Por Julia Paes

O que você faria depois de passar por um grande trauma dentro de sua casa? A resposta para esse conflito é o que a protagonista Harper, interpretada por Jessie Buckley, procura em sua viagem para o interior da Inglaterra. Sozinha, aluga uma casa isolada, com muitos cômodos, mais do que ela precisaria. Ao chegar à residência, é recepcionada pelo proprietário Geoffrey (Rory Kinnear), um homem de aparência descuidada, com cabelo bagunçado e um sorriso bem incomum. 

O filme é dirigido e roteirizado por Alex Garland, o mesmo diretor de Ex-machina e Aniquilação. No seu terceiro filme, fica nítido o seu esforço para ser interpretado como um diretor sério, com obras mergulhadas em metáforas, mesmo que sejam rasas. Em “Men”, o diretor surfa na onda dos terrores contemporâneos, em uma abordagem pautada pelo psicológico da personagem e seus conflitos internos, conseguindo na primeira metade trazer um teor mais dramático pelo mistério da motivação da personagem com a incerteza do que encontraremos naquela propriedade.

Still de “Men” ©  A24

A experiência de horror que Harper vivencia é narrada em encontros estranhos e situações inusitadas pela propriedade. O que ajuda a construir uma atmosfera tensa durante toda a sua duração. O terror começa a ser produzido ao apresentar cenas desconfortáveis e explícitas, herança do terror físico, e personagens com aparências assustadoras.

 A fotografia é bem sucedida ao trabalhar o branco e o contraste das cores. Na casa, reflexo de suas enormes janelas, a luz entra pelos cômodos de maneira excessiva ao ser intencionalmente “mal calibrada”, o que gera um desconforto visual contribuindo para a construção de um incômodo que a personagem possa estar passando.

Pensando nas cores, duas ganham a nossa atenção, o vermelho e o verde. Tornam o contraste ainda mais acentuado em cena por serem cores opostas. Popular por ser usado como símbolo de violência e poder, o vermelho estampa o interior da casa onde Harper se hospeda, o que funciona como um sinal de alerta para os acontecimentos que se desenrolam ali. Em contrapartida, o verde preenche maior tempo de tela, com vastos campos, de uma tonalidade exuberante. A todo tempo, temos a natureza representando o recomeço que Harper busca. 

Still de “Men” ©  A24

O final do filme consegue juntar todas as pontas que ainda estavam em aberto, entretanto ainda não é o suficiente. O terceiro ato, de longe a parte mais polêmica de todo o filme, deixa com um gosto meio amargo na boca; principalmente pelo começo ter sido bem construído. A busca do choque pelo choque, através do uso explícito do horror corporal, me parece vazia ao não conseguir tratar com a profundidade que merece o tema principal.

A protagonista é superficialmente trabalhada, não sabemos seus interesses, muito menos suas ambições. Conhecemos Harper a partir da violência desencadeada de uma discussão dela com seu ex-marido, e então, toda a sua existência é pautada nesse fato. No que mais parece um ativismo de fachada, Garland tenta construir alegorias e reviravoltas surpreendentes para dizer que todos os homens são maus, criados de um eterno ciclo de violência. Apesar de ser um tema discutido com frequência, a forma na qual ele decide desenvolver soa inapropriado para sua posição.

Nota: 4,0

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2 respostas para “Crítica “Men”: Faces do medo”.

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