Por Matheus Britto
Antítese ao espetáculo dirigido por Baz Luhrmann em “Elvis (2022)” transforma Graceland, mansão em Memphis que pertenceu ao rei do rock, em uma prisão ao explorar as zonas cinzentas do conturbado relacionamento entre Priscilla e Elvis.
Baseado no livro “Elvis & Eu”, de Priscilla Presley com coautoria de Sandra Harmon, em “Priscilla”, Coppola reforça seu comprometimento quanto a esta ideia que retoma o que é basilar ao seu cinema, isto é, empregar um olhar próximo ao maternal no que diz respeito à dar voz as primeiras experiências em um universo feminino. Se em “Maria Antonieta”, terceiro longa de sua carreira e o primeiro a adaptar uma figura histórica, a realidade era moldada tendo como base a perspectiva de uma geração adolescente despreparada para lidar com um linguajar político e social da França pré-Revolução, neste, lançado mais de uma década depois, a realidade se materializa de modo a aproximar a relação do casal das relações contemporâneas.
O romance entre Priscilla Beaulieu (Cailee Spaeny) e Elvis Presley (Jacob Elordi) começou em meados de 1959, na Alemanha. Aos 14 anos, a garota, que havia iniciado recentemente o nono ano, estava lidando com o sentimento de não pertencimento por ter sido levada à um país estrangeiro para que permanecesse ao lado da família enquanto seu pai prestava serviço para o exército estadunidense. Aos 24 anos, o rapaz, cuja carreira musical já havia alcançado destaque internacionalmente, havia sido enviado para cumprir o período obrigatório de serviço.
Na primeira festa, a bruma esconde a entrada para mansão e então o primeiro passo rumo ao relacionamento é dado, parecendo ter saído de um conto de fadas. Finalmente Priscilla havia encontrado alguém que a compreendia no que dizia respeito a estar sentindo saudades de casa e este alguém era um rapaz encantador o bastante, tanto em suas performances ao piano quanto em suas conversas sussurradas aos cantos em uma sala abarrotada de convidados, para que lutasse por sua companhia. Entre os encontros que passaram a ocorrer durante as reuniões seguintes, a recíproca do sentimento parecia verdadeira. Isso, no entanto, não tardou a mudar com a chegada da garota à Graceland, quando o sonho de ser uma adolescente notada por um astro do rock demonstrou ser, na verdade, um sufocante pesadelo no qual era necessário, sobretudo, manter as aparências diante das câmeras.
Os olhares de Cailee expressam reações características à uma “adolescente-recém-saída-da-infância” que, longe do cuidado de seus pais que permaneceram na Alemanha, está descobrindo o que está além dos holofotes em um mundo de opulência esmagadora como Graceland e a existência de homens que, quando são contrariados em suas expectativas, demonstrarão serem violentos, como Elvis, que não hesita em arremessar uma cadeira contra a parede atrás de Priscilla logo após ela ter expressado sua opinião sobre uma de suas recentes gravações. A necessidade do rei do rock em manter a inocência da esposa parte, portanto, de uma questão que não visava mantê-la afastada dos perigos da fama, tendo em vista que o próprio representava um deles, e sim de se certificar de que poderia manipulá-la.
Solitária e com uma rotina pré-estabelecida entre passar a manhã no colégio e então retornar para mansão em Memphis – proibida de convidar qualquer um que fosse considerado um estranho e de permanecer no gramado a vista dos paparazzis – Coppola filma Priscilla no centro de uma riqueza que a cercava por onde quer que olhasse, a mantendo sufocada. Inicialmente há uma tentativa de adequação à esta que será sua nova vida, o estilo que acompanha esta idealização de que será a “futura esposa de uma das maiores celebridades dos Estados Unidos”, e então, com a consolidação de Graceland como uma prisão aparentemente inescapável, controlada por um carcereiro charmoso, ora amoroso ora em um rompante de fúria momentânea, o abandono completo desta busca por pertencimento dentro desta nova realidade que lhe fora imposta.
Diante desta rejeição à uma nova realidade, revelada através da faceta manipulativa de Elvis e de um relacionamento que esteve transitando entre um amor encantador à primeira vista e a obsessão pela inocência, “Priscilla” adota um caráter de fuga. Há uma tentativa por parte da protagonista, que até então lidara com uma série de abusos encarando-os como uma forma exacerbada de cuidado quanto a aparência com a qual deveria se apresentar diante das câmeras, em retomar as rédeas de uma vida que passou a ser duramente controlada por um homem que demandava estar no controle do que o cercava. A adolescente que cresceu para ser uma mulher enquanto permanecia isolada no interior de Graceland passa a lutar para conhecer o que está além, para redescobrir a voz que perdeu tão cedo, e, principalmente, para recuperar a identidade que possuía antes de conhecer Elvis.
Consciente do destino de Maria Antonieta no decorrer dos acontecimentos da Revolução Francesa, Coppola encerrou a história de sua biografada com um último olhar para o palácio que se tornou seu lar após um intenso conflito para se adequar aos costumes da corte, com a protagonista dizendo que está dando adeus. Em “Priscilla”, tendo seguido por um caminho inverso à narrativa protagonizada por Dunst quanto a esta busca por pertencimento, é necessário que a protagonista esteja completamente descolada da persona projetada por Elvis para que possa finalmente conhecer a si mesma. Ir embora de Graceland, portanto, há muito deixou de ser uma questão de estar abandonando o que passou a ser uma casa, mas sim um primeiro passo em direção a liberdade que lhe foi podada durante anos.
Nota: 9.0/10

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