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Sei que provavelmente já disse algo parecido em alguma outra crítica do Festival de Toronto, mas “Close To You” foi um dos filmes que mais me emocionou dentre os longas que pude assistir na programação do TIFF. Coescrito e estrelado por Elliot Page, famoso por seus trabalhos quando ainda era conhecido por seu “nome morto” e antes de sua cirurgia de redesignação sexual (como “Juno” e “A Origem”), tudo nesta obra grita sensibilidade e pessoalidade. Vivências, traumas e experiências são colocadas no roteiro como se tiradas diretamente da vida real. Pessoalmente, me lembro de Elliot Page principalmente por conta de uma entrevista icônica (porém muito difícil de assistir) que o ator realizou em um vídeo para a Vice com ninguém mais, ninguém menos do que Jair Bolsonaro, na época ainda deputado federal. Na entrevista, como era de se esperar, aliás, o futuro presidente do Brasil disse a Elliot várias atrocidades, e nunca consegui esquecer totalmente o conteúdo do vídeo, ainda mais com tudo o que ocorreu depois de 2018. Para quem tiver interesse, pode clicar aqui para assistir à entrevista, mas vou voltar a falar do filme em si.
“Close To You” significa “Perto De Você”, e é a história de um jovem homem trans vivendo em Toronto, Sam, que retorna para sua cidade natal para o aniversário de seu pai. Sam tem uma boa vida em Toronto, uma cidade grande, onde pessoas LGBT+ costumam ser tratadas com mais respeito do que em cidades menores onde todos se conhecem. Apesar de relutante, Sam viaja de volta à sua cidade natal para a celebração. Afinal, ainda tem um carinho por sua família, mas há ainda assim também uma certa apreensão por situações constrangedoras e desconfortáveis que possam ocorrer envolvendo sua transição. Chegando lá, Sam é muito bem recebido por todos, mas é nas entrelinhas que os problemas começam a ganhar forma. Para além das aparentemente inofensivas trocas de pronomes de sua mãe e um certo afastamento de seu pai, Sam quebra uma primeira parede de desconforto e está logo se abrindo e trocando momentos de afeto com eles, o que é muito prazeroso de se assistir.
Para nós, pessoas Queer, seja qual for nossa letra (obviamente algumas sofrem de forma mais acentuada que outras) o cenário que se segue no filme nos é bastante familiar: ao se sentar à mesa, junto de seus pais mas também na presença de suas irmãs com seus maridos, Sam começa a ser colocado em destaque. Não de maneira positiva, nem porque pediu por aquilo de alguma maneira (sabemos bem como é sermos feitos o centro das atenções contra nossa vontade ainda tendo que ouvir que era exatamente aquilo que queríamos). Os homens daquela mesa, com exceção de seu pai, passam a atacá-lo da forma mais passivo agressiva possível, o que torna a situação ainda mais desconfortável do que se fosse um comportamento puramente agressivo, e a cena escala de uma maneira que somos levados à ponta do assento nos perguntando o que se passará a seguir, o que Sam irá fazer perante aquele cenário horrível. E a decisão que se segue, com Sam precisando fazer a escolha entre continuar em sua antiga casa para comemorar o aniversário do pai mesmo em meio a pessoas ignorantes e transfóbicas, mesmo que não tenham feito “nada demais”, ou simplesmente sair do local e preservar sua dignidade mesmo que isso magoe sua família é provavelmente o momento mais intenso e catártico de todo o longa.
Elliot Page obviamente é o destaque da obra, e realmente entregou aqui a maior atuação de sua carreira, na minha opinião. A naturalidade com a qual o ator encarna o personagem é impressionante, e podemos inferir que parte do motivo seja porque o tema e parte das situações criadas pelo longa foram já sentidas e vivenciadas pelo ator em algum momento de sua própria vida. E, se não, sabemos que como pessoa trans ele ao menos possui muitos receios de ser quem é em um mundo tão intolerante. É também perceptível que houve bastante espaço para improviso aqui, considerando que o ator coescreveu o filme, e isso ajuda a realçar a sensação de realismo buscada. No entanto, ainda que a atuação de Page seja destaque, não foi o suficiente para ofuscar totalmente a performance de Hillary Baack como a amiga de Sam. Existe todo um subplot envolvendo o (re)encontro dela com Sam que é uma das melhores coisas, se não a melhor, do filme todo. Há simplesmente um magnetismo tão forte em suas feições e uma inocência e bondade tão poderosas em suas falas que é difícil não se apaixonar instantaneamente por ela. Não vou dar spoilers, mas apesar de ficado com vontade de vê-la mais durante o filme, fiquei muito feliz com o final que foi dado à personagem em seu curto porém impactante arco.
“Close To You” não é um estudo de personagem perfeito, mas é sim um realista e emocionante retrato sobre vivências trans e principalmente sobre família. Não no sentido literal da palavra, indicando as pessoas que nos criaram durante a infância, pois não há garantia que seu afeto será incondicional independente de quem nos tornemos no futuro, mas no sentido amplo que a expressão “Família Escolhida” abarca. As pessoas que encontramos, como pessoas Queer, no meio do nosso caminho de autodescoberta e que nos seguem e nos ajudam, e principalmente, nos amam independente de qualquer coisa, que nos fazem seguir em frente. Os traumas, as dores e as dificuldades estarão sempre presentes em nossas vidas, disso é impossível fugir. Espero que as pessoas LGBT+ lendo este texto possuam uma relação saudável com sua família sanguínea, sem pressões ou julgamentos por ser quem são, mas espero ainda mais, do fundo do coração, que todos nós possamos manter, e se ainda não tiver, criar essa rede de apoio, essa família que apesar de ser escolhida será para nós nossa família de verdade.
Nota: 8,0

“Fingernails” recentemente ganhou título nacional: “Na Ponta Dos Dedos”, e estará disponível no catálogo do Streaming Apple TV+ no dia 3 de novembro.
A história parte de uma premissa futurista (o filme se passa em um tempo futuro) que consiste na utilização de uma tecnologia capaz de dizer se as duas pessoas de um casal estão realmente apaixonadas uma pela outra. Porém, há um detalhe: a tecnologia não é perfeita, e só consegue gerar três tipos de resultados, sendo eles 0% (no caso nenhuma das duas pessoas na relação está realmente apaixonada), 50% (apenas uma das pessoas está apaixonada, mas não é possível dizer qual delas), e 100% (as duas pessoas estão realmente apaixonadas uma pela outra). E, para fazer a máquina funcionar, é preciso uma unha de cada pessoa do casal. É uma premissa bastante interessante que busca trazer reflexões e experimentações sociais a respeito de amor, naturalmente, mas também de desconfiança, o conceito de almas gêmeas e a própria estrutura de relacionamentos amorosos que observamos na sociedade de hoje, mas que infelizmente senti que ficou muito abaixo de seu potencial na execução de tais temas.
A ideia do longa nos faz lembrar involuntariamente de várias outras produções, sejam da TV, Cinema ou Literatura. Eu, por exemplo, após assistir, não consegui deixar de pensar em “O Lagosta”, um dos filmes mais queridos pelos fãs da A24. Mesmo não sendo possível realizar uma comparação direta, a noção da dificuldade em se conectar romanticamente em uma sociedade futurista que parece prezar muito por isso é recorrente nas duas produções. No entanto, se o longa da A24 conseguiu construir um mundo no qual havia um peso real e muito grande para as decisões do protagonista, que por sua vez apresentava falhas e traços genuinamente interessantes, em “Na Ponta Dos Dedos” todo o discurso a respeito de relacionamentos se mostra bastante simples e até conservador na forma como observa relacionamentos diferentes da monogamia tradicional. Ainda assim, há um apontamento positivo para se fazer aqui, que são as atuaçoes. Jessie Buckley tem carisma de sobra, e consegue deixar sua personagem mais atraente do que o roteiro a prepara para ser, além de ter uma química muito boa com Riz Ahmed, seu novo colega de trabalho na história. Jeremy Allen White, da série “The Bear”, que está em alta atualmente também está no elenco interpretando o parceiro romântico de Buckley, e apesar de não possuir tanto tempo de tela quanto os outros dois atores entrega um bom trabalho como um homem atencioso mas acomodado por anos em um relacionamento.
“Fingernails”, ou “Na Ponta Dos Dedos” tem boas interpretações e uma premissa bastante instigante, mas não é bem sucedido ao expandir sua premissa para conflitos interessantes o suficiente para nos importamos com a trama ou com os personagens a um nível profundo. A narrativa não irá te surpreender ou trazer novos questionamentos a respeito de como nos relacionamos amorosamente, mas não quer dizer que não possamos tirar dela alguma reflexão que faça sentido para nossa realidade. Infelizmente, por conta de toda a expectativa prévia gerada, considero uma das decepções do ano e do Festival de Toronto.
Nota: 6,7

É difícil começar a falar sobre “About Dry Grasses”, um filme de 3 horas e 17 minutos (!) de duração. Vi alguns filmes longos no Festival de Toronto, mas fiquei feliz que nenhum deles se arrastou ou me fez ficar cansado durante sua rodagem. A trama acompanha, ao menos em nível superficial, um professor de ensino básico no interior da Turquia, que sofre uma acusação de assédio por uma aluna, ao mesmo tempo em que começa a desenvolver uma paixão pela mesma mulher por quem seu colega também tem interesse.
É fácil pensar que uma premissa não tão complexa se mostre alongada demais ou perca seu propósito em mais de 180 minutos de rodagem. E, apesar da narrativa migrar sim para outros lugares e explorar diálogos temáticos que não foram antes apresentados, nunca houve para mim a sensação de falta de foco ou de tangenciamento de seus temas. O que contribui enormemente para isso, e também o que considero como o maior mérito da obra é seu roteiro. Nunca havia assistido a um filme de Nuri Bilge Ceylan, que dirigiu “About Dry Grasses” e contribuiu no roteiro, e fiquei impressionado com a forma com que lida com os diálogos aqui, assim como a falta deles. Há muita troca de diálogos e conversas durante o filme, e o roteiro faz com que essas trocas nunca pareçam despropositadas e nem longas demais. De maneira semelhante, o roteiro sabe quando evidenciar o silêncio e a introspecção dos personagens, em valorização dos ambientes, comumente para mostrar hostilidade e solidão. Há uma cena de jantar, onde há apenas dois personagens, que tem uma duração aproximada de vinte minutos, e ainda assim não há diálogos “sobrando” ou a impressão de que a cena deveria ser menor. Os dois personagens conversam sobre política, filosofia, valores e coisas mais pessoais sem nunca nos deixar entediados. É nessa cena também que ocorre algo que desafia o aspecto “transparente” que o filme assumia até ali (de acordo com as definições do teórico Ismail Xavier) e se torna mais “opaco”, revelando que não há o intuito completo de imergir o espectador na fantasia de que aquela história é real, pois ainda se trata de uma produção cinematográfica manipulando nossos sentidos e emoções.
Todos os aspectos técnicos do longa são absolutamente perfeitos e nos imergem completamente no universo criado, que é praticamente idêntico ao mundo real, mas com um olhar pessoal e extremamente singular que nos desprende de um realismo extremo, nos colocando em um cenário quase como o de um conto de fadas. A fotografia que exalta as paisagens frias e quase inóspitas do inverno em Anatólia bem como as quentes e mais convidativas imagens do verão que se apresentam mais para o fim da história e nos passam bem o modo como o protagonista está em relação a seus dilemas. Isto, inclusive, é algo que a direção de arte faz muito bem o filme todo. Precisaria de muito mais tempo para comentar as atuações, e não acho que conseguiria comentar algo capaz de fazer jus à grandiosidade delas aqui. Não há nenhum elo fraco entre as atuações principais, o trio de personagens (que é também um triângulo amoroso) possui tantas trocas em tantos níveis diferentes e que vão mudando e evoluindo, e consegue dançar entre elas perfeitamente bem e em harmonia quando precisam (pois quando precisam ser mais agressivos ou distantes também o fazem com perfeição. Recomendo fortemente que coloquem “Sobre Gramas Secas” em seu radar. Apesar da longa duração, não é uma experiência que deve ser perdida ou ignorada. Para resumir, a principal coisa que descobri ao assistir “About Dry Grasses” é que preciso correr para conhecer o restante da filmografia deste impressionante diretor.
Nota: 8,7


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