Tal qual costuma acontecer com uma droga ilícita quando esta caí nas mãos de adolescentes imprudentes durante uma festa que está acontecendo em um sábado à noite, longe da supervisão dos pais, a mão morta, que permite contato com o que quer que esteja do outro lado deste véu que separa o mundo dos vivos do das almas que permanecem em um limbo, tem passado de pessoa em pessoa. É a sensação do momento naquele subúrbio australiano. Em “Fale Comigo”, não basta escutar o que aconteceu com outro alguém durante aquele contato de breves 90 segundos ou, mais precisamente, acompanhar sua reação em um dos muitos vídeos publicados na timeline de uma rede social, é necessário sentir que é parte deste êxtase.

Em contraposição a um “Morte. Morte. Morte”, de Halina Reijn, que satirizava a alienação da Geração Z, este primeiro longa de Michael e Danny Philippou é uma leitura pessimista da adolescência atual, despropositada quanto a buscar por um futuro porque tem estado parada por tempo o suficiente diante de um abismo que passou a encarar de volta. Filmados em situações nas quais os flashes dos smartphones são similares aos olhares de milhares de curiosos que prendem a respiração enquanto esperam pelo que acontecerá em seguida para que possam registrar, os adolescentes da dupla RackaRacka lembram aqueles que foram dirigidos por David Robert Mitchell em “Corrente do Mal”, perseguidos e ameaçados pelo sexo.

Inconscientes de que estão parados em frente ao vazio desta não-existência, este quase galanteio para com a morte personificada nestes seres que passam a possuí-los com uma frequência assustadora soa como a primeira oportunidade em muito tempo destes adolescentes entrarem em contato com um mundo que passaram a ter como desconhecido. Isto é, o das experiências em conjunto, o do calor das emoções. Aquela festa, que durará cerca de uma ou duas horas, é o suficiente para que possam esquecer o que os tem preocupado, o peso que os tem sobrecarregado, e sentirem que finalmente estão próximos do que parecia ser tão simples no passado.  

A emoção de não escutar um conselho dos pais para então escapar em meio a calada da noite e viver uma aventura ao lado dos amigos não existe para Mia (Sophie Wilde) que, no momento em que a conhecemos, continua lutando para lidar com o falecimento de sua mãe, ocorrido há cerca de um ano. E não há nada com o que Sue (Miranda Otto), única responsável que aparece vez ou outra, tenha que se preocupar em relação ao namoro de sua filha, Jade (Alexandra Jensen), com Daniel (Otis Dhanji), eles estão tão longe de fazerem sexo quanto de demonstrarem publicamente qualquer forma do afeto que sentem um para com o outro, embora seus colegas de classe tenham conhecimento da relação.

Mão morta de “Fale Comigo”. ©Diamond Films

Os clichês de uma narrativa sobre entrar em contato com os mortos deixam os casarões mal-assombrados e as festas do pijama encerradas de modo inesperado após uma sessão ao redor de um tabuleiro de ouija encontrado no porão da casa, e adentram o subúrbio australiano, apropriados por esta ideia de curtição para uma festa. Com as possessões demoníacas durando breves 90 segundos, ninguém acredita na possibilidade de que a situação possa sair do controle. Essa é uma percepção que muda, no entanto, quando Riley (Joe Bird), irmão mais novo de Jade, é hospitalizado após um acidente sério o bastante para forçá-los a despertar deste estado de embriaguez induzido pela mão.

A dupla que assina o roteiro, Danny Philippou e Bill Hinzman, não está preocupada em oferecer uma explicação quanto a existência daquela mão. Alguns especulam que ela pertenceu a um vidente, e que seu outro par está perdido. Outros não dão a mínima para uma resposta para esta pergunta, feita vez ou outra antes da “viagem” começar. Ela apenas existe, como aconteceu com a estatueta de Pazuzu em “O Exorcista (1973)”, de William Friedkin, ou qualquer outro objeto sobrenatural, fundamental nesta representação de um embate entre o maligno e dores reais como luto. É parte de um clichê que queremos, e abraçamos de modo imediato, para mergulharmos no “barato” de “Fale Comigo”.

O problema é que após a primeira hora parte deste barato começa a amargar. A jornada de Sophie assume uma rota que dá prioridade ao drama, inserindo os clichês do gênero do qual esta narrativa se apropriou em um segundo plano. Há uma protagonista assombrada por sua obsessão em estar em contato com a mão, principalmente porque esta lhe permite falar com sua mãe, mas há também uma protagonista em maior destaque que está sendo lentamente corroída pela culpa quanto ao acidente que Riley sofreu e que está tentando resolver um problema pouco aprofundado de incomunicabilidade que desenvolveu juntamente com seu pai logo após o falecimento de sua mãe.

A dupla RackaRacka demonstra o entusiasmo comum a muitos diretores quando estão trabalhando pela primeira vez na direção de um longa-metragem. Ou seja, estar próximo de muitas ideias a serem desenvolvidas. “Fale Comigo” incorpora parte dos clichês das possessões demoníacas para que possa dar ênfase ao que é este “barato” pelo qual estes personagens estão passando quando estão em contato com a mão morta, no entanto, seja na cena em que o ser possuindo Daniel expressa os desejos sexuais do rapaz ou quando Riley está sendo ameaçado, surge uma certa hesitação quanto a permitir que estes demônios assumam a dianteira dentro de uma narrativa de terror.

“Fale Comigo” é um terror bacana, o que, por vezes, pode ser o bastante quando estamos buscando por uma opção de entretenimento passageiro para uma noite de sábado. Está sendo lançado, é claro, sem estar completamente ileso dos últimos sintomas do que foi aquela fase de um suposto pós-terror, e isso está refletido na forma como seus realizadores escolheram lidar com o drama da protagonista para com aqueles que estão ao seu redor. Isso, entretanto, não o torna um total refém, uma vez que os clichês são arquitetados, durante a primeira hora, por uma dupla que não esnoba o gênero.

Nota: 7,0

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Uma resposta para “Crítica “Fale Comigo”: o pessimismo na adolescência”.

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    […] O filme estreia nos cinemas brasileiros no dia 17 de agosto e nós já temos a crítica disponível aqui. […]

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