Por Fernando Grisi
Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes, novo longa de Claire Denis é uma obra de contradições temáticas, espaciais e temporais.
Assisti a “High Life”, filme de 2018 com Robert Pattinson, um pouco antes de ir para Cannes. Percebi ali que Claire Denis é uma realizadora muito focada em sutilezas. A progressão narrativa e clareza temática não parecem ser grandes preocupações de sua filmografia. Preferindo se concentrar em contar histórias de pequenos gestos, personagens complexos e perdidos, e ações que aparentemente não levam a narrativa para algum ponto dramático expressivo e específico. A diretora entrega aqui outra experimentação que analisa as relações humanas em níveis menos perceptíveis do que aqueles geralmente captados pelo olho nu.
Baseado no livro “The Stars at Noon”, de Denis Johnson, escrito em 1986, a trama que originalmente era ambientada em 1984 foi colocada em um cenário mais atual, em meio a pandemia global de Covid-19, na Nicarágua. Encontramos Trish (Margaret Qualley, de “Era Uma Vez em Hollywood”), uma jornalista estadunidense que está presa na capital Manágua. Fica implícito que ela escreveu alguns artigos criticando o governo, que teria encoberto e até cometido crimes e outras ações antidemocráticas. Por isso, ela teve seu passaporte confiscado e seus dólares trocados por Córdobas, moeda local muito desvalorizada. Para conseguir Dólares, já que seu editor nos EUA (uma participação especial de John C. Reilly) não quer lhe dar mais artigos para escrever, nossa protagonista acaba fazendo sexo com homens por dinheiro (incluindo um oficial do governo). Uma noite, Trish encontra Daniel (Joe Alwyn, em um papel que foi pensado para Robert Pattinson), britânico que diz trabalhar para uma empresa de petróleo, mas esconde alguns segredos.

Margaret oferece seus serviços a ele, e os dois vão para a cama juntos. A partir desse momento, os dois entram em uma jornada extremamente caótica e confusa criada pelos roteiristas Claire Denis, Léa Mysius e Andrew Litvack. E o roteiro é realmente bastante incerto. Nós nunca sabemos exatamente o quê está acontecendo. Como disse no começo, Denis (e os outros roteiristas) não queriam entregar uma história coerente e com começo, meio e fim bem definidos. Nem mesmo os temas estão facilmente perceptíveis aqui. Se você precisa de pelo menos algum desses elementos para se identificar com um filme, vai ter um pouco de trabalho para encontrar algo significativo a que se prender à obra.
Disse no início da crítica que este é um filme de contradições. E isso em vários níveis. Temos uma contradição temporal e espacial, pois se a ambientação é pensada para os dias atuais e em uma cidade específica, por um lado temos caracterizações bem definidas das locações mas por outro estas não parecem importar tanto assim. Assim como o contraste entre o belo e o feio, com a câmera tentando encontrar beleza em pequenas coisas, movimentos e ações em meio a um ambiente visualmente desconvidativo. De certa forma, é como se a história aqui negasse qualquer relação com seu espaço e seu tempo, ainda que por vezes tente torná-los relevantes para a experiência.
A relação entre Trish e Daniel é também bastante peculiar e provida de suas próprias contradições. Não há grandes demonstrações de amor ou mesmo de carinho entre os dois, mas eles estão sempre transando. Em alguns momentos parece que estão perdidamente apaixonados, mas no momento seguinte pode ser que um seja rude com o outro ou planeje abandoná-lo na próxima oportunidade. Sinto que a química entre os dois atores não ajudou muito, mas para contribuir ainda mais com a confusão do filme, creio que o modo como os dois se comportam em cena foi pensado pela diretora para ser exatamente daquele jeito. O porquê permanece um enigma para mim. Qualley e Alwyn compartilham, no entanto, alguns bons momentos. Gostaria de destacar, sem dar detalhes, a cena na qual toca a música lenta que dá ao filme seu título (The Stars At Noon, dos Tindersticks), enquanto os dois dançam colados em uma boate vazia, sob uma forte luz azul.

Ainda uma contradição temática também, e o que mais me incomodou enquanto assistia ao filme no meu último dia em Cannes. A trama acontece toda na capital Nicaraguense, um país na América Latina, e temos como protagonistas uma norte-americana e um europeu. Obviamente isso não é um problema, mas sinto que Claire Denis mirou na crítica social e acabou acertando na estereotipação.
Denis, nascida em Paris mas criada na África colonial, aparentemente tem o anticolonialismo como um tema que gosta de abordar em seus filmes, criticando aqueles que praticaram ou praticam o colonialismo. No entanto, como um Latino-americano me senti bastante incomodado tanto com as representações como com o modo como os locais são tratados ao longo do filme. Nossa protagonista, por exemplo, por vezes parece simpatizar com os Nicaraguenses e sua situação precária, quase que admitindo a culpa que os Estados Unidos têm e tiveram na instauração de governos opressivos e ditatoriais em países latinos(mas não vou me alongar mais no assunto pois renderia um artigo inteiro), o quê nunca acontece. Pelo contrário, há um momento no início do longa em que Trish se vira para um local e grita algo como “Os tanques americanos vão esmagar seu país”.
A própria decisão de realocar a temporalidade da história para os dias atuais reforça uma visão de que a Nicarágua hoje se encontra da mesma maneira que há mais de 35 anos atrás. E não sou cientista político, então também não vou me aprofundar nessa questão (pode ser que a situação esteja até pior), mas acho importante enfatizar que, ao ser um produto de uma realizadora europeia que não dá espaço para um ponto de vista dos oprimidos nesta situação, colocando como protagonistas dois “colonizadores” que só querem sair o mais rápido possível do país, estão sendo reforçados estereótipos e convicções a respeito dessa cultura os quais, em pleno 2022, não esperava continuar vendo em filmes tão aclamados.

Tenho certeza que as intenções de Denis eram as melhores, e o júri de Cannes obviamente gostou muito do filme, deixando-o dividir o grande prêmio do Júri com “Close”, do Lukas Dhont. Mas eu sinceramente não senti sua posição em relação ao colonialismo aqui, e se senti algo nesse sentido foi, infelizmente, mais para me fazer achar o filme alinhado com a mentalidade colonizadora, que ainda enxerga as américas do sul e central como suas colônias.
Como mencionei antes, não consegui me conectar com o romance proposto entre os protagonistas. Há muito pouca ou quase nenhuma química, em minha opinião. Especialmente por parte de Joe Alwyn, que parece sempre no automático, quase que como um robô. Margaret Qualley está muito melhor, e assim como Men, de Alex Garland, Stars At Noon tem em sua protagonista seu melhor elemento. Qualley, apesar de não ter um arco de personagem que a permita mostrar muito crescimento dramático, faz muito bem com o material que recebeu. Suas reações, frustrações, sofrimento, pequenos prazeres, e raros momentos de euforia atravessam seu rosto com tanta intensidade e verdade que é praticamente impossível não prestar atenção nela. Como o romance em si, e nem a história de modo geral conseguiram me prender, o que me restou para tentar apreciar foram os aspectos técnicos. E não há tanto o que comentar a esse respeito. O que mais chama a atenção é a Fotografia, que busca detalhes belos em um mundo caindo aos pedaços (fisica e metaforicamente). A maneira como as cenas mais íntimas são construídas são muito boas também, mas a repetição dessas faz com que a próxima sempre perca um pouco de sua eficiência. Senti também que a edição poderia ter ajudado mais o longa-metragem, que é um pouco longo demais. Mas, claro, ele foi concebido dessa maneira por um motivo, que apesar de não saber exatamente qual é, imagino que a Diretora sabia.
A segunda metade do filme vai por um caminho diferente, acompanhando Trish e Daniel enquanto os dois tentam cruzar a fronteira para sair do país. Mas o modo como o filme decidiu contar sua história fez com que mesmo essa jornada beirasse o entediante. E entendo que o intuito foi focar na relação entre Trish e Daniel, mas não creio que foi bem sucedido nisso também, como já comentei. Neste bloco temos uma participação especial de Benny Safdie (um dos diretores de Joias Brutas), que em meio a toda confusão da obra pareceu até deslocada. Concluindo, não achei que Stars At Noon conseguiu apresentar uma visão descolonizadora de um país pobre da América Central, nem retratou uma história de amor e desejo interessante, assim como também não trouxe em sua minutagem uma narrativa de relevância temática e/ou política. E não estou impondo que o filme queria, ou precisava dizer qualquer uma dessas coisas, mas se realmente não foi o caso, então simplesmente não foi um filme com o qual consegui me conectar em nenhum nível. Ainda assim, tenho curiosidade em explorar mais o trabalho de Claire Denis.
Nota: 4,8
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