Por Fernando Grisi
Estou escrevendo esta crítica um pouco (muito) depois de quando estava pretendendo. Assisti a “A Natureza das Coisas Invisíveis” no último dia do festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 20 de setembro. Mas dia 24 já estava viajando para São Paulo por conta da cobertura do festival Estranhos Encontros. Então, sem muito tempo para sentar e escrever, minhas ideias acabaram se perdendo no caminho. Além disso, estava um pouco receoso por ter amigas que realizaram o filme (um beijo pra Júlia e pra Helô) e não queria escrever qualquer coisa. Mas agora o texto está aqui, pois não poderia deixar de falar sobre esse que se tornou um dos meus favoritos de todo o festival (e talvez do ano).
O filme é o longa de estreia da cineasta brasiliense Rafaela Camelo, que já acompanho o trabalho com curtas-metragens há alguns anos. O “Natureza” estreou no Festival de Berlim deste ano, após o último curta da diretora, “As Miçangas”, ter estreado no mesmo festival ano passado. Após sua passagem pela Alemanha, o filme teve sua estreia nacional no tradicional Festival de Gramado, onde conquistou 3 prêmios: Melhor Trilha Sonora para o Chileno Alekos Vuskovic, Melhor Atriz Coadjuvante para Aline Marta Maia e o Prêmio Especial do Júri.
“A Natureza das Coisas Invisíveis” (que chegou a ser intitulado “Sangue do Meu Sangue” no início do projeto, e mudou seu título por ter se tornado mais “solar”, como disse uma das produtoras) é um conto muito pessoal, íntimo e delicado que utiliza a forma do audiovisual de ficção para explorar o tema do luto – e da morte no geral – de forma sincera e leve, como se quisesse explicar a uma criança algo que sempre é escondido dela por razões que ela desconhece. A jovem Glória é filha de uma enfermeira, e passa a maior parte de seu tempo livre das férias no hospital. Lá ela conhece Sofia, uma garota de sua idade com quem forma uma amizade quase instantânea. A bisavó de Sofia está internada lá, e, ao melhorar um pouco, as duas meninas e suas mães acabam todas indo para uma casa no campo passar o que temem ser os últimos dias da idosa.

A primeira imagem do longa já evoca uma originalidade e ludicidade que nos transporta tanto para a temática dos ciclos da vida como para a perspectiva infantil acerca dela. A trilha se faz presente, e marcante, desde a primeira cena (e as músicas estão disponíveis nas plataformas de áudio, algo infelizmente raro para filmes nacionais. Vale muito ouvir!). Faço um destaque de antemão para Camila Márdila também. A obra possui elenco predominantemente feminino, e a performance que venceu Gramado foi a de Aline Marta Maia, e, além disso, adoro atuações mirins. Mas, Camila Márdila, interpretando a mãe de Sofia, transmite tão bem um misto de carinho e proteção com sua filha ao mesmo tempo que passa por dificuldades e medos sendo uma mãe jovem mas já sem mãe e que pode a qualquer momento perder sua referência materna, que é a avó, me comoveu e se destacou entre as outras atrizes por talvez ser a personagem mais tridimensional e conflituosa daquele núcleo, criando uma imagem perfeita de uma mãe que está tentando, simplesmente.
Há uma qualidade única e, sinceramente, mágica sobre o filme que faz com que ele se destaque de grande parte das produções contemporâneas, ao mesmo tempo que consegue explorar elementos intrinsicamente brasileiros de forma bela, verídica e verdadeira (que são duas coisas diferentes). Existe, ainda por cima, uma espécie de “tema surpresa”, que não está sendo usado para divulgação (e por isso não vou revelar aqui), que por se relacionar a uma vivência pessoal de uma das atrizes é algo que eu já esperava, mas não que fosse tão bem desenvolvido e integrado à trama “principal” da maneira que o roteiro exitou realizar, costurado a ideia de vida e morte que já vinha sendo retratada, e adicionando uma ótima camada a ideia de renascimento que não aparece logo de cara no filme.
Sobre isso, aliás, é muito gostoso perceber que o longa traz muitos elementos religiosos (cristãos) e que essa presença não apenas mostrada mas também verbalizada não se sobrepõe a ponto de se tornar uma mensagem ou ideologia em si mesma, apenas construindo de modo realista cenários dos quais aquelas pessoas participam, principalmente os ambientes da casa da avó. Aliás, que sensação boa ver a figura da benzedeira (que sinto estar desaparecendo), tão presente na minha infância no interior de São Paulo, aparecer por aqui também.
“A Natureza das Coisas Invisíveis” já tem estreia nacional confirmada para o dia 27 de novembro nos cinemas brasileiros. Um lançamento da Vitrine Filmes. Procure pela produção nos cinemas de sua cidade (e pressione-os caso decidam não exibi-lo). É um filme que deveria ser visto por todos os brasileiros, para repensar nosso medo da morte e reestabelecer nossa pulsão pela vida.

NOTA: 8,8

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