Por Fernando Grisi
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“Mother, Couch” (“Mãe, Sofá” em tradução literal) foi um dos filmes do Festival de Toronto que mais me emocionou. Sua história é bastante inusitada, e é também o primeiro longa metragem do diretor e roteirista sueco Niclas Larsson. Aqui, três irmãos, interpretados por Ewan McGregor, Rhys Ifans e Lara Flynn Boyle precisam se reunir para tentar fazer com que sua mãe, interpretada por Ellen Burstyn, se levante de um sofá em uma loja de móveis do qual ela se recusa a sair. A premissa diferenciada foi o que me atraiu para este filme, e fiquei surpreso em perceber que muitas outras pessoas no Festival tiveram o mesmo interesse. Suas sessões estavam difíceis de conseguir, mas consegui, quase que de última hora, manter “Mother, Couch” no meu cronograma.
Narrativas sobre famílias (especialmente disfuncionais) são sempre narrativas que gosto de acompanhar, que tiro prazer em assistir, e este filme conseguiu me agradar muito, cumprindo todas as minhas expectativas, apesar de eu ter sido parte de uma minoria quanto a isso. Não tenho o menor problema em lidar com opiniões divergentes, mas ouvi muitas pessoas (especialmente norte-americanos) criticando o longa por este possuir uma metáfora muito complexa ou uma mensagem que não ficou clara no final. Sobre isso, acho justo apontar duas curtas observações: primeiramente, não acredito que exigir clareza ou designações fechadas de uma obra de ficção seja necessariamente produtivo, e em segundo lugar não penso que este filme entre em uma definição de obra complexa ou difícil de se identificar, “emocionalmente distante”, como alguns comentaram, caracterização com a qual eu não poderia concordar menos. “Mother Couch” é, no fim das contas, uma história muito simples, que pretende tratar de temas muito simples. O filme explora temas como reconciliação, emancipação e superação tanto no contexto familiar como no contexto pessoal, entendendo que um universo não existe sem o outro, mas estão sempre criando e modificando os conteúdos um do outro. Tudo isso apresentado para nós em um embrulho bonito de produção independente norte-americana, com elementos de encenação e interpretação teatral, elementos bizarros e até elementos fascinantes de realismo mágico.
Como o filme é praticamente o que se chama de Chamber Piece, que seria um filme passado em poucas locações e focado principalmente nos diálogos e interações entre os personagens (algo no estilo de “The Humans”, da A24), “Mother Couch” nos presenteia com muitos momentos de atuações incríveis e interações entre os familiares que são ora muito tocantes e emocionais, ora muito engraçadas. O elenco, portanto, ganha protagonismo entre as características da obra. Obviamente há um destaque para Ewan McGregor, que carrega o peso de “verdadeiro protagonista”, mas Rhys Ifans assume o controle de todas as cenas em que está presente, assim como a fabulosa Ellen Burstyn o faz, além da participação muito satisfatória de Taylor Russell. Claro que a experiência não estaria completa sem uma dose também de humor seco e desconfortável, mas que para mim apenas ajudou o filme. Pode soar um tanto estranho, mas para mim, depois de assistir ao filme, faria total sentido descrevê-lo como um “The Meyerowitz Stories”, de Noah Baumbach mesclado com “Mother!”, de Darren Aronofsky. Se essa descrição não te fez ficar no mínimo curioso, honestamente não sei mais o que dizer. Apenas que, por mim, estarei esperando ansiosamente para ver o que mais sairá da mente extremamente criativa, sensível e maluca de Niclas Larsson.
Nota: 8,3

Quem acompanhou nossa cobertura do Festival de Toronto pelo Twitter e Instagram ficou sabendo do fato muito curioso que ocorreu comigo nesta sessão. Simplesmente após alguns minutos sentado (em um assento que nem era tão bom), um homem veio e se sentou do meu lado. E acabou que este homem era ninguém mais e ninguém menos que o próprio Kleber Mendonça Filho, que (eu não sabia que) estava em Toronto para promover seu documentário “Retratos Fantasmas” (que inclusive recomendo). Antes do início da sessão conversamos sobre seus filmes e também sobre a ditadura chilena. Foi um ótimo jeito de iniciar a exibição de “Los Colonos”, que foi o filme selecionado pelo Chile para representar o país na corrida pelo Oscar ano que vem.
“Los Colonos” se passa no Chile pouco após a declaração de sua independência. Nós brasileiros sabemos como é ter uma história sangrenta, complexa e comumente diminuída ou até mesmo ignorada em certos momentos. E, assim como ocorreu aqui após nossa declaração de independência, não houve no Chile uma transformação instantânea que garantiu aos participantes da recém formada nação direitos iguais, ou até mesmo direitos, ponto. Assim, a trama que Felipe Gálvez Haberle pretende contar é uma que traz a herança colonial que permaneceu mesmo após o Chile ter se declarado independente, e que de certa forma permanece até hoje. A sessão de “The Settlers” que participei, que foi uma pública, tinha a equipe do filme presente, e durante o Q&A que seguiu a exibição o diretor lembrou a plateia de que aquela data, 11 de setembro de 2023, marcava 50 anos do golpe de Estado liderado por Pinochet que instaurou a ditadura chilena, considerada a mais sangrenta da américa latina.
A história que acompanhamos aqui é então uma repleta de significados políticos mas contados através de uma belíssima e alegórica jornada. Um ex-capitão inglês, um mercenário estadunidense e um nativo chileno partem em uma missão de delimitar terras para o proprietário José Menéndez. O percurso será, naturalmente, repleto de dificuldades. Mas dificuldades estas muito mais relacionadas a decisões reveladoras da moral e do próprio “espírito colonizador” que habita os personagens, mesmo aqueles que não estão inseridos neste contexto. Através da visão principalmente de Segundo, o mestizo chileno, observamos desde os menores gestos até as maiores atrocidades cometidas contra os povos originários da região, e nas quais ele infelizmente está inserido. O peso e o pesar de seguirmos uma expedição que se mostra rapidamente sem muito sentido, e da qual não podemos nos desviar, parece querer adicionar ao peso de estarmos em um período muito distante do retratado na obra, mas ao mesmo tempo muito próximo. A mentalidade dominante, tanto no Chile como aqui mesmo no Brasil, bem como nossa memória coletiva a respeito de nosso passado complicado, são pensamentos que ficarão conosco por muito tempo após assistir a este necessário filme.
“Los Colonos” é um belo porém pesado exame sobre as heranças do colonialismo, nos apresentando imagens fortíssimas repletas de significado e história, que se fazem atuais até hoje. A imagem final desta obra é uma que certamente não esquecerei facilmente. Não quero dizer que estou torcendo contra o Brasil ou por um resultado específico, mas se “Los Colonos” conseguir uma vaga na categoria de melhor filme internacional no Oscar, ficarei muito feliz. O longa terá distribuição internacional da Mubi, então muito provavelmente poderemos todos assistir a um dos melhores filmes do ano em breve.
Nota: 9,5

Gosto bastante do filme “Com Amor, Vincent”, animação desenhada quadro a quadro utilizando a técnica da rotoscopia produzida pelo mesmo estúdio responsável por “The Peasants” (“Os Plebeus”). No entanto, à época em que assisti ao longa sobre a vida de Van Gogh tive dificuldades para me conectar emocionalmente com a história. Apesar de muito bonito, o estilo mais didático e biográfico de “Loving Vincent” impediu que o filme ficasse comigo. Tenho uma tendência a me conectar mais com as obras de ficção, e assim que soube que a próxima animação da equipe da animação indicada ao Oscar 2018 seria uma história fictícia soube também que precisava incluí-lo em minha programação do Tiff 2023. Inclusive, além de bem cotado para disputar outra vaga em melhor animação no Oscar 2024, “The Peasants” foi a escolha oficial da Polônia para representar o país na categoria de melhor filme internacional. Vamos esperar para descobrir se haverá aqui uma dupla indicação.
Achei “The Peasants” nada menos que impressionante. Mesmo o simples fato do filme ter mais de duas horas de duração impressiona, pois, naturalmente, para cada segundo a mais que tivéssemos de filme seriam mais muitos quadros a serem desenhados e pintados à mão. A história aqui é adaptada de um livro vencedor do Prêmio Nobel, focada em Jagna, uma jovem camponesa vivendo no século XIX que é apaixonada por Antek, mas que por conta das pressões da sociedade patriarcal na qual vive é forçada a se casar com Maciej, um homem rico mas muito mais velho que ela. Todo o desenvolvimento da narrativa se dá como uma grande novela, acompanhando os dramas de diversos personagens lidando com situações como casamento, pobreza, machismo, dramas familiares e amor proibido. Contudo, os sentimentos e sensações elevados à máxima potência e alinhados com a animação de tirar o fôlego fazem com que a experiência de assistir a “The Peasants”, ainda mais na tela grande e sem interrupções, seja algo próximo de uma experiência onírica.
Toda cena é uma desculpa para a obra ostentar sua opulência visual, pois cada frame é literalmente uma pintura. O modo como a mise-en-scène é contruída mesmo em formato animado, como o movimento das cenas e dos personagens é conduzido aqui, é realmente uma maravilha. Há cenas de dança aqui que ficaram na minha mente por dias, e que até hoje penso sobre. É importante dizer que, ainda mais do que “Com Amor, Vincent”, esta animação não é voltada para crianças. Há temas (e cenas) bastante pesadas e gráficas, pois nossa protagonista passa por situações realmente deploráveis e trágicas (que, sem querer dar spoilers, me lembrou um pouco a protagonista de “A Bruxa”). “The Peasants” entrou no meu Top 10 de Toronto, e apesar de ainda não possuir distribuição confirmada no Brasil, espero que seu potencial seja percebido antes da temporada de premiações começar, ainda mais considerando a possibilidade de uma dupla indicação ao Oscar do ano que vem.
Nota: 9,6


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