O Simpatizante encerrou sua passagem pelas famigeradas noites de domingo da HBO não só tendo reafirmado que Park-Chan wook (Decisão de Partir) é um dos melhores realizadores em exercício no cinema contemporâneo, mas também a importância que é denotada à participação de um indivíduo no sucesso ou na morte de uma revolução. “[…] Sem indivíduo, não existe coletivo, não existe ideologia, e não existe revolução”, afirmou o cineasta sul-coreano em entrevista ao Omelete, referindo-se a produção que encerrou sua narrativa de sete episódios com um último olhar para um protagonista que, finalmente em paz com os fantasmas de seu passado, parecia certo da identidade que estaria assumindo daquele ponto em diante.
Baseada no romance homônimo de Viet Thanh Nguyen, a minissérie, adaptada para TV por Don McKellar e Park-Chan wook, segue o Capitão (Hoa Xuande), um “agente secreto, um homem de duas caras”, como descreveu a si mesmo em “Finais são difíceis, não são?”, último episódio da temporada, e a missão que o levou a retornar aos Estados Unidos. Trata-se de um drama passivo-agressivo, metalinguístico – é impossível escapar do senso de espetacularização de um conflito bélico ao abordá-lo, então por que não levar o protagonista até Hollywood, onde a guerra também acontece? – sobre a experiência de um refugiado em um subúrbio do país do Tio Sam, seduzido pelas possibilidades abundantes do Sonho Americano, e então desencantado diante das contradições observadas neste sonho, amplamente propagandeado pela panfletagem cinematográfica.
Esta saga vietnamita tem início em Saigon, em um momento anterior a sua queda, um marco emblemático ao andamento da Guerra do Vietnã. Em um primeiro episódio que ostenta uma textura e uma estilização que remetem às produções B sobre comunidades e indivíduos marginalizados pelo sistema estadunidense lançadas em meados da década de 1970 – decisão esta que prevalece até “Ame-a ou deixe-a”, terceiro episódio – Park-Chan wook estabelece um protagonista cuja rememoração ocorre como se suas memórias fossem parte de um grande rolo de filme que está constantemente sendo reeditado em uma sala de montagem. No estado de dualidade decorrente do papel que precisa desempenhar enquanto está na presença do general, sua narração, por vezes poética ao nos confidenciar o que não pode ser dito em alto e bom tom, revela-o como um narrador não confiável.
Em sua chegada aos Estados Unidos, o protagonista precisa lidar com a paixão que desenvolve pela sedutora e ácida srta. Mori (Sandra Oh), e com as engenhosidades que beiram ao absurdo performadas por um hall de personalidades cômicas e agressivas interpretadas por Robert Downey Jr., remetendo às muitas facetas de um sistema imperialista. Em um episódio, ele é um espião da CIA. No seguinte, entretanto, retorna como um professor universitário cujos monólogos revelam as contradições de um discurso anticolonialista sob a perspectiva estadunidense. E então, quando parece que todas as surpresas foram reveladas, ele surge como um cineasta, que acredita estar seguindo os passos de Robert Altman enquanto dirige uma produção contrária a guerra a lá Apocalypse Now – “precisa ser altmanesco!”, alega o personagem à sua assistente de direção – mas que, na verdade, não passa de mais uma massa de manobra na construção de uma imagem a ser projetada.
“Queremos boas falas”, quarto episódio da temporada e o único dirigido pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles, antecipa a morosidade que carregará uma parcela substancial de O Simpatizante até seu desfecho após a passagem de manto de Park-Chan wook para Marc Munden, britânico que, embora bem-intencionado e comprometido com a proposta de explorar a psique arruinada de um protagonista que está buscando desesperadamente recuperar o controle após o acidente que o hospitalizou por cinco meses, não faz jus ao potencial dos primeiros episódios. Pouco, portanto, chama atenção em uma direção que gradualmente se deixa levar pela emulação do estilo de Park-Chan, é como se, seguindo o exemplo do cineasta interpretado por Downey Jr., ele então optasse por alegar que somente sendo “Park-Chan wooknesco!” para funcionar.
Toda pompa e circunstância por trás da reconstrução de uma parte da América dos anos 70 atesta o caráter ambicioso de O Simpatizante, minissérie que, apesar da morosidade notável nos episódios sob comando de Munden, empolga pela maneira como Hoa Xuande, em seu primeiro trabalho de maior destaque, canaliza e externaliza os conflitos que levam um homem que nunca reconheceu a si mesmo como alguém com apenas uma identidade ao limite da sanidade. Uma odisseia pelo coração de um país polarizado pelas consequências do conflito, que exprime a relação entre o indivíduo, a construção de sua visão de mundo, sua percepção sobre os ideais de uma revolução, e o espetáculo cinematográfico.
Nota: 7/10

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