Por Fernando Grisi

Em “Evil Does Not Exist”, mais novo longa do diretor japonês Ryusuke Hamaguchi (vencedor do Oscar de melhor filme internacional em 2021 por “Drive My Car”), somos levados a uma pequena vila japonesa na qual seus habitantes vivem de forma simples, em harmonia com a natureza. Até que uma empresa resolve construir um local para “acampamentos glamourosos”, e com isso ameaça a harmonia que os moradores tem com o ambiente. No entanto, a trama envolvendo a construção/não construção do acampamento é pouco importante, visto que se trata apenas de um ponto de partida para a obra nos mostrar de perto os personagens e seus desejos/dilemas a respeito de desejos futuros frente à insatisfações em seu presente.

É uma bela contemplação sobre o que precisamos, como humanos, para atingir a felicidade. E me deixou pensando sobre o que precisamos em um filme/de um filme também. Este é, entre os longas do diretor que assisti, o mais paciente, calmo. Difere muito do verborrágico “Drive My Car”, e não tem a característica de crônicas presente em “Roda Do Destino”, e ainda assim funciona perfeitamente bem. Não precisamos de mais nada, e nem se sente aqui o tempo sobrando. Tudo acontece no tempo controlado deste universo. O mais prazeroso na experiência foi justamente poder observar, com a calma e o olhar atento do diretor através dos enquadramentos e duração dos planos, os pensamentos dos personagens. Até mesmo aqueles considerados como antagonistas em um primeiro momento ganham destaque e a atenção da câmera, e nos levam para o meio daquele mundo, nos fazendo refletir os mesmos dilemas e as mesmas esperanças que perpassam suas mentes, e seus corações.

Nota: 7,8

Cena de “Evil Does Not Exist”.

“How To Have Sex” tem um título bastante sugestivo (Como Fazer Sexo), e representa bem o que nos é apresentado no filme que terá distribuição da Mubi. Aqui seguimos um grupo de três amigas saindo da adolescência: Tara, Skye e Em. Em uma ambientação que lembra a de “Spring Breakers”, um resort no qual há festas enormes regadas a álcool com, claro, muito sexo rolando, as garotas esperam aliviar um pouco do estresse que estão vivendo enquanto esperam os resultados de suas inscrições para a faculdade. Além disso, há uma intenção a mais na cabeça de Tara (e obviamente de suas amigas também): a vontade de perder a virgindade.

De maneira geral, esta produção Britânica, que é apenas o primeiro longa metragem da diretora Molly Manning Walker, não traz nenhuma observação ou visão nova sobre o tema que pretende abordar. Obviamente a premissa não será facilmente resolvida, para que possa haver uma história interessante de se acompanhar. Mas, de maneira geral, não pude deixar de sentir como se já houvesse assistido àquele filme antes, ou ao menos um muito semelhante tematicamente.

O trunfo da obra está, assim, no modo de se filmar as situações. A fotografia é belíssima e sabe passar igualmente bem sensações de calor humano, de afeto, tal como de abandono, de solidão. As festas, por exemplo, são filmadas de uma maneira que simplesmente parece certa, chegando o mais parto possível da sensação de se estar em uma daquelas festas (assim como no depressivo pós-balada e na famosa ressaca do dia seguinte). Além disso, a atuação principal de Mia Mckenna-Bruce como Tara merece destaque e aclamação. Ao lembrarmos que é a primeira vez da diretora por trás de um longa-metragem de ficção, é impressionante perceber como foi alcançado aqui um trabalho de ótima qualidade técnica, ainda que a narrativa não tenha me afetado de maneira especial.

Nota: 7,2

Cena de “How To Have Sex”.

*No primeiro dia do Festival de Toronto também assisti a “The Zone Of Interest”, mas este ganhou uma crítica própria. Leia aqui: https://a24brasil.wordpress.com/2023/09/13/critica-the-zone-of-interest-cobertura-festival-de-toronto-2023/

Uma resposta para “Críticas “Evil Does Not Exist” & “How To Have Sex”. | Festival de Toronto 2023 – Dia 1”.

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