Por Fernando Grisi
Há aproximadamente um ano eu passava por uma daquelas listas no Letterboxd que continha os próximos lançamentos da A24, e um dos títulos mais intrigantes era “Fucking Identical Twins” (algo como “Gêmeos Idênticos pra Caralho”), e tudo que se sabia era que seria uma espécie de releitura cômica do clássico “Operação Cupido”.
Muito tempo se passou desde que este filme foi anunciado, e já estava começando a esquecer de sua existência, até que o trailer para um filme chamado “Dicks: The Musical” foi lançado pela A24, e no meio do trailer os protagonistas dizem “we’re fucking identical twins”. Foi aí que entendi que o filme estava pronto, que o título havia sido trocado e que seria na verdade um musical.
Eu adoro filmes musicais. Sei que é um gênero muito do “ame ou odeie”, mas quem não estaria animado para o primeiro filme musical produzido pela A24?

“Dicks: The Musical” me agradou profundamente. Não somente por ser um musical, mas por ser absolutamente bizarro e levar essa premissa até o fim. Fiquei com uma certa má fama entre a equipe da A24 Brasil por ter sido a pessoa entre nós que menos gostou de “Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo”. Pra mim o longa vencedor do último Oscar peca por apresentar uma premissa muito inovadora, mas que traz uma resolução que, na minha opinião, foi conservadora demais. Já em “Dicks” o absurdo das situações é considerado como justamente um absurdo, sem querer ser levado a sério. Isso faz com que ao invés de acharmos a história boba, vulgar ou ofensiva, conseguimos ter uma experiência extremamente engraçada.
O roteiro na verdade foi adaptado de uma peça “off-broadway” criada pelos dois atores principais. Na história, Craig e Trevor vão trabalhar na mesma empresa, e acabam descobrindo que na verdade são irmãos gêmeos, e que seus pais os separaram no nascimento. A partir daí, decidem dar uma de Lindsay Lohan e Lindsay Lohan em operação cupido e tentar reunir seus pais para que possam ser uma família de verdade. É claro que esta tarefa será ainda mais difícil do que no filme da Disney, e com muito mais humor ácido incrivelmente polêmico e situações pra lá de absurdas que chegam a entrar no território da ficção científica.
Os gêmeos são pessoas horríveis (óbvio, são héteros, e como o próprio cartão no início do filme informa, interpretar héteros sendo gays “requer muita coragem” e “nunca foi feito antes”.) Os dois são misóginos, metidos, preconceituosos e grosseiros. No entanto, não precisamos que eles sejam personagens bondosos ou mesmo relacionáveis para que a história funcione. Os próprios números musicais não são exatamente bem elaborados ou bem coreografados, e nem mesmo filmados de uma maneira particularmente interessante (aliás, o filme todo nos dá uma sensação de plasticidade com a fotografia e direção de arte, as locações são perceptivelmente estúdios, e o longa abraça essa característica), mas o foco são as letras completamente nonsense, que não têm receio de entrar no território da ofensa, autorreferência e, como já repetido várias vezes, bizarrice total.

Na sua jornada para reconectar seus pais, não nos importa tanto como os irmãos irão terminar esta jornada, até porque isso já sabemos desde o início, ainda mais se conhecemos o filme “original”. Não, o importante aqui é o roteiro ter seu espaço para jogar piadas escatológicas, ofensivas e que ainda assim funcionam perfeitamente, fazendo com que este seja provavelmente o filme mais engraçado que a A24 já produziu/distribuiu. Ainda assim, o musical não é desprovido de emoção. Mas o que achei brilhante foi o fato de que, diferente do que até mesmo outros musicais parecem querer fazer, as músicas não existem para aumentar o valor emocional da história e seus riscos, mas a história aqui está à serviço dos números musicais e das piadas. Assim, todos os esforços da equipe foram voltados para a nossa diversão, sem que coisas como um roteiro elaborado ou inovações técnicas “ficassem no caminho”, por assim dizer, e o permite ir até o limite do aceitável em termos de polêmicas. E a diversão é realmente garantida!
Sempre acho complicado dar nota para filmes, e na maioria das vezes nem é algo que gosto de fazer, mas aqui me encontro em uma situação ainda mais complexa, pois o que faz esta obra ser odiável para alguns serão as mesmas características que a farão ser amada por outros. Pessoalmente, me diverti muito enquanto assistia, mesmo sabendo que não seria o tipo de filme que me faria ficar pensando sobre ele por dias, e tudo bem. Sua proposta é perfeitamente cumprida durante sua rodagem. Minha nota aqui é extremamente pessoal, e recomendo que cada um faça uma avaliação se este é o tipo de experiência que gostaria de ter. Como sempre, minha recomendação é que todos assistam e tirem suas próprias conclusões, mas provavelmente este será um filme relativamente fácil de identificar, pela sinopse, trailer ou por esta crítica, se será um filme “para você” ou não.
“Dicks: The Musical” estreia dia 29 de setembro na América do Norte. Infelizmente, este parece ser o tipo de filme que nunca verá a luz do dia em um mercado como o brasileiro. Nos resta torcer para que alguma distribuidora enxergue seu potencial e apresente aos brasileiros o maravilhoso mundo de “Pintos: o Musical”!
Nota: 9,0

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