Por Matheus Britto.
Co-roteirizado por Charli xcx, Erupcja pode até não demonstrar o mesmo ímpeto à transgressão em suas escolhas formais quanto how i’m feeling now ou Brat demonstraram recentemente, porém, tematicamente, é tão sensível ao lidar com uma crise de início da vida adulta quanto algumas das principais faixas que a popstar britânica compôs para o álbum que a catapultou ao topo das paradas musicais durante o último verão.
A bem da verdade, mesmo passado um ano desde seu lançamento, é impossível escrever sobre Charli xcx e sua estreia como atriz sem mencionar o fenômeno Brat. Não porque a cantora parece determinada a ignorar o fato de que eras musicais nascem e morrem em intervalos cada vez menores a medida em que seguimos atentos a quais serão as próximas tendências que tomarão as redes sociais. E sim porque, assim como em how i’m feeling now, é um álbum que, embora remeta sonoramente a um cenário em que se está dançando com amigos na pista de um espaço parcamente iluminado pelo neon e abafado enquanto a madrugada transcorre do lado de fora desta casa noturna imaginária, confessa sentimentos de profunda vulnerabilidade e então compreende que está tudo bem ser falho. Condição esta semelhante àquela na qual encontramos Bethany (xcx) em Erupcja.
O longa acompanha Bethany e seu namorado, Rob (Will Madden), durante uma viagem à Varsóvia. Presos na cidade por causa da erupção do Monte Etna, a rotina do casal passa a girar entorno de almoços monótonos, passeios em museus que levam a discussões sobre fotos “instagramáveis” para serem publicadas, e encontros casuais com a boemia varsoviana, enquanto a protagonista tenta protelar a proposta de casamento, ciente que acontecerá cedo ou tarde antes que retornem para casa. Deslocada e relutante, ela procura pela companhia de Nel (Lena Góra), uma amiga de infância que conheceu em circunstâncias parecidas àquelas que levou a sua permanência no local e que também está lidando com dilemas referentes a um relacionamento amoroso. Juntas, elas vão ao clube.
No que concerne ao reencontro das personagens e a fuga de ambas das responsabilidades para com seus parceiros, Peter Ohs compreende que filmá-las enquanto rumam à euforia das experiências noturnas em Varsóvia seria o equivalente ao esforço de um observador casual em fotografar com precisão um fenômeno da natureza. Como os fenômenos, como a erupção que abre o filme e que passa a ser uma peça-chave na alusão ao quão magnética e impulsiva é a relação destas duas amigas, elas são incontroláveis. Portanto, são em momentos como estes, quando os problemas supostamente desaparecem e tudo converge em êxtase, que a passagem do tempo é dilatada, e nos resta acompanhá-las por meio de borrões, de breves vislumbres de embriaguez no interior de uma boate ou de uma corrida em plena madrugada.
No entanto, é impossível seguir ignorando os problemas e as responsabilidades para com o próximo. Ao escutá-las descrevendo as circunstâncias nas quais os reencontros têm ocorrido desde o primeiro contato, Claude (Jeremy O. Harris) atenta-as ao fato de que erupções também levam à consequências destrutivas. Ao contrário da infância e da adolescência, fases em que as experiências são guiadas tanto pelo que nos resta da ingenuidade quanto pela pulsão da descoberta, a vida adulta demanda que decisões sejam tomadas, que conversas potencialmente dolorosas aconteçam. É quando entende a si mesma como alguém falha, que não está preparada para tomar o passo seguinte em um relacionamento, que Bethany finalmente percebe que está pronta para dar uma resposta à proposta ainda não verbalizada de Rob, que a aguardara pacientemente, ponderando sobre o que estaria acontecendo com sua namorada.
Ohs não julga sua protagonista pela indecisão entre o compromisso e a liberdade, por protelar a conversa dolorosa que terá com seu namorado sobre não estar preparada para o matrimônio, por fugir da melancolia que sucede o término de um relacionamento. Na verdade, é precisamente este impasse que permite ao cineasta atestar uma das belezas que compõe a natureza humana: a consciência de que somos falhos, de que estamos diariamente tentando amadurecer, e que está tudo bem falhar e tentar novamente no dia seguinte.

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