Por Fernando Grisi.
Antes de começar a crítica em si, queria trazer algumas curiosidades. Este é o primeiro filme escrito e dirigido por Owen Kline. E, para aqueles que não se lembram, ou simplesmente nunca o conheceram, ele é o ator que interpretou o jovem Frank em “A Lula e a Baleia”, filme de 2005 dirigido por Noah Baumbach (que no futuro também trabalhou com a A24). E as coincidências da A24 não param por aí. O personagem de Kline tinha um irmão no filme (aliás, recomendo o longa), o qual foi interpretado por um jovem Jesse Eisenberg. O curioso aqui é que ambos os atores que contracenaram em 2005 estão, 17 anos depois, estreando seus primeiros filmes como diretores. Os dois produzidos pela A24, e os dois inclusive presentes no Festival de Cannes deste ano. Infelizmente não consegui assistir ao When You Finish Saving The World, filme com direção de Eisenberg, mas vou escrever um pouco sobre o quê achei de Funny Pages, debut de Owen Kline atrás das câmeras, após esse parágrafo de curiosidades inúteis sobre o “multiverso” da A24.

Assisti ao filme no meu primeiro dia no Festival de Cannes (dia 25). Ele fez parte da Quinzena dos Realizadores (Director’s Fortnight), uma mostra paralela à competição oficial do Festival. Estava cansado depois de mais de dois dias viajando, mas não consegui deixar de prestar atenção em nenhum momento da projeção.
O longa é um Coming of Age, assim como Oitava Série (2018) e Lady Bird (2017), e é estrelado por Daniel Zolghadri (Oitava Série, Maré Baixa). Assim como outros filmes do mesmo gênero, como os próprios da A24 já citados, Funny Pages não apresenta uma narrativa “plot driven” (guiada pela trama). Não há grandes acontecimentos e nem pontos de virada que tentam elevar a tensão e o conflito para um final grandioso. O quê temos aqui é o retrato de um período da vida do protagonista em que tudo é muito incerto, a famosa adolescência, seja em relação a perspectivas do futuro ou ao modo como se sente em relação a si mesmo às pessoas com quem convive. Conhecemos o protagonista, Robert, vivendo nos anos 90 (?), e seu amor por histórias em quadrinhos. Não somente por lê-los, mas Robert desenha suas próprias páginas há um bom tempo, e recebe bastante apoio de um de seus professores, Katano (interpretado por Stephen Adly Guirgis). As criações de Robert são bastante gráficas, irreverentes, e até repulsivas para os puritanos de plantão, no melhor estilo das antigas revistas Mad e outras publicações menos conhecidas aqui no Brasil. Ele sonha em trabalhar com a área, criando histórias, mas como todo adolescente está perdido em relação ao seu futuro. Acompanhamos então, a jornada de Robert, que está longe de ser uma jornada bem definida ou minimamente heroica. Não é nem mesmo uma jornada que necessariamente o levará a algum lugar, apenas nos mostrará algumas desventuras que ele enfrentará no caminho.
A relação entre Robert e seu professor acaba chegando a um fim, e isso leva o garoto a se desiludir ainda mais com seu futuro e anunciar para seus pais que não irá fazer faculdade. Não apenas isso, como também irá se mudar da casa deles para morar em um porão abafado sem luz natural com mais dois homens incrivelmente suspeitos. É o momento para dizer que o filme é realmente muito engraçado (o nome não mente hahaha). Essas duas cenas que mencionei, a que Robert conversa com seus pais e a na qual ele conhece o “cativeiro” para o qual decide se mudar, retiraram várias risadas de mim e de todos na sessão do cinema Arcades.

Admito que minha tendência quando assisto a algo é sim sempre buscar pela progressão narrativa, mas estudando Cinema estou conseguindo me abrir mais para as várias possibilidades narrativas (e experimentais) que ele oferece. No entanto, em Funny Pages (assim como em outros Coming of Age) a falta de progressão não me incomodou. Talvez por apresentar um tom bem mais irreverente do que a maioria dos filmes adolescentes (senti uma semelhança em vários aspectos com o “Diary of a Teenage Girl”, que é bem interessante), ou por conta do humor mais “ácido” ter funcionado bem para mim. A questão é que, e o motivo para eu gostar tanto de filmes, não importa o quão despropositada alguma obra pareça, ou o quão divisiva, o quão odiada pela crítica e público, sempre haverá alguém para se identificar com algum tema, algum personagem, ou para se encantar por algum aspecto da sua construção. Faz parte da “Magia do Cinema”, que apesar de ser essencialmente uma experiência coletiva, é uma das experiências mais pessoais que alguém pode experienciar. Mas estou divagando.
Como já comentei, a narrativa aqui não segue uma progressão totalmente “lógica”, não está interessada em levar cada cena para uma conclusão, focando-as apenas em acompanhar nosso jovem fazendo decisões ruins (não é isso que é a adolescência?). Assim, em várias cenas tem-se a impressão de que aquela situação não irá “levar a lugar nenhum”, mas na maioria das vezes tais cenas se redimem por trazerem nelas o humor do filme, como por exemplo, as várias cenas no tribunal, com uma hilária mas subaproveitada Marcia Debonis. Ainda assim, até a metade do filme estava começando a querer um pouco mais, me questionando se toda a duração dele seria composta por cenas curtas com piadas, que, após tanto tempo, começavam a perder um pouco a eficiência para mim. Mas é aí que entra o personagem incrivelmente bem interpretado por Matthew Maher: Wallace…
O filme se elevou de uma maneira incrível a partir da entrada de Wallace. Não intelectualmente, óbvio, na verdade pode ter sido o contrário, mas pelo menos para mim o roteiro se tornou muito mais engraçado. Não vou comentar muito sobre o personagem por conta de spoilers (torçamos para que o filme chegue no Brasil por algum streaming, porque infelizmente o apelo não é forte), mas é com a nova dinâmica entre Wallace, que está sendo processado por agressão, e Robert, é onde o filme tem seus melhores momentos, suas melhores piadas, e honestamente, seu coração. Os dois desenvolvem uma amizade (?) bastante imprevisível, e o humor gerado por esse relacionamento só vai escalando até o final da história. Disse antes que estava divagando ao falar sobre a “magia do Cinema” em uma crítica de um filme com piadas sobre masturbação, mas não estava divagando completamente. Isso porque a relação entre Robert e Wallace abriga as possibilidades de interpretações temáticas da obra de Owen Kline, e me levaram a ter principalmente dois tópicos para analisar: a questão do “caminho do artista”, que neste caso não é nada claro e nem conclusivo, se perdendo na confusão da própria cabeça do protagonista, com suas dúvidas e decisões ruins, e também há a questão da amizade, com Robert tentando se aproximar de um homem mentalmente instável (e perigoso), buscando nele uma relação intensa que não encontra dentro de sua casa com seus pais e nem com seu amigo (de quem ele parece não gostar muito). E apesar de não ser uma experiência emocionalmente carregada ou tematicamente muito rica, como disse a melhor coisa do cinema é a maneira como ele pode afetar cada pessoa individualmente, fazendo com que Funny Pages, para mim, além de me fazer rir, também me deixou pensando com frases como “Você está obcecado com meu fracasso” e “Não se pode simplesmente decidir ser um artista”.
Sobre o restante dos aspectos do filme (produzido pelos irmãos Safdie, de Jóias Brutas, diga-se de passagem), os quais sinto que deixei um pouco de lado nessa crítica, acho que Owen Kline como diretor merece muita aclamação. Em seu primeiro trabalho soube exatamente o que queria fazer aqui e executou sua visão perfeitamente. Em nenhum momento senti que alguma área não estivesse fazendo seu melhor trabalho. A Fotografia, que utiliza muita câmera na mão, alinhada com a Direção de Arte detalhista, criam uma atmosfera fiel tanto aos personagens quanto ao período dos anos 90 no qual o longa se passa. Não preciso dizer de novo que o roteiro acerta bastante nas piadas, e apesar de achar que os momentos passados no “cativeiro” e no tribunal perderam a eficiência do humor após um tempo, de maneira geral a comédia do filme funciona muito bem, e só melhora. As interpretações também são excelentes, não só dos personagens principais mas também de todos os periféricos. O destaque é obviamente o personagem intrigante e simplesmente absolutamente maluco Wallace, interpretado por Matthew Maher. Não comentei sobre os pais de Robert, vividos por Josh Pais e Maria Dizzia, mas os dois também entregam ótimas atuações, com momentos cômicos muito bons. A trilha sonora se mostrou praticamente imperceptível para mim durante o longa, mas quando o momento pedia, uma composição mais inventiva tocava e ajudava a aumentar a cena, com a trilha final inclusive tendo ficado na minha cabeça por um tempo. O filme flui muito bem, não parecendo ter nem mais um minuto a mais do que sua duração, que não é muito longa. Funny Pages não é uma grandiosa obra audiovisual, não trata de temas sensíveis e nem está interessado em analisar profundas relações humanas, mas é uma obra praticamente perfeita no que se propôs a ser: uma comédia irreverente e engraçada que ainda assim não deixa de criar conexões entre os personagens que por sua vez criam sua própria relação com nós que os assistimos. Foi um dos melhores filmes da A24 que tive a chance de assistir em Cannes. Vamos torcer (eu vou, pelo menos), para que este seja apenas o começo da carreira de Owen Kline na direção. Já estou ansioso para ver qual será a próxima história que ele decidirá contar.
Nota: 7,7
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