Por Fernando Grisi
Corpo da Paz
Acho que o longa-metragem paraibano “Corpo da Paz” era o filme para o qual estava mais ansioso neste Festival. A premissa havia me lembrado um pouco o “For a Lost Soldier”, de 1992, e pensei que, se os envolvidos tivessem a coragem e a sensibilidade necessária para tratar dos temas (que eu pensei serem) propostos, poderíamos ter uma grande obra.
Devo dizer que me enganei, mas não de maneira necessariamente negativa. O roteiro nos apresenta o protagonista, Teobaldo, um menino bem jovem, em uma situação de constrangimento no que se diz respeito a descobrir as possibilidades do próprio corpo (daí um dos motivos do título). A partir deste momento, Teobaldo passa a tomar todas as suas atitudes com o intuito de ao mesmo tempo evitar e testar os limites da descoberta. Em meio a esta premissa, um pesquisador militar estadunidense também se insere logo de cara como figura imponente e importante, apesar de também muito misterioso. Mas, ao invés de entrelaçar as histórias do soldado e da criança, o que imaginei que seria o conflito central da história, a obra faz com que os dois interajam muito pouco, seguindo caminhos que quase nunca se cruzam, mesmo tendo construído uma situação de conflito entre eles logo de início.
O filme foi vencedor de 4 prêmios no Festival de Brasília: Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora e Melhor Edição de Som. E, realmente, imaginei, desde que o assisti, que levaria pelo menos o primeiro prêmio que citei. Para além da reconstrução de época visual e sonoramente, o grande destaque de “Corpo da Paz” é justamente sua fotografia. Não exatamente em preto e branco, ela age como um filtro amarelado e escuro (apesar de eu ter percebido um único elemento de cor – um muito simbólico – durante a duração), e os enquadramentos, tanto pelo que se mostra como também pelo que não é mostrado, são fator determinante para o sucesso do filme em criar sua atmosfera que quase lembra um sonho, um devaneio ou mesmo uma lembrança em si.
O longa é na verdade bem curto, e seu final pode ser chamado de anticlimático. Mas a “graça” do filme acontece justamente nos momentos em meio a espera de algo que pode ou não acontecer. O diretor Torquato Joel também revelou que, para ele, a expressão “Corpo da Paz” possui duas definições, as duas relacionadas à soberania (se falou muito sobre soberania durante este festival). Seria esta uma soberania, primeiramente, do corpo físico, centrada na jornada de descoberta de sexualidade do jovem protagonista, e em segundo lugar (apesar de não serem postas em nenhuma ordem) a famosa soberania nacional, ilustrada pela presença misteriosa e até hostil do personagem militar estadunidense, que faz parte deste ‘corpo de paz’ política.
“Corpo da Paz” brilha também ao explorar a figura de um irmão que faz um contraponto muito bom e essencial para Teobaldo, além de acrescentar um background mais frontal mas nunca professoral sobre a ditadura (o filme se passa em 1968), e também a figura de um padre que em uma única cena consegue surpreender e emocionar. Infelizmente não acredito que este será um filme que encontrará o grande circuito de cinemas, mas se algo que mencionei aqui te fez se interessar, sugiro fortemente que coloque o longa na lista e o assista assim que possível. É uma produção pequena, singela e que não faz barulho, mas justamente por isso nos arrebata de uma vez de maneiras que não esperávamos.

Boi de Salto
Uma produção do Piauí, “Boi de Salto” se interessa muito mais por construir uma vontade específica do protagonista, que se concretiza e se eleva na cena final, do que em construir este protagonista em si. E não há nada de errado com isso. Afinal, o filme de apenas 14 minutos tem a figura enigmática e intrigante em seu título, e espera-se que ao menos possamos entrar em contato com ela, mesmo se não a entendermos completamente.
Até existe a apresentação de um backstory do personagem principal, Abdias, interpretado por Mikael Costa, que correu o risco de nascer com cara de língua, e talvez essa relação com os bois desde antes de seu nascimento tenha feito com que ele se interessasse por dançar na tradicional festa de bumba-meu-boi. Entretanto, por querer introduzir o elemento “feminino” do salto em sua dança, é impedido de participar do evento. Isso não o impede de fazer sua própria festa, em uma cena final muito bonita mas que, para mim, não se consolidou como uma recompensa marcante como o filme parecia estar prometendo.

Couraça
“Couraça” foi sem dúvidas um dos melhores curtas-metragens desta seleção do FBCB (Festival de Brasília do Cinema Brasileiro). E isso se traduziu ao vencer o prêmio de melhor curta pelo júri popular, além do prêmio “Candango” de Melhor Atriz para Lais Machado e o prêmio Canal Brasil. O roteiro se propõe a reimaginar e criar membros do grupo de cangaceiros de Lampião, e, tomando como ponto de partida o dia em que o grupo foi assassinado pelas forças do Estado, nos leva em uma jornada diferente acompanhando três sobreviventes.
Dois dos sobreviventes, Zé Pavão e Baía, estão em uma relação amorosa, e justamente por terem se isolado para transar, sobreviveram ao massacre. O que poderia ser o início de uma grande história de amor, com os dois buscando um lugar onde pudessem ser felizes juntos agora “livres” de seu grupo, na realidade se torna uma difícil jornada a fim de ajudar uma outra sobrevivente que está em uma situação pior: Dezinha.
Não vou revelar mais sobre a história, porque o prêmio Canal Brasil garantirá que o curta seja exibido no canal de televisão, e, tomara, visto por mais pessoas. Mas deixo aqui ressaltada a beleza nas relações que o filme constrói, e a capacidade do texto em aprofundar seus personagens mesmo em tão pouco tempo de duração. A imagem final do curta mostra isso visualmente, e sonoramente, de maneira perfeita, nos fazendo refletir sobre a história novamente desde o seu início e ampliando as possibilidades de interpretação e imaginação de um possível futuro para eles.


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