em “Morte e Vida Madalena”. ©Embaúba Filmes.

Safo

Premiado no festival de animação de Annecy deste ano, o mais importante festival do mundo em sua categoria, “Safo” conta uma história, utlizando-se de uma belíssima animação em stop motion com materiais e traços mistos, da poeta Safo, que viveu na ilha de Lesbos por volta de 600 A.C. e escreveu diversas histórias e poemas, muitos deles hoje perdidos. A diretora Rosana Urbes então se propôs a reconstruir sua história através da beleza da animação e de fragmentos de seus trabalhos.

Apesar de não se aprofundar muito na figura de Safo em si, é impossível não se maravilhar apenas por olhar as imagens se movendo de forma tão fluida, satisfatória e criativa. É como se por toda a sua duração fôssemos hipnotizados para apenas sentir as luzes e os sons de liberdade e sensualidade feminina imprimidos na tela. Uma excelente animação que me deixou com vontade de revê-la assim que chegou ao fim.

Logos

“Pra ser sincera, eu não estou preocupada se vocês vão gostar do filme. Mas eu espero que vocês sintam algo”. Parafraseio a diretora Britney , que se colocou como protagonista de seu primeiro curta-metragem como diretora: “Logos”.

O curta parte de uma premissa já bastante conhecida e explorada (para não dizer batida) do “cinema trans”, se é que podemos chamar assim: é uma mistura de documentário com ficção com performance e que no fim vai falar sobre identidade. A diretora se utiliza de imagens de arquivo de sua infância, antes de transicionar, se coloca em cenas fortes carregadas de simbolismos e se utiliza da ferramenta da narração. Tudo que se pode esperar de um curta com a premissa de explorar a identidade trans.

Contudo, em “Logos” os artifícios mencionados funcionam de forma surpreendentemente eficiente. Não sei se pelo sentimento de fuga, de um quase road movie interrompido e entrecortado com fragmentos do passado, ou pela fotografia que também impressiona ao transmitir visualmente uma claustrofobia mesmo em espaços abertos, como uma praia. Para além de uma representação física de desconforto com o próprio corpo, “Logos” nos coloca no espaço mental de sua protagonista para reavaliarmos o conceito de identidade, apesar do filme em si não ser muito memorável para além de sua curta duração.

Deixe um comentário