Por Matheus Britto

A sobreposição das imagens que resgatamos dos cantos mais profundos de nossas memórias pode nos dizer muito mais do que quaisquer palavras que possam ser unificadas na formação de uma sentença. Do problema com o qual Sophie (Frankie Corio) e Calum (Paul Mescal) precisam lidar após chegarem a pousada e perceberem que estão em um quarto que possui somente uma cama ao primeiro beijo da garota, fruto de um romance passageiro vivido durante aquele verão de intensas emoções, Charlotte Wells desenterra um baú que esteve há muito tempo guardado, conservando aquelas que estão entre as suas lembranças mais preciosas dos momentos que viveu ao lado de seu pai, e expõem o que encontra para o público, convertendo um conto de amadurecimento tão íntimo e tradicional quanto “Aftersun” em um exercício reflexivo quanto aos sacrifícios com os quais nossos pais precisam conviver durante o processo de criação e como nem toda doçura do passado pode esconder eternamente os dilemas que éramos incapazes de reconhecer na época.

A memória tem um papel significativo no imaginário popular, afinal de contas é através dela que se torna possível transformar o passado novamente em presente, mesmo que por breves instantes. Tal qual um processo de rememoração, que busca por compreensão ou complemento no processamento da própria identidade, Wells lida de maneira descompromissada com a linearidade da história que está contando. O retorno àquele período específico em meados dos anos 90 ocorre através da lente de uma Sophie que já está vivendo as próprias experiências da fase adulta, casada e com um bebê para cuidar. Entrecortando muitos momentos do passado com outros tantos no presente, a diretora detalha os acontecimentos que ocorreram durante um feriado na Turquia, pouco antes da volta as aulas, tendo de um lado Calum sufocando os próprios problemas para mantê-los escondidos e do outro uma criança curiosa com o mundo ao seu redor, começando a dar os seus primeiros passos em direção à adolescência.

Frankie Corio e Paul Mescal em “Aftersun”. ©A24

O tempo percorrido para despir por completo aquela armadura criada entorno de nossos pais é longo, podendo até se tornar um tanto quanto doloroso. Os conselhos sobre como lidar com as consequências do primeiro amor, ter cuidado ao sair com os amigos para uma festa que tende a virar a madrugada, e aquele tom de “sabe-tudo-sobre-a-vida” podem até contribuir nesta camuflagem da verdade, contudo é fato que existem pessoas tão humanas quanto nós mesmos, que sofrem, são falhas, e que, como o próprio Calum em diversos momentos, não sabem se estão fazendo o certo por aqueles que amam incondicionalmente, apenas o fazem, conscientes de que futuramente terão que lidar com o peso dos próprios sacrifícios. Tome Sophie como um exemplo, foi necessário que amadurecesse e experimentasse parte das dificuldades de ser uma adulta para então olhar para trás, concentrando-se em um ponto que a permitisse se questionar sobre seu próprio pai.

“Aftersun” se debruça, então, nos detalhes que podem ser capturados durante aquela dinâmica entre um pai e sua filha. São os pequenos gestos que podem revelar os maiores segredos daquela relação: são as palavras que deixam de serem pronunciadas durante uma conversa aparentemente banal, a tristeza momentânea diante de uma recusa inesperada, a tentativa de esconder o incômodo em relação a uma surpresa bem-intencionada. Há uma inquietação constantemente percorrendo o longa, da primeira à última cena; para o personagem de Paul Mescal, isso ocorre devido a amarga consciência que o assombra quanto ao fato do tempo estar passando mais rápido do que pode controlar, e para a de Corio, fruto de uma necessidade de firmar a si mesma como uma adulta, ou possivelmente como o mais próximo disso que uma criança de sua idade pode compreender como sendo alguém que assume responsabilidades e é hábil em entender a linguagem que a cerca, que pode conversar com os que estão ao seu redor de igual para igual, como parte daquele círculo.

Frankie Corio e Paul Mescal em “Aftersun”. ©A24

Enquanto resgata as próprias memórias para convertê-las na tela e captura os sentimentos daquela relação através do registro da imagem, aliada a paleta de Gregory Oke, cheia de cores suaves e típicas de um verão passado em um local paradisíaco como Torremolinos, Wells também valoriza os dois principais nomes de seu elenco. Enquanto Mescal carrega as dores de uma vida adulta confusa e cheia de altos e baixos, Corio esbanja a inocência de uma criança que está na casa dos 11 anos e nutre a curiosidade natural do processo de amadurecimento, e ambos complementam um quadro único e sensível, estabelecendo uma relação cheia de camadas, consciente da miríade de sentimentos que compõem as experiências entre pai e filha. O que poderia soar como sendo inevitavelmente banal ou até mesmo artificial é transformado através de um olhar que sabe bem o que deve capturar e como deve fazê-lo sem correr o risco de parecer idealizado até demais, cultivando e conservando o realismo que uma abordagem como esta demanda.

Em “Aftersun”, Charlotte Wells não está buscando pelo perdão do próprio pai, como se de repente tomasse consciência de que foi uma criança que nunca soube reconhecer os problemas pelos quais ele estava passando. Longe disso, na verdade. Assim como Sophie, ela também está na vida adulta, conhecendo os dilemas e conflitos que normalmente permeiam este universo cheio de responsabilidades, e agora reconhece os sacrifícios que foram feitos por seu Calum, o agradecendo por isso através de uma carta de amor que demonstra que nada foi feito em vão e que chegou o momento de ela retribuir todo aquele cuidado que foi direcionado durante toda sua criação. Nossos pais não estarão para sempre em nosso convívio, então por que não sentar-se junto a eles em uma tarde qualquer, estando de fato igual para igual, e simplesmente conversar, revivendo os velhos tempos?

Nota: 10

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2 respostas para “Crítica “Aftersun”: um conto sobre as dores da mudança”.

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