Por Fernando Grisi

Até onde se sabe, não escolhemos onde nascemos. Tampouco podemos escolher quem serão nossos pais, se teremos irmãos, se seremos ricos ou pobres. Assim como não escolhemos nossas características físicas, e, ainda não há um consenso científico sobre isso, mas também não podemos criar do zero nossa personalidade. Ou ao menos nossas inclinações a uma determinada personalidade que é construída ao longo de toda a nossa vida.

No título escrevi que este texto seria uma crítica de três filmes. Menti. Minha cobertura de festivais, desde que comecei a escrever para este site, em maio de 2022, se pauta, para além de filmes da A24, filmes LGBT+ no geral, entre outros temas. O texto mais longo que escrevi aqui foi também meu mais pessoal, e surpreendentemente foi a “crítica” que mais teve acessos até hoje no site: uma espécie de comparação entre o filme “Young Hearts” e meu curta-metragem “Frutinha” (leia a crítica aqui), onde falo muito mais de uma perspectiva como cineasta e espectador do que de “crítico”. A A24 Brasil, querendo ou não, não é um site de referência da cinefilia brasileira para buscar textos críticos, e, vejo que por isso vale muito mais a pena, quando houver algo para escrever, somente abrir um rascunho e começar a digitar caso algum filme realmente provoque sentimentos fortes em mim que me façam dizer algo de interessante e que possa interessar a outros. Tenho gostado muito mais de me colocar nos textos, me expor um pouco, compartilhar coisas da minha vida que me aproximaram da obra, do que comentar qualquer coisa sobre a fotografia, a atuação da coadjuvante, os famigerados “furos de roteiro” ou o que for.

Durante esta Mostra de São Paulo assisti a três filmes LGBT+ que me fizeram refletir bastante sobre questões tanto pessoais como universais, e que se comunicam também entre eles nestas reflexões. Vamos passar por homens padrões vingativos, twinks viciados em sexo e o Paul Mescal cantando, então se quiserem me acompanhar nessa viagem, siga lendo.

Gabriel Faryas & Henrique Barreira em “Ato Noturno”.

Durante minha adolescência, período no qual o casamento entre pessoas do mesmo sexo passou a ser legalizado no Brasil, e quando havíamos acabado de presenciar o primeiro beijo gay em uma novela, a intolerância e a ignorância eram maiores do que são hoje. Por isso (e talvez também por influência de Lady Gaga, ou o contrário) era muito comum em discussões com conservadores, que costumavam dizer que não entendiam porque as pessoas “escolhiam ser gays” (tive muitas dessas dentro da minha própria casa inclusive), utilizarmos o “argumento” de que ninguém se tornava gay, mas se nascia gay (e aqui utilizo a letra G do alfabeto para exemplificar também porque é ela que me corresponde).

Assim dou continuidade (quem conhece meus textos sabe que eu patino mas raramente derrapo) ao pensamento que coloquei na abertura do texto (não sei se chamo de crítica, de ensaio, mas sei que tenho que usar menos parênteses). Apesar do “argumento” de que se nasce LGBT+ ter ajudado a combater o preconceito diretamente mirado para nós, hoje se sabe que nossa orientação sexual, entre outras coisas, não é determinada no nosso nascimento, sendo fruto de nossos ambientes, nossas experiências e mais, e o discurso de defesa da comunidade LGBTQIAPN+ se pauta muito mais em reconhecer uma fluidez que permite que qualquer um possa explorar sua identidade de maneira ampla e sem tabus. O mesmo vale para a questão do gênero, como famosamente colocou Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo”: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”.

O primeiro filme que gostaria de comentar é o brasileiro “Ato Noturno”, direção dos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, que estreou no Festival de Berlim deste ano. O longa vai acompanhar um ator de teatro, que agora tem a ambição de se tornar ator de televisão. E já vou dar o “spoiler” – não do filme, mas do meu texto – que o fator em comum que me levou a juntar as três obras no mesmo post foi a ideia que as obras trazem, de jeitos diferentes, de que todos estamos constantemente interpretando papéis, tentando nos encaixar ou nos fazer passar por pessoas que “não somos”, para alcançar algum objetivo específico, ou, no caso de nós pessoas LGBT, às vezes simplesmente para sobreviver.

“Ato Noturno” junta essas duas possibilidades, e, ainda por cima, colocadas em um personagem que tem como profissão fingir! É um prato cheio para a interpretação. No filme brasileiro, o ator Matias (interpretado pelo ator Gabriel Faryas) começa um relacionamento com um político, e é este quem lhe diz que ele precisa começar a “agir mais como um protagonista”, que deve se impor, fazer os outros o notarem, mesmo que isso signifique mostrar aos outros alguém que você não é de verdade. Matias, como bom ator que é, segue este conselho e tem êxito, no início, em fazer as pessoas aceitarem, e gostarem, dessa personalidade fabricada para o papel do galã. Ao mesmo tempo, o político não pode ser “pego” com Matias por também estar interpretando o papel de “homem de bem”, que é branco, hétero, e tem diversos investidores para os quais precisará prestar contas caso seja eleito. Por outro lado, a atração intensa que esses dois personagens sentem um pelo outro faz com que se coloquem em risco a todo momento, e é aí que está a diversão e a potência do filme.

Uma vez ouvi alguém dizer que as crianças LGBT já produziram cortisol suficiente para a vida inteira. Isso porque, a menos que tenhamos sido a exceção da exceção, crescemos em um ambiente que não apreciava nossos comportamentos “desviantes”, e aqui falo do físico mesmo. Então, mais uma vez usando o exemplo da homossexualidade, o tipo de pensamento que ocupava constantemente nossa mente era “ninguém pode saber que você é gay, então anda igual hétero, fala igual hétero, senta igual hétero…”, e isso faz com que cresçamos interpretando um papel, tentando a todo custo mostrar para as pessoas ao nosso redor que somos como elas, que somos “normais”, que não há nada de errado conosco.

Por isso se fala tanto sobre uma “adolescência tardia” pela qual pessoas LGBT passam, se descobrindo e se explorando no início da vida adulta, enquanto a população cis e hétero possuiu diversas oportunidades de fazer o mesmo durante sua adolescência de fato. O que me leva a outro ponto, outra indagação que vem ganhando força no discurso público da comunidade: a de que a ideia de “ser bonzinho”, “se comportar” como pessoal LGBT é completamente inútil, e talvez até nociva para nós. O filme faz parecer por um momento que a “mensagem” a ser passada é justamente essa, de que se adaptar e se esconder é o caminho, comer pelas beiradas, mas subverte essa ideia de maneira forte, colorida, exagerada (no bom sentido) e potente! Nós sempre estivemos em perigo, e nos esforçar para caber em caixinhas fabricadas para nós pela classe dominante é fazer exatamente o que esperam de nós, e isso não pode significar boa coisa.

“Ato Noturno” fez, ao longo de sua projeção, uma forte e difícil pergunta, ao menos para mim, que gostaria de compartilhar: Se estamos constantemente interpretando papéis para alcançarmos nossas ambições e objetivos, seriam estes as únicas coisas genuínas que temos dentro de nós? Será que somos, ou podemos ser, maiores que nossa ambição? E, se sim, será que mesmo nossas ambições não podem vir de uma de nossas “falsas” facetas? Será que isso é tudo que existe depois das máscaras caírem?

“Ato Noturno” estreia dia 15 de janeiro nos cinemas. Nota: 9,4

Jayden Cheung, protagonista de “Queerpanorama”.

Falando em atuação, vamos trazer a parcela da população que mais se esforça para interpretar um papel: “os twinks do mal”. Brincadeiras à parte, o personagem do “evil twink” tem ganhado espaço na cultura pop, por serem jovens gays, magros, atraentes… e diabólicos. Um pouco como a figura das sereias, que utilizam de sua voz e sua beleza para matar navegantes. Não sei se consideraria o protagonista do filme como um evil twink, mas talvez como um messy twink. Um jovem adulto confuso, que tenta se encontrar e criar sua personalidade baseado em encontros sexuais com desconhecidos. O personagem principal, interpretado com uma naturalidade assustadora por Jayden Cheung não tem nome, e isso diz muito tanto sobre essa vontade de encontrar uma identidade própria como um jovem Gay como sobre a premissa do filme em si. Apesar de não ser ator, o jovem está fazendo uma espécie de experimento, de laboratório, no qual “pega emprestado” de cada homem com quem transa por último alguns traços de personalidade específicos.

Jun Li, diretor de “Queerpanorama” constrói de maneira interessantíssima a busca pelo nosso autêntico “eu”. Diferente de “Ato Noturno”, onde os personagens possuem ambições bastante específicas, no filme Chinês o personagem parece buscar nos outros até mesmo o menor dos traços de personalidade para copiar. Não sabemos praticamente nada sobre quem ele “é de verdade” (se é que isso existe). Desde seu primeiro encontro ele parece estar atentamente observando o homem com quem está saindo, mas não com admiração, e sim como um objeto de estudo (algo muito comum aos jovens LGBT que tentam copiar comportamentos considerados mais aceitáveis ou desejáveis). No segundo encontro que acompanhamos, o protagonista já se apresenta utilizando o nome do último garoto com quem esteve, e dizendo coisas que este lhe contou como se fossem fatos sobre si.

Em um primeiro momento a estrutura do longa pode parecer cansativa, não nos levando “a lugar nenhum”, mas a magia e a beleza de “Queerpanorama”, que nunca se descola de seu ator principal, é percebida quando o ciclo se fecha. Afinal, mesmo que queiramos ser diferentes em certos aspectos de nossa personalidade, ou sermos outra pessoa completamente, isso não é possível. O que acontece é que nosso ambiente, nossa família, amigos e outros círculos sociais acabam por influenciar nossos pensamentos, nossas ações e, sim, nossa personalidade. Mas, depois de construída em nossos anos de formação, não acredito ser algo que possa ser reconstruído completamente. Se um adulto quiser mudar bruscamente o modo como aprendeu a pensar com seus grupos sociais, terá que quebrar estruturas muito firmes e sólidas.

O intrigante em acompanhar nosso querido twink por 90 minutos em tela, em date após date, chegando até mesmo a se colocar em situações de perigo para experienciar algo de excitante e diferente, é o modo como sua personalidade “original”, suas ideias e ideais, acabam sendo colocadas à prova. O que é algo que ele faz intencionalmente e não intencionalmente ao mesmo tempo. Explico: existe melhor forma de entender o pensamento de outra pessoa do que se colocar totalmente em seu lugar? Como é exatamente isso que Cheung está fazendo a todo momento, vemos em um encontro ele bancar uma persona apolítica, despreocupada e derrotista, apenas para no encontro seguinte assumir uma postura oposta, copiando os argumentos de seu companheiro que o questionava, e, nessa sucessão de conversas, talvez uma nova personalidade possa sim estar começando a surgir. Até porque, apesar de tudo o que falei sobre nossas personalidades serem praticamente imutáveis, estamos sempre passando por algum tipo de mutação. Se não, estamos mortos.

A cena final serve como espelho e janela, refletindo a jornada do jovem adulto e possibilitando um novo caminho que quebre esse ciclo de “experimentos”, já que introduz uma nova pessoa na vida do protagonista que talvez possa ser levada mais a sério do que os outros homens com quem saía. Alguém que o enxerga também para além de seu físico, para além de uma performance de personalidade, e que não tem medo de admitir o que todos sabemos, mas, sim, temos medo de admitir até para nós mesmos: nunca saberemos realmente quem somos.

“Queerpanorama” ainda não possui distribuição confirmada no Brasil. Mas é um filme muito especial. Nota: 8,0

Josh O’Connor & Paul Mescal em “A História do Som”.

Por fim, mas não menos importante, quero comentar brevemente sobre “A História do Som”. É evidente que no longa de Oliver Hermanus seria leventada a temática de fingir ser alguém diferente, de criar e sustentar máscaras e disfarces, pois, em primeiro plano, assim como no clássico “Brokeback Mountain“, os amantes sustentam, ou ao menos tentam, relacionamentos heterossexuais, não podendo assumir frontalmente seu amor, até pela época na qual o filme se passa, durante a primeira guerra mundial.

Mas há ainda outra camada de fingimento, de mentira, que o personagem de Josh O’Connor chama de generosidade. Ao realizarem uma viagem pelos Estados Unidos coletando canções antigas passadas oralmente de geração em geração, Lionel, o personagem de Paul Mescal pergunta a seu amante como fazer as pessoas se sentirem confortáveis para compartilhar suas músicas. David então responde que inventa histórias de acordo com a personalidade dos cantores. Ou seja, se for o caso de um homem com uma garrafa de bebida nas mãos e barba por fazer: peça que ele conte sua história, mas se estivermos falando de uma senhora com uma bíblia no colo, diga que o que estão fazendo é uma espécie de trabalho divino. Lionel acha estranha a abordagem, mas David defende que se trata de um ato de generosidade com as pessoas, uma maneira de fazer com que elas sintam-se confortáveis. Quem pode dizer que nunca mentiu com essa intenção?

O filme trata sobre desejo. Desejo reprimido, mas também expressivo em alguns pequenos momentos. É verdade que, como o já citado “Brokeback Mountain“, ele cai em território clichê é até de estereótipos como o “kill your gays” (“mate seus gays”). Mas não seria leviano a ponto de resumir a obra a estas observações, apesar de válidas. Há muito mais a ser observado aqui. A vontade de preservar e permanecer, por exemplo, que à primeira vista seria voltada apenas para o projeto de gravar as canções, se mostra presente como parte essencial da própria experiência LGBT. A vontade de deixar algo como legado após nossa morte, já que a ideia de deixar filhos, ao menos na época em que o filme se passa, no início do século XX, é fortemente ligada à experiência heterossexual. E, para nós pessoas Queer, o que acaba se tornando nosso legado é comumente nossa arte (será que por isso muitas pessoas Queer são artistas?)… “A História do Som” tem estreia prevista para 16 de fevereiro de 2026 no Brasil. Nota: 8,5.

Agradeço imensamente a quem teve paciência para finalizar este texto. Para concluir, deixo apenas uma últimas palavras a respeito do “tema” que propus comentar ao longo das três “críticas”, e do título que dei para este texto. Não sei se acredito que somos uma pessoa só. E, como deu para perceber nesses imensos parágrafos, me interessa muito falar sobre a questão da identidade, ainda mais aplicada ao contexto LGBT+, pois ao falar sobre isso também reflito a respeito da minha própria identidade e como ela se moldou e ainda se molda baseada em diversos fatores. Um deles, inclusive, certamente é o próprio cinema, que também pode ser usado como uma espécie de máscara, algo que comentei na crítica do “Corações Jovens” também. O fato é que, com ou sem máscaras (se é que existe algum momento em que não usamos alguma), estamos sempre atuando, estamos sempre mentindo, estamos sempre fingindo. Se um ato de generosidade, se uma tentativa de aprendizado, um modo de lidar com nós mesmos ou com os outros ou se um meio de alcançar nossos objetivos… isso vai de cada um, e de cada momento. Talvez o que possa nos confortar, depois de um possível desespero ao nos darmos conta de que não há um “autêntico eu” por trás de tudo isso, seja de que não é sobre tentar nos livrar das máscaras que usamos, mas criar uma feita de partes de todas que já vestimos, uma (re)construída por Kintsugi, feita de tudo e todos daquilo(eles) que somos, e eternamente mutável.

Por favor, caso se sintam à vontade, comentem o que acharam a respeito dos filmes e/ou das discussões e indagações que propus aqui. Vou adorar ler suas opiniões e conversar mais sobre o assunto! Até a próxima 🙂

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