Por Fernando Grisi

Em 2022, Kristofer Borgli estreava seu primeiro longa metragem no Festival de Cannes. “Sick Of Myself” contava a história de uma mulher que, cansada de sua vida banal, decidiu tomar uma ação drástica para que todos ao seu redor começassem a prestar atenção nela.

Produzido por Ari Aster (“Hereditário”, “Midsommar”, “Beau Tem Medo”), o diretor norueguês agora apresentou no Festival de Toronto seu primeiro longa metragem falado em inglês, “Dream Scenario”, estrelado por ninguém menos que Nicolas Cage.

“Dream Scenario” irá trazer temas até bastante parecidos com os do longa anterior de Borgli (que aliás, recomendo fortemente). A ideia de explorar a fama, e especialmente como a fama adquirida por um meio não convencional pode trazer à tona comportamentos e sentimentos desagradáveis antes escondidos pelos personagens é particularmente fascinante.

Nicolas Cage em “Dream Scenario”. ©A24

Paul Matthews é um professor universitário que leva uma vida bastante simples, monótona. Tem vontade de escrever um livro um dia, mas não é como se estivesse perseguindo este sonho ativamente. Tem uma esposa e duas filhas com as quais mantém uma boa relação, mas com uma certa distância emocional.

Pareceria, então, muito curioso que Paul fosse a pessoa que passaria a aparecer nos sonhos de milhares, senão milhões de pessoas ao redor do mundo. Inclusive, curioso também é o fato de que, inicialmente, Paul não fazia absolutamente nada nesses sonhos, apenas ficava parado em um canto, ou passava andando com o olhar vazio independente de quão absurdas fossem as situações dos sonhos.

Tal passividade nos sonhos reflete de certa forma a personalidade do personagem interpretado por Cage na “vida real”. Não é exatamente uma personalidade pré disposta para a fama, para o viral. E ainda assim, da noite para o dia, todas as pessoas passam a conhecer o rosto de Paul Matthews.

Nicolas Cage e Julianne Nicholson em “Dream Scenario”. ©A24

É claro que a premissa absurda é apenas o ponto de partida para uma jornada mais profunda e reflexiva acerca dos temas levantados pelo roteiro. Pois, com a fama repentina, Paul, que nunca foi do tipo que gosta de atenção (ou ao menos era assim que se portava e se deixava ser percebido) vê uma oportunidade de se promover. No entanto, se vê em uma posição complicada, já que sua vontade é se aproveitar do reconhecimento para tentar publicar seu livro, mas todas as oportunidades que lhe são oferecidas têm muito mais relação com mostrar seu rosto, fazer propagandas, já que é justamente seu rosto inexpressivo que está na mente de milhões de pessoas.

Como sempre, não vou estragar a experiência com spoilers (apesar de estar doido para comentar sobre este em detalhes), mas o que se segue é uma narrativa repleta de humor seco e situações desconfortáveis, na qual Nicolas Cage entrega um personagem entrando cada vez mais em uma espiral de gostar e até querer ser o centro das atenções, utilizando de sua fama peculiar. Contudo, há uma inversão muito bem construída no tabuleiro do jogo da vida dos personagens, especialmente de Paul. As regras mudam, e o que antes era visto como uma benção, uma oportunidade de crescimento pessoal e social, se torna uma maldição, um fardo e algo para o qual ninguém tem as ferramentas certas para lidar. Isso resulta em um terceiro ato que traz uma visão diferente a respeito da trama que vinha sendo construída até então, mas sem fugir de sua proposta, e um final muito satisfatório que amarra todos os temas que a obra se propõs a tratar.

O estilo de direção me lembrou um pouco o do próprio Ari Aster, o que é engraçado de se pensar ao lembrar que este foi produtor do longa. Kristoffer Borgli mostra que tem completo entendimento sobre a arte de contar histórias com imagens em movimento. Todos os aspectos cinematográficos aqui estão funcionando em sua máxima capacidade para servir ao universo único imaginado pelo diretor/roteirista. A fotografia merece destaque, não tentando reinventar a roda mas utilizando muito bem os enquadramentos e movimentações de câmera, assim como as interpretações, especialmente de Cage, que de tão excelente despensa mais comentários, mas também Julianne Nicholson que interpreta sua esposa, e Michael Cera, que está muito divertido no papel em que foi colocado, apesar do pouco tempo de tela.

“Dream Scenario” é uma divertida e trágica história sobre fama, ego, justiça e sobre como nos enxergamos perante a sociedade (e vice-versa), além de trazer uma interessante perspectiva a respeito da chamada cultura do cancelamento sem cair em moralismos. O filme estreia dia 10 de novembro nos EUA, e não possui data de estreia e nem distribuição confirmada no Brasil. Mas ainda podemos sonhar.

Nota: 8,8

2 respostas para “Crítica “Dream Scenario” | Cobertura Festival de Toronto 2023”.

  1. Avatar de Produções da A24 recebem confirmação de lançamento nacional – A24 Brasil

    […] “Dream Scenario” não fica atrás. O novo projeto de Nicholas Cage, primeira vez em parceria com a A24, tem em seu enredo sua particularidade. Na trama, acompanhamos um professor que de repente começa a aparecer recorrentemente nos sonhos de várias pessoas. Para entender mais especificamente sobre o filme, nosso querido Fernando Grisi já teve a oportunidade de assistir ao filme no Festival de Toronto e trouxe sua crítica aqui no site. Para acessa-lá, basta clicar aqui: https://a24brasil.wordpress.com/2023/09/16/critica-dream-scenario-cobertura-festival-de-toronto-2023… […]

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