Por mais estranho que possa soar em um primeiro momento, o impacto da pandemia de COVID-19 na indústria cinematográfica foi um dos grandes responsáveis para que “Pearl”, prequel do slasher “X – A Marca da Morte”, recebesse sinal verde para ser produzido. De acordo com Ti West, que dirigiu os dois longas e retornará para encerrar a trilogia com “MaXXXine”, a história foi desenvolvida partindo de uma colaboração ao lado de Mia Goth (Pearl) e sua produção iniciada imediatamente após as filmagens do filme anterior terem sido encerradas. Se o agora filme do meio, ambientado em meados da década de 1970 e com inspirações em proto-slashers e slashers propriamente dito, era sobre a ascensão de produções do cinema independente norte-americano, esta nova entrada, ao regressar para Era de Ouro de Hollywood, resgata elementos de melodramas a lá Douglas Sirk para abordar a feiura que aqueles desesperados pelo estrelato tanto escondem.

Em 1918, enquanto muitos soldados sonhavam com a tão aguardada saída dos fronts da Grande Guerra que estava ocorrendo nos países europeus, Pearl sonhava com a possibilidade de escapar da vida sufocante que levava ao lado da mãe autoritária e do pai severamente debilitado em uma fazenda no interior do Texas. Para uma jovem com tantos sonhos a serem conquistados, e febrilmente incentivada pela espetacularização colorida de uma Hollywood que continuava crescendo, a juventude parecia estar lhe escapando lentamente por entre os dedos enquanto permanecia presa à uma rotina monótona naquela paisagem bucólica e aparentemente acolhedora, mas que ao mesmo tempo demonstrava ser extremamente claustrofóbica. Neste retorno a origem da vilã criada por Ti West, embora estejam inconscientes desta questão durante a maior parte do tempo, tudo e todos estão morrendo além da superfície imediatamente visível, consumidos por uma morte que sufoca o sonhar com um futuro melhor.

Pearl não está só morrendo, como os seus pais ou as vítimas que fará futuramente, tanto neste filme quanto em “X – A Marca da Morte”. Há algo profundamente errado com esta fazendeira que sonha em ser uma grande estrela como aquelas que acompanha durante suas breves escapadas para uma sessão no cinema local, ela, entretanto, não parece compreender muito bem o porquê, e muito menos tenta explicar o fato de que empalou um ganso inocente para alimentar sua única ou que esmagou um ovo com uma provável vida em formação dentro enquanto imaginava que fosse Howard retornando da Guerra. Ela quer ser famosa a qualquer custo, mas é claro que isso precisa acontecer sem que as pessoas reconheçam e passem a temer seu verdadeiro eu. É partindo desta ideia que Mia Goth retira uma atuação inicialmente inofensiva que aos poucos se desenrola em um rompante assustador encerrado com um sorriso de falsa felicidade e um olhar marejado de lágrima e dor.

Mia Goth em “Pearl”. ©A24

Com inspirações que partem dos clássicos do cineasta alemão Douglas Sirk e vão até os do britânico Michael Powell, a narrativa de Pearl adota o formato de um melodrama que parece ter sido encontrado após um bom tempo perdido e enviado diretamente para uma sala de restauração. Em contraposição a “X (2022)”, que focava em estabelecer uma atmosfera antes de iniciar o massacre, West reconhece o poder da imagem no desenvolver de uma história e, portanto, abdica de qualquer compromisso que possa ter com a parcela tradicional de um slasher contemporâneo para assumir a pura faceta de um dramalhão excessivamente colorido sobre sonhos oprimidos, o desespero em alcançar o estrelato, e com números musicais que espelham as perturbações psicológicas da protagonista. Durante sua audição, Pearl está tão ocupada enxergando a Grande Guerra como uma saída do bucólico que a romanceia, em parte por nunca a ter vivenciado, sem se dar conta de seus horrores.

Como Judy Garland em “O Mágico de Oz”, que inicia sua aventura questionando a si mesma sobre a existência de “um lugar onde não existem problemas”, Pearl está sempre sonhando com a possibilidade de conhecer novos lugares. Contudo, diferente do que aconteceu com Dorothy após sua chegada à encantadora Terra de Oz, não há ninguém que possa salvá-la deste pesadelo em Technicolor que a assombra através desta fazenda, com um interior que, tal qual os de seus ocupantes, é sufocante e está em ruínas. Sem um espantalho ou um leão covarde para protegê-la da maldade humana, ela está cercada por pessoas como sua mãe, que a humilham diante do mínimo sinal de uma possível desobediência para seguir suas ordens, e Mitsy, cujas falsas reações de compreensão escondem uma visão que a considera somente como um projeto particular de caridade de cidade pequena. Em um confinamento como esse, nem mesmo o desejo mais profundo de alcançar o estrelato é capaz de esconder um lado assassino.

Na verdade, são as pequenas situações que levam à um imediato agravamento do estado emocional de Pearl e consequentemente aos ataques. Dado ao número limitado de personagens que estão compartilhando espaço com Goth, West é econômico quanto ao posicionamento dos assassinatos no decorrer da narrativa. O cineasta os calcula de modo a posicioná-los em questão de capturar o melhor choque que possa ser provocado, tanto pelo tom inevitável de uma comédia involuntária de humor ácido quanto pelo vermelho exagerado do sangue derramado dos ferimentos abertos por objetos cortantes, uma herança da utilização do Technicolor, ou pela brutalidade dos movimentos de câmera e da edição. Os assassinatos são filmados de modo realista, porém desta vez, o que importa não é o quão realista este jorrar de sangue parecerá, mas sim o quão artificial. É a tinta intensificada conforme acompanhamos as transformações daquele rosto doce e inocente.

Mia Goth em “Pearl”. ©A24

Em “Pearl”, o isolamento assombra esta família como uma condição transmissível. Naquela fazenda, temos: um pai confinado à uma existência que não escolheu para si, condenado à uma cadeira de rodas; uma mãe, isolada, temendo que a vizinhança descubra sua descendência alemã; e por último, uma filha, tão oprimida pela própria progenitora que encontra refúgio apenas em sua mente, um espaço que descobrimos aos poucos ser tão frágil e perigoso quanto qualquer situação e vinculação que ela tenha que lidar durante seus dias monótonos e suas idas à cidade ao lado. Tão facilmente manipulada pelo poder da imagem, principalmente por aqueles que sabem como manuseá-la, como é o caso do projecionista do cinema local, Pearl transita da inocência e doçura de uma camponesa que está tentando sobreviver a severidade da vida enquanto busca pelo estrelato para uma mulher rancorosa que tenta esconder este lado mortal para que possa ser uma grande estrela.

Assustadoramente doce e colorido como os melhores melodramas também eram durante a Era de Ouro de Hollywood, em “Pearl”, é como se Ti West remexesse a memória que o público mantém de clássicos como “O Mágico de Oz” e “Mary Poppins” e se esforçasse para criar um espaço para subversão deste carinho nostálgico em demonstrações aterrorizantes e vulgarizadas, mais próximas da realidade brutal daqueles desesperados para conquistarem os seus sonhos e escaparem de seus isolamentos, tanto interiores quanto exteriores. Nem sempre é fácil acreditar nos delírios e explosões sentimentais de Pearl ao longo desta jornada excessivamente colorida, uma vez que esta execução demonstra instabilidades o bastante ao ponto de soar como uma comédia involuntária, entretanto, as sequências mais claustrofóbicas e os assassinatos estimulam quanto a convencer a não perder um segundo. Das paisagens bucólicas do interior do Texas em 1918 ao resgate do excesso de cores que segue o padrão Technicolor, é interessante ver West aproveitando cada oportunidade para explorar estilos e gêneros no terror.

NOTA: 8,0

3 respostas para “Crítica “Pearl”: os horrores da Era de Ouro do cinema”.

  1. Avatar de “Pearl” lidera indicações no Chainsaw Award – A24 Brasil

    […] “X” está disponível para assinantes da Prime Video e a crítica pode ser encontrada aqui. Do mesmo diretor, “Pearl” chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 09 de Fevereiro e a crítica pode ser encontrada aqui. […]

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  2. Avatar de A24 desponta entre as principais indicações ao Critics Choice Super Awards – A24 Brasil

    […] “X”, primeiro longa da trilogia slasher de Ti West, também está disponível para assinantes da Prime Video e a crítica pode ser encontrada aqui. Já Pearl, prequel que conta a história da assassina que acompanhamos no primeiro filme, está em cartaz nos cinemas em todo Brasil e a crítica pode ser encontrada aqui. […]

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  3. Avatar de Mia Goth e Halsey em primeira imagem oficial de “MaXXXine” – A24 Brasil

    […] Para saber o que achamos de “X – A Marca da Morte”, confira nossa crítica aqui. E de “Pearl” aqui. […]

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