Profundo ou Pretensioso? Polêmico novo filme de Garland tem bom clima de suspense, mas perde oportunidade de trazer novas perspectivas sobre seu tema.

Por Fernando Grisi

Não faço a menor ideia de como conduzir esta crítica. Já faz quase um mês desde que assisti a Men na Croisette e desde então tento pensar em como construir uma linha de argumentação que faça sentido, porque talvez até agora não tenha me decidido totalmente se gostei ou não do filme. Mas vou tentar expressar meus sentimentos, ainda que possivelmente confusos e conflitantes, sobre uma das obras mais aguardadas da A24 para 2022. 

Todos esses sentimentos conflitantes podem ter se dado pelo novo projeto de terror(?) de Alex Garland (Ex Machina, Aniquilação), ser, assim como seus outros filmes, imprevisível e misterioso. Minha reação ao atingir a marca de cinco minutos de filme foi realmente inesperada, já que todas as pessoas da sessão lotada (e eu inclusive) estavam gargalhando. Comentei um pouco sobre isso em um story da A24 Brasil durante a cobertura de Cannes, disse que foi inclusive a sessão que consegui participar na qual ouvi mais risadas. Não quero, e nem vou, entrar em spoilers aqui, mas confesso que esse é um filme difícil de comentar sem entrar em pontos ou cenas específicas. Vou falar bem por cima o motivo que fez tantas pessoas rirem nos primeiros minutos de Men (no final já não havia mais ninguém rindo), então se você não quiser saber absolutamente nada a respeito do filme antes de assistir (algo que eu recomendo), pule este próximo parágrafo.

Jessie Buckley em “Men”. © A24

Logo que chega na enorme casa onde vai passar suas curtas férias, Harper (Jessie Buckley) encontra Geoffrey (Rory Kinnear), o dono do local que alugou a casa para ela. É nesse momento que entra aquela cena do trailer onde ele diz a Harper que não deveria ter comido a maçã (“fruto proibido”, diz). Toda a cena seguinte consiste em um tour guiado pela casa, com Geoffrey fazendo pequenos comentários que nos fazem enxergá-lo como um brincalhão, bem na linha do “tio do pavê” mesmo, quase que um personagem saído de uma sitcom. E foi nesse momento que a audiência não conseguiu segurar o riso, enquanto provavelmente se questionavam se aquele era realmente o filme que pensavam que iriam assistir aquela noite. No entanto, e assim como muitos “tios do pavê”, as colocações do personagem masculino durante esse tour carregavam com elas ideias essencialmente machistas. Assim começa uma das questões (talvez a principal) que gostaria de discutir sobre, que é o ponto criador das polêmicas e polarizações das críticas ao filme, e também o quê me deixou extremamente confuso quanto ao quê pensar a respeito das intenções da obra de Garland, mas que também será difícil de fazer sem spoilers. Mas fique com esses meus comentários inconclusivos, porque vou voltar neles após falar um pouco mais sobre a introdução.

Você que está lendo esta crítica provavelmente já tem algum conhecimento sobre o quê é este filme, seja pela sinopse ou pelo trailer. E apesar de o trailer dar uma boa ideia de como o filme realmente é, há muito mais para se descobrir em Men, ao menos em um nível narrativo, acredite quando digo que você não está preparado para Men (ao menos não para seu finale). Jessie Buckley (The Lost Daughter) interpreta Harper, mulher que está tirando férias no interior da Inglaterra após passar por um evento traumático. Mas durante sua estadia na pequena cidade, coisas estranhas começam a acontecer envolvendo os homens presentes no local (todos interpretados por Rory Kinnear).

Jessie Buckley e Paapa Essiedu em “Men”. © A24

Após a introdução na qual a personagem de Jessie Buckley encontra o dono da casa onde irá se hospedar e conversa com ele, entramos em um território não exatamente do suspense, que é o se poderia esperar, mas sim de uma certa divagação, e possivelmente de alguns simbolismos. Harper caminha pela floresta, sozinha, em sequências silenciosas. Observa árvores, escuta pássaros, e continua. Ela tem alguns encontros com outras personalidades do pequeno vilarejo (todas homens e, lembrando, interpretadas pelo mesmo ator em sua própria metáfora). Encontra o dono do pub, um policial, um morador, um padre, uma criança, Geoffrey novamente…E o mesmo comportamento se repete em todos eles, de maneiras mais ou menos intensas. Geoffrey, por exemplo, que é o personagem do qual todos estavam rindo no começo por ser meio atrapalhado, mas ainda assim com algo de inquietante em suas expressões e silêncios, mais uma vez nos faz rir com seus comentários. Mas de novo com um pouco de receio, pois eles vêm acompanhados daquelas mesmas constatações machistas. Aquelas bem simples, micro agressões mesmo, como quando Harper tenta pagar a conta do pub e Geoffrey insiste para pagá-la, mesmo depois da mulher dizer claramente, e várias vezes, que não queria que ele fizesse isso.

Não estou tentando contar todo o plot do filme aqui, e mesmo com as poucas descrições que dei sua experiência não vai ser prejuducada (espero). A trama realmente não possui uma estrutura clássica, e por isso não é nada previsível, o que considerei uma qualidade, ainda mais porque estamos falando de um longa com uma atmosfera bastante carregada de mistério e antecipação. Acontecem coisas durante o segundo ato que te deixam elaborando as mais diversas teorias sobre o quê está por vir no final da história, mas dificilmente você adivinhará o que de fato virá. O “miolo” da produção é onde se encontram a maioria dos simbolismos, e Men é repleto deles. Não vou chegar a comentar muito sobre eles para não entrar em território de spoilers, mas basicamente o que se vê no trailer é utilizado aqui com mais intensidade. Sejam as referências a Adão e Eva, com a árvore e as maçãs, ou aquelas estátuas de pedra (O Homem Verde e Sheela Na Gig, caso queiram pesquisar mais sobre elas depois). Todas essas metáforas, junto com alguns flashbacks do passado de Harper, somadas ao clima de suspense que foi criado até ali, com cada um dos homens daquela vila, sem exceção, tendo apresentado algum tipo de comportamento inapropriado com a personagem principal, nos faz querer que algo a mais aconteça logo. Que o filme decida de uma vez por todas para onde quer seguir, pois o que eu estava pensando na hora era que já não restava muito tempo de projeção para uma resolução bem elaborada da história.

Antes que desistam de continuar a ler por conta das minhas descrições vagas, quero comentar um pouco sobre os aspectos mais técnicos da obra (sei que acabo focando demais em narrativa e significados, mas faz parte). Jessie Buckley é a melhor coisa do filme. Super expressiva, e muitas vezes sem precisar dizer nada, pois passa muito tempo do filme calada, suas expressões faciais nos dizem muito. E, quando precisa gritar, lutar, chorar, faz isso perfeitamente também. É uma atriz excelente, como quem já assistiu a outros filmes com ela bem sabe. Rory Kinnear também está incrível, ele teve um trabalho muito difícil e entregou performances ótimas fazendo mais de cinco personagens diferentes, que exigiram bastante dele. Queria ressaltar a trilha sonora também, que em alguns momentos é bem sutil, mas se torna perceptível ao utilizar os próprios ecos da voz de Harper para compor a sonoridade inquietante do filme, o que funciona muito bem. Também há uma escolha musical que parece não ter muita relação com a trama, mas quando prestamos atenção na letra percebemos sua relevância. A maioria das cenas se passam em uma única locação (a casa), e apesar da Direção de Arte ter feito um ótimo trabalho com o local, é na caracterização dos personagens que o setor tem sua maior conquista, principalmente a partir da segunda metade do longa. Além de ter ajudado a enfatizar as cores durante a narrativa, em níveis até bastante simbólicos (a presença do verde e laranja, por exemplo, em contextos diferentes). Não há muito o que comentar sobre as escolhas da Fotografia, mas é inegável que o Diretor sabia, mais uma vez, o que estava tentando fazer com sua história e como queria que ela fosse fotografada e mostrada na tela. Assim como a Edição, que trabalhou bem para entregar o que Garland imaginou, com um destaque especial para a colorização de algumas cenas. Há um bom uso de efeitos aqui, tanto especiais quanto visuais, especialmente no final do filme. Não vou falar muito mais sobre o final, mas o que é mostrado em tela é pra lá de inventivo e surreal, a equipe de efeitos conseguiu entregar um resultado incrivelmente consistente e polido.

Um dos muitos personagens de Rory Kinnear no terceiro ato de “Men”. © A24

Ao citar todas aquelas metáforas de parágrafos atrás, e as imprecisas “coisas estranhas acontecendo” que soltei durante o texto, não estou querendo fazer parecer que a criação de Alex Garland é tematicamente mais profunda do que as poucas características que comentei, ou até mesmo mais profunda do que o próprio trailer possa sugerir. Na verdade, pode ser que eu esteja dizendo exatamente o oposto. Disse no início da crítica que não tinha certeza se havia gostado ou não do filme. Então agora a conclusão será composta de uma espécie de tentativa de conciliação entre minhas opiniões conflitantes (será que todas as minhas críticas serão assim?). 

Não há muito mais, aparentemente, para se tirar como conclusão do filme, do que o (até transformado em meme recentemente) “men bad” (homens são ruins). E agora chegou o momento de comentar mais sobre o final do filme (calma, ainda sem spoilers). Houve controvérsias, polêmicas e divisões tanto entre o público como com a crítica especializada após as exibições de Men (se duvida, abra a página dele no letterboxd). O terceiro ato deste filme é uma loucura absoluta. Se até então estávamos observando um suspense intimista, ou até mesmo um estudo sutil sobre luto e trauma, os últimos vinte minutos decidem entrar com os dois pés na porta do gênero horror. Há cenas de violência, de perseguição, cenas com um body horror (terror corporal) muito gráfico e enervante, tudo envolto em uma simbologia maior, como uma metáfora com o corpo (humano?). Não chega a ser tão “maluco” quanto Under The Skin, mas achei que conseguiu chegar perto. Imagino que deva ser difícil de imaginar o quê exatamente é mostrado, e por isso espero que todos consigam ver com seus próprios olhos o mais rápido possível (preferivelmente com uma audiência, este filme fica muito mais interessante sendo uma experiência coletiva). 

Não pude deixar de fazer uma pequena comparação involuntária com o final de Mother!, do Darren Aronofsky também. Acredito que Mãe! foi mais bem sucedido em transmitir sua mensagem por meio do horror psicológico, além de trabalhar melhor com a simbologia, mas também foi outro filme que gerou muita polêmica na época de seu lançamento, especialmente por seus pesados minutos finais, algo que se repete no filme da A24. Neste o final é de certa forma deixado em aberto, mas um dos personagens acaba explicando tudo aquilo que se passou nas últimas cenas e o porquê (apesar de não tão explicitamente, mas fica bem claro.) E é aí que sinto uma das principais fraquezas narrativas de Men, pois o horror corporal tinha criado um clima tão absurdo (ninguém na sessão da Quinzaine parecia saber como reagir), mas depois que a sequência foi encerrada, ganhamos uma espécie de resposta que poderia ter saído do nível da superfície, mas foi apenas a confirmação de uma constatação que vinha sendo feita desde os primeiros minutos da projeção.

A “fraqueza narrativa” que comentei se conecta muito também à polêmica que envolve o novo longa metragem de Alex Garland. Sei que muitos torcem o nariz para este tipo de debate, mas não dá para deixar de lado o fato de que estamos falando de um filme basicamente sobre a “cultura do estupro”, e este filme é escrito e dirigido por um homem. Eu, como escritor, sou do time da liberdade criativa. Não acho certo censurar qualquer tipo de expressão artística vinda de qualquer tipo de pessoa (claro que existem exceções, vocês sabem), mas também acho muita ingenuidade querer acreditar que uma obra de arte não possui relação com o ambiente e a sociedade na qual está envolvida. Que esta pode ser simplesmente retirada de contexto, ou desassociada de seu criador. Em Men a conclusão que fica, a mensagem que o filme tenta transmitir, pelo menos para mim (mas sei que para grande parte dos espectadores também), é de que vivemos em uma cultura na qual os homens possuem comportamentos predatórios, machistas, possessivos e agressivos com mulheres, e que isso é tanto algo perpetuado por gerações como sendo aceitável e correto como também é errado e deveria acabar, conferindo às mulheres a liberdade e paz que elas merecem e vem sendo negadas desde sempre. Essa não é uma conclusão de modo algum ruim, mas é também bastante rasa. Quando pensamos em um filme como este, um terror que tem como título literalmente “Homens”, é natural esperar uma observação no mínimo mais profunda ou diferente da primeira coisa que nos vem a cabeça quando o filme começa ou mesmo quando assistimos ao trailer (“machismo é ruim”). E, apesar de o terceiro ato trazer algo bastante ousado visualmente, as metáforas continuam tendo os mesmos significados, o que para mim foi uma oportunidade perdida de adicionar algum tipo de twist ou uma nova perspectiva acerca do tema. Não estou querendo cancelar o Alex Garland, nem mesmo acho problemático o fato de que ele quis fazer um filme condenando o machismo. Só parece um tanto despropositado, e chega a ser desconfortável em alguns momentos lembrar disso, quando pensamos nos próprios diálogos que Garland escreveu para Geoffrey (frases machistas que fizeram minha audiência rir, mas sabendo o quão horrível aqueles diálogos eram). E o Diretor/Roteirista sabia o quê estava escrevendo. Quando os créditos começaram a rolar, a maioria das pessoas aplaudiram, mas algumas meninas perto de mim vaiaram, então a percepção que as pessoas, arrisco dizer, principalmente por conta do seu gênero, terão do filme, vai variar muito. Importante lembrar também que a pessoa escrevendo esta crítica é um homem, e esse fato certamente teve influência na minha percepção, nesta obra especialmente. 

Vou tentar (finalmente) concluir o texto. Recomendo sempre, ainda mais em filmes polêmicos, divisivos, que todos assistam e tirem suas próprias conclusões. Admito que eu mesmo, ao final da crítica, continuo em conflito com meus pensamentos sobre Men, então a própria nota aqui embaixo pode mudar com o tempo. Em suma, não acho que Garland esteja querendo chamar atenção para que todos vejam o quão feminista ele é, que ele não é como os outros homens e etc., mas também não acho que ele foi bem sucedido na sua tentativa de criar uma história relevante sobre o tema, que já é muito atual e relevante. Foi uma experiência interessantíssima, adorei ver a atuação poderosa de Jessie Buckley, adorei conhecer Rory Kinnear, fiquei impressionado com o terceiro ato absolutamente maluco repleto de horror corporal, mas no fim das contas acredito que a produção irá ficar marcada, ao menos para mim, além de uma decisão temática “aleatória” do Diretor, como uma oportunidade perdida de entrar mais a fundo em temas tão socialmente relevantes e trazer um novo olhar para eles através das metáforas que o terror proporciona. Sinto que talvez uma Diretora igualmente competente poderia ter aproveitado melhor essa chance…(só pra terminar com mais um pouco de polêmica hehe)

Nota: 5,8

2 respostas para “Crítica: “Men”, dirigido por Alex Garland | Cobertura Festival de Cannes 2022”.

  1. Avatar de “Pearl” lidera indicações no Chainsaw Award – A24 Brasil

    […] em qualquer um dos serviços de streamings disponíveis. Entretanto, a crítica pode ser encontrada aqui e […]

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  2. Avatar de A24 desponta entre as principais indicações ao Critics Choice Super Awards – A24 Brasil

    […] ainda não encontrou uma casa para chamar de sua, entretanto, a crítica pode ser encontrada aqui (cobertura da exibição do Festival de Cannes) e […]

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