Em uma ficção científica fruto da modernidade tecnológica em que vivemos, a relação entre os humanos e a tecnologia é trazida sob uma nova ótica. Numa perspectiva livre de julgamentos para o uso de aparelhos tecnológicos e androides em nosso cotidiano, presenciamos a história de uma família, em um futuro que a adoção de robôs humanoides é permitida. 

“A vida depois de Yang”, adaptada de um conto de Alexander Weinstein e dirigida e roteirizada por Konogada, tem sua história ancorada na relação delicada entre Mika, uma criança chinesa, adotada por pais estrangeiros e ausentes (Colin Farrel e Jodie Turner-Smith). Na busca por uma referência cultural para sua filha, adotam Yang (Justin H. Min), um “tecnosapiens” para assumir o posto de irmão mais velho. 

O filme começa com a cena dos personagens tirando uma foto em família no jardim de casa. Em um enquadramento peculiar, cortando parte do rosto dos personagens, temos o foco na garotinha, Mika, e entende-se que ela será o ponto de partida para a obra. A importância que o androide passa a ter na vida dela se torna maior que o esperado, por consequência da ausência dos pais em casa.

Still de “A vida depois de Yang”. ©A24

O desenrolar da história se inicia justamente quando Yang apresenta problemas em seu funcionamento e desliga repentinamente. O luto que a família passa é trabalhado principalmente pelo silêncio que se carrega nas cenas. A partir da solidão transpassada pelos silêncios, fica explícito como o androide era o ponto de união entre os integrantes da família. Apesar dos momentos de quietude serem cortados pela ambientação sonora, que serve como um realçador da solidão, é pensada bem o suficiente para que a sensação de exílio em que vivem em casa continue no decorrer das cenas. 

Durante todo o longa, o diretor Konogada, ao trabalhar de maneira exemplar os espaços em que os atores se movimentam, traduz com sucesso a profunda solidão que a família vive. Ao utilizar câmeras fixas posicionadas com distância dos atores mostrando grandes espaços dos cômodos, vemos os cenários engrandecerem, tornando os integrantes da cena ainda mais distantes – não apenas fisicamente. Fica evidente a relação desajustada dos personagens, e assim, é nítido o desconforto deles como “família”.

Still de “A vida depois de Yang”. ©A24

Na tentativa de lidar com a batalha emocional da perda de seu filho adotivo, Jake inicia sua jornada para religá-lo. Em uma de suas paradas, o pai descobre que Yang era parte de uma pesquisa para que se entendesse melhor o que era importante para os tecnosapiens, ao guardar segundos de “memórias” todos os dias. Buscando entender mais sobre o robô, Jake passa a conhecer com outros olhos a sua família.

O paradoxo do filme se monta no momento em que Jake mergulha no universo de memórias guardadas por Yang. As cenas calorosas com a família observadas pelo robô, são capazes de mudar a forma como eles se relacionam. A foto que aparece no começo tirada no jardim, agora aparece em um novo ângulo, em que todos estão no centro. Algo mudou. Talvez a dinâmica deles tenha um novo funcionamento. Talvez a partida de Yang tenha tido um efeito catalisador para a aproximação da Jake, Myra e Mika. Como dito pelo Yang, às vezes, alguns fins são começos.

“A vida depois de Yang” é uma bonita reflexão sobre como nos relacionamos com a vida e a perda nos dias atuais, onde a vivência do agora é frequentemente banalizada. Com uma temática de muita identificação com a contemporaneidade, e a nossa inserção em um mundo onde é sempre preciso produzir para garantir o bem estar – mas que nem sempre é possível usufruir do que é conquistado; somado ao fato da falsa certeza que construímos, de que teremos as pessoas que amamos sempre próximas. Todo esse conflito, que é sabido por todos, mas pouco lembrado diariamente, é trazido de uma maneira diferente do clichê por Konogada, porém com essa mensagem sempre válida de valorizarmos e vivermos o presente e quem está nele conosco.

Nota: 7,5

Uma resposta para “Crítica “A vida depois de Yang” (After Yang): A humanização da tecnologia”.

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