Por Fernando Grisi
Ficamos felizes só por jogar. A pergunta que resta é: até quando?
Já faz um tempo que venho direcionando minhas críticas para um aspecto bastante pessoal. Escrevo textos críticos para a A24 Brasil desde 2022, com minha primeira cobertura de um festival: o Festival de Cannes. Na época, muito influenciado por críticos que acompanhava, e por falta de uma visão mais aberta sobre o cinema em si, possuía a noção de que a boa crítica deveria ser objetiva, direta, e sem muitas opiniões pessoais. Ainda bem que hoje já não penso mais assim, e por isso tenho tentado focar meus comentários sobre as obras que vejo nas coisas que me tocam, e principalmente que me fazem pensar para além do filme, relacionando algo que foi dito e/ou mostrado com alguma vivência ou questão pessoal minha ou do meu entorno. “Marty Supreme” me deixou completamente atônito quando as luzes do cinema se acenderam, além de ter me deixado na ponta da cadeira durante toda a exibição. Neste texto, vou tentar explicar o porquê do filme ter feito tudo isso comigo, e ter me feito até mesmo reavaliar minhas ambições profissionais.
Josh e Benny Safdie começaram a trabalhar juntos em 2005. Ao longo dos anos, os diretores se consolidaram como uma dupla explosiva, fazendo filmes frenéticos, ansiosos e dinâmicos, que muitos classificam como “ataques de ansiedade em forma de filme”. Após muito tempo trabalhando juntos, 2025 foi o ano em que os irmãos decidiram se separar e cada um dirigir seu próprio filme solo, curiosamente os dois sobre personalidades do esporte: Benny Safdie com “Coração de Lutador”, estrelado por The Rock, e Josh Safdie com “Marty Supreme”, estrelado pelo ex-twink Timothée Chalamet. Pensei em escrever um texto maior, talvez comparando os dois longas, os quais penso terem até bastante em comum em relação a seus temas. Mas, apesar de ter gostado de “The Smashing Machine”, “Marty Supreme” me fez sentir e pensar em questões muito urgentes e sensíveis para minha vida agora, e, por isso, optei por escrever somente sobre ele por enquanto.

Para quem já vem acompanhando minhas críticas aqui na A24 Brasil, sabe que sou cineasta. Ainda me sinto um pouco sem graça de me definir assim, mas eu faço filmes, então acho que, querendo ou não, sim, sou um cineasta. Para me referir ao ato de fazer Cinema e tentar viver disso, tenho usado uma frase que a este ponto já praticamente patenteei, que é: fazer filmes é estar em um relacionamento abusivo. O Cinema nos maltrata, nos humilha e nos deixa tristes. Mas, porém, contudo, entretanto, todavia, de vez em quando, em raras ocasiões, temos o vislumbre de uma realização, fazemos um filme, nos conectamos com nossa equipe, o lançamos em festivais legais, e experimentamos um pouco de uma suposta e supostamente prometida glória que a profissão e o “status” de artista parece por vezes reservar. E esta sensação de realização, mesmo que pequena e muito pontual, nos mantém “presos” neste relacionamento, que para 360 dias frustrados no ano possamos ter talvez 5 dias felizes, mas que acabam fazendo a conta fechar.
Tudo isso me leva a crer que é preciso ser maluco para “vencer”. Poxa, é preciso ser maluco mesmo para começar a se arriscar e tentar vencer. “Marty Supreme” me fez pensar que talvez as Artes e os Esportes tenham isso em comum. Claro, é possível tanto ser um esportista quanto um artista “mediano”, que consegue se sustentar sem necessariamente estar entre os melhores de sua área. Mas tais áreas parecem ter uma predileção pelos ambiciosos, pelos “malucos” e, vou falar sim, pelos sonhadores. Sejamos também sinceros, honestos e transparentes, além de politicamente conscientes, na hora de afirmar: não há espaço para todos no topo. É muito bonitinho nós, quando adolescentes, nos sentarmos no chão da sala e assistirmos a um galã de Hollywood recebendo um prêmio da indústria e, em seu discurso, falar algo como “Nunca desistam dos seus sonhos, pois eu nunca desisti dos meus”. Sendo que, por trás de toda essa “persistência” da estrela de cinema (que aqui pode ser substituída por qualquer outra pessoa bem sucedida em sua respectiva área) houve oportunidades e vivências muito diferentes daquelas as quais nós simples mortais tivemos (e teremos) acesso.

Nada disso quer dizer que não devamos sonhar, não devamos nos arriscar ou ao menos tentar fazer aquilo que sentimos que devemos fazer. Marty Mauser, apesar de um exemplo extremo e não exatamente positivo, tem uma ideia muito clara sobre quem ele deve se tornar profissionalmente. Sua ambição o deixa cego para tudo e todos ao seu redor que possam o desviar minimamente de seu caminho, mas cabe a pergunta: será que nosso propósito de vida não é justamente aquilo pelo qual vivemos? Ou a “verdade” está naquela outra máxima que diz que a vida é sobre os pequenos momentos, sobre aquilo que acontece entre nossas grandes realizações, e apesar delas. O personagem vivido por Chalamet reconhece, no entanto, essa ambição e esse propósito como uma “maldição”, dizendo que possui “a obrigação de cumprir um objetivo muito específico”. Dizendo também, assim, que não pode apenas viver como as outras pessoas, um dia de cada vez, sem que cada decisão seja pensada para alcançar uma meta futura. Não precisamos ser como Ele, mas, de novo, me volto para minha relação com a minha vida, como artista, e sinto que, querendo ou não, talvez precisemos um pouco. Talvez precisemos ser um pouco iludidos, como Marty, que deixa de lado muitas vezes a noção do ridículo, a vergonha, e até mesmo o senso de sobrevivência em prol de seu único objetivo profissional: ser o melhor mesatenista do mundo.
Ao longo dos meus (poucos) anos lidando diretamente com a indústria do Cinema em diferentes áreas, tenho percebido que o princípio de fake it till you make it (fingir até conseguir) se aplica muito ao nosso universo. Marty é um que se apropriou dessa máxima e a levou ao limite: ele fingiu tanto que realmente acredita ser uma estrela, ser predestinado a uma grandeza inegável, e por isso torna-se impossível para ele que seus desejos não sejam realizados, não sobrando espaço para uma síndrome do impostor, por exemplo. De novo, essa visão sobre nós mesmos como quase Deuses é bastante perigosa, mas, admito que às vezes prefiro me colocar nesse lugar de do que ceder mais uma vez à síndrome do impostor que me faz sentir como alguém não digno de nada. É algo que sentia muito mais presente em mim quando era mais jovem, na adolescência, e que fui perdendo com o passar dos anos, com um maior contato com o famigerado “mundo real”. Não consigo deixar, apesar de seus muitos problemas, de admirar Marty por não ceder às pressões externas e internas que tentam o desestabilizar e o afastar de seu sonho. Não ter abandonado o sentimento de ser o centro do universo que é , mesmo que isso mude ao longo do filme. Mais a seguir:

Não sei se irão acreditar, mas o que me fez criar essa conexão mais direta entre “Marty Supreme” e o fazer cinema foi um tweet da diva Ana Mary, que disse: “quando envolve filmes temos que perguntar: sera mesmo que ganhamos algo?”. Apesar do tom cômico, que muitos outros de seus posts também adotam em relação a filmes e ao cinema (“chega de filmes”), essas poucas palavras me levaram a uma reflexão muito mais profunda e que me levou também de volta ao filme o qual estava contornando sem ainda aborda-lo tão diretamente. Agora chegou a hora. De tentar explicar porque “Marty Supreme” me fez olhar para meu trabalho, minha vida, e me levou a escrever tudo isto.
Estou em um momento no qual me encontro bastante desnorteado em relação à ambições. Sempre tive muito claro na minha mente, desde que decidi que trabalharia com Cinema, que… trabalharia com cinema. Parece besta, mas, se tratando de transformar Arte em uma ocupação rentável, é algo mais raro do que pode parecer. No entanto, desdobramentos recentes (que não foram nada graves mas gravemente exagerados por minha mente ansiosa) me deixaram bem próximo não necessariamente de desistir de minha ambição profissional (que nem mesmo deveria ser considerada uma ambição, visto que se resume simplesmente a trabalhar com aquilo para o qual estudei, como qualquer outro profissional), mas me fizeram reconsiderar alguns preceitos que pensava serem não negociáveis e quase inimagináveis até certo tempo atrás. Algumas respostas negativas, algo com o qual já estou até bastante acostumado, junto com uma oportunidade de desempenhar uma função em outra área que não necessariamente a realização, me deixaram em uma crise profissional. Fiquei considerando: seria melhor mesmo me afastar um pouco deste universo do Cinema, de minhas ambições profissionais muito específicas, e focar mais nos aspectos mais mundanos da vida, na família e nas amizades? Ou justamente o contrário? E o melhor a se fazer seria dobrar as apostas feitas até aqui, focar na minha ambição primária, mesmo que não esteja dando frutos agora e talvez não dê por um bom tempo, talvez nunca… Não consegui chegar ainda a uma conclusão, mas pelo menos o filme me fez refletir sobre isso, me levando ao pensamento: ficamos felizes só por jogar. A pergunta que resta é: até quando?
Em “Marty Supreme”, o personagem que dá nome ao filme nega firmemente qualquer outra oportunidade profissional que apareça em seu caminho, sempre focado em seu primeiro e único objetivo. Não falei muito sobre cenas específicas ou aspectos técnicos do longa, mas é um bom momento para falar de um grande destaque para mim: Gwyneth Paltrow, que interpreta Kay Stone, uma atriz de Cinema decadente tentando fazer um retorno nos palcos. Justamente por conta dessa sua situação, as cenas que divide com Chalamet se mostraram especialmente fascinantes para mim, pelo contraste entre os dois, que acabam se complementando de um jeito muito satisfatório. Ela, uma atriz mais velha, que já passou por muita coisa e hoje se encontra presa a um casamento sem graça, e ele, um jovem que possui toda a vida pela frente, e mostra uma ambição que ela já não possui mais. Por isso ele a atrai, fisicamente, mas creio que um pouco emocionalmente, e intelectualmente também. Em uma cena entre os dois, Marty diz que não possui nenhum plano B, e que nem cogita a possibilidade de seu sonho não ser alcançado. Kay parece repreender um pouco essa sua atitude, mas no fundo percebe-se que ela o admira e até o inveja um pouco, com sua força de vontade imparável e uma pulsão pela vida que a excita e até a encoraja, à sua própria maneira. Além disso, dentro desta mesma cena há uma contradição exposta pelo próprio Marty: Kay diz que ele é jovem demais para entender as coisas como elas são, mas ele retruca dizendo que claramente ela o acha velho o suficiente para transarem escondidos em meio a seu “grande retorno”. Contradição esta que se faz também presente no âmbito profissional, com os veteranos das áreas reprimindo e negando acesso aos mais jovens ao mesmo tempo que dizem admirar sua força de vontade. “Marty Supreme” acaba sendo também um protesto contra esses poderosos que, como Milton Rockwell, só pensam em se apropriar de uma forma de arte para vender produtos.

Em conclusão, talvez caiba fechar este texto, que já ficou muito longo e talvez um tanto perdido dentro dele mesmo, respondendo à pergunta que coloquei no título. A indagação trazida por Ana Mary provavelmente se referia às vitórias do filme Brasileiro “O Agente Secreto” no Globo de Ouro. O tweet faz parte da personagem que finge odiar filmes, mas se pensarmos bem, realmente a pergunta “É possível vencer no cinema” convida profundas reflexões. Como mencionei anteriormente, há toda aquela questão das pessoas envolvidas com a cadeia audiovisual que estão em uma espécie de relacionamento abusivo. Mas para além disso, é um trabalho que parece desconvidar a vitória, por assim dizer. É possível sim vencer no Cinema, mas talvez sejamos nós que devemos encontrar nossa própria vitória dentro dele, e será algo diferente para cada um, talvez com uma grandeza diferente, talvez com uma humanidade diferente, um glamour diferente ou algo inteiramente diferente. Para o bem ou para o mal, a única forma de descobrimos como será a sensação de vencer é continuar insistindo. Afinal, é isso o que acaba com nossas vidas, mas ao mesmo tempo dá significado a elas.
A grande beleza de “Marty Supreme” para mim está na sua catarse. Parece redundante falar que o terceiro ato fecha o filme com chave de ouro, mas vou explicar melhor. Marty se humilha para conseguir ir até o Japão, e com isso se submete às regras do jogo publicitário, que nada se importa com o jogo verdadeiro de tênis de mesa. Além disso, parte do acordo (que firmou na sua cabeça) envolvia sua participação no campeonato mundial. Mas, conversando com o Sr. Sethi, este lhe diz algo que também me fez pensar. Mauser diz que Sethi nem imagina o quanto ele teve que percorrer (física e emocionalmente) para chegar até ali. Ao que o senhor responde que, infelizmente, parece mesmo assim não ter sido o suficiente. O mesatenista sempre havia, mesmo com muita correria, caído de pé após todas as suas façanhas, nunca tendo a experiência de “não ter chegado longe o suficiente”.
Contudo, voltando novamente na questão de ser um tanto iludido, e como isso se torna quase necessário tanto para o protagonista quanto para qualquer um que trabalha com Cinema, Marty não desiste. Momentos depois, durante o jogo real e final com Koto Endo, o Sr. Rockwell vai até Marty e lhe diz que ele nunca será feliz. Ao que Marty, que poderia estar aflito com sua situação após a partida, apenas sorri e diz “Ok”. Pois ele sabe que isso não é verdade. E o que se segue é o momento mais feliz de sua vida: sua vitória. E, ainda assim, ele acaba. E rápido. No entanto, a verdadeira vitória, ao menos dentro da lógica do filme, vem depois. Se antes Marty negava tudo aquilo que era mais “mundano”, pertencente aos homens comuns, grupo no qual ele certamente não pensava se enquadrar, agora ele entende que não há como viver uma vida à parte da sociedade, das outras pessoas. Quando Rachel é levada ao hospital, Marty responde para a enfermeira que não é o pai, e que precisa ir embora. Esse momento é subvertido nas últimas cenas do longa, quando Mauser volta do Japão e, indo direto para o hospital, já anuncia para as enfermeiras que é o pai, e logo que vê Rachel a assegura de que ele não irá a lugar algum. Ou seja, ele irá abdicar, ou ao menos diminuir consideravelmente suas ambições para cuidar de sua família recém-formada. A emoção que ele mostra ao ver sua filha pela primeira vez se torna maior do que qualquer reação que já teve a uma vitória no tênis de mesa.
Depois de ter assistido ao filme pela primeira vez, foi essa a sensação que me veio imediatamente: um sentimento muito específico que não necessariamente vivi mas consegui me imaginar claramente vivendo: conseguir realizar um último grande feito para sua realização pessoal, uma última chance de provar de sua ambição, antes de voltar ao “mundo real” e colocar os pés no chão, aceitando que o maior feito ainda é ser humano.
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