Por Fernando Grisi.
Ok, esta crítica vai ser bastante pessoal.
“Young Hearts”, dirigido por Anthony Schatteman, estreou no Festival de Berlin deste ano, onde recebeu uma menção honrosa na competição Generation. O filme tem gerado desde então uma certa repercussão e antecipação, ao menos no nicho que geralmente se empolga com produções LGBT+, e agora faz sua estreia no Brasil como parte da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a qual estou fazendo a cobertura pela primeira vez este ano, com o título de “Corações Jovens”. Faço parte deste nicho que acompanha lançamentos LGBT+, principalmente se envolverem a letra G (que sou eu), e, mais recentemente, principalmente se forem histórias sobre primeiro amor e/ou envolverem personagens que estão na infância ou adolescência. Ficava me perguntando o porquê, e agora vou tentar responder ao longo desta crítica.
É curioso pensar que são muitas as narrativas de ficção que abordam este assunto surgindo nos últimos anos e ganhando extensa visibilidade. A série “Heartstopper” se tornou um fenômeno global, e o próprio filme da A24 “Close” (o qual também fui uma das primeiras pessoas a assistir, no Festival de Cannes 2022) foi indicado ao Oscar e ganhou diversos fãs dentro e fora das redes sociais, por se tratar também de uma história que retrata a vivência gay na infância/adolescência. Não vou fazer nenhuma comparação com estas duas outras obras, mas fiquei feliz que, diferente de “Close”, por exemplo, “Corações Jovens” realmente se compromete a ser uma história sobre um primeiro amor e suas implicações, sem grandes fatalidades ou apelações dramáticas. Esta é uma história muito honesta e muito bonita sobre se apaixonar pela primeira vez.
Quando digo que esta é uma história de primeiro amor, estou falando sobre nosso protagonista Elias, interpretado por Lou Goossens. Do outro lado temos Alexander, interpretado por Marius de Saeger, garoto que se muda de Bruxelas para o interior e se torna o novo vizinho de Elias, o intrigando desde a primeira vez que este o avistou. Alex não tem problemas em assumir sua orientação sexual. Logo no começo do filme, quando ele e Elias ainda não passavam de colegas de sala, o garoto diz que já havia se apaixonado uma vez, e que chegou a namorar um menino por um tempo no ano anterior. Esta honestidade e a tranquilidade com a qual diz isso foi muito refrescante de se presenciar em um filme deste tipo, já que personagens LGBT, principalmente nessa faixa etária, costumam ser repletos de questões com auto aceitação e medo. Algo importante de se ressaltar desta cena também é outra fala de Alex, que ao ser perguntado por Elias qual o sentimento de se apaixonar, responde: “É a melhor sensação do mundo”. Faz parte do título da crítica, então não esqueça dessa frase pois vou voltar nela depois.

Investigando dentro da minha própria cabeça e acompanhado por esta onda de obras que tentam representar o que é se descobrir LGBT durante a infância e/ou adolescência, lembrei que foi durante a pandemia que nasceu em mim a ideia de fazer minha própria história de primeiro amor. Acredito que o próprio isolamento social obrigatório tenha me feito olhar mais para dentro de mim para criar histórias, já que expandir para o mundo parecia não ser uma opção viável na época. Foi após ler o livro “A Canção de Aquiles”, no qual duas crianças, dois meninos, se apaixonam um pelo outro, e ficar inspirado por uma cena (imagem ilustrativa a seguir), que escrevi um conto de romance e fantasia entre um anjo e um demônio, ambos entrando na adolescência e tendo que carregar um fardo místico além do fardo já pesado da puberdade.
Apesar dos elementos de fantasia do conto, toda a verdade dele veio de olhar para o que eu mesmo tinha vivido, e deixado de viver, quando eu era mais jovem e estava me descobrindo. Outro assunto no qual vou voltar a tocar. De qualquer forma, em 2022, ano que participei do Festival de Cannes e assisti a “Close”, tive a chance de tentar dirigir meu primeiro curta-metragem com apoio da minha faculdade. Parecia um ótimo timing, e, como se a história já estivesse pronta, repaginei meu conto, retirando os elementos fantásticos e mudando drasticamente a narrativa, criei um projeto, um roteiro, um pitch, apresentei para meus professores concorrendo com 20 dos meus colegas…E tive a sorte de ser escolhido para dirigir um dos filmes daquele semestre! O meu filme, o “Frutinha“.

Ouvi dizer uma vez que os cineastas vivem a vida toda, e consequentemente passam a filmografia toda fazendo o mesmo filme. Essa frase ficou comigo, porque se aplica muito bem pro momento que estou passando agora, e também para o contexto de filmes de primeiro amor que estou me propondo a discutir aqui. Depois do meu primeiro curta, por algum motivo que era desconhecido para mim até pouco tempo, a próxima história que quis contar, meu próximo filme, também se revolve em torno de um primeiro amor adolescente entre dois garotos. Seria como na frase, e já comecei minha filmografia “fadado” a contar a mesma história infinitas vezes de modos distintos? Afinal, por que “Corações Jovens” existe? Por que “Frutinha” existe? Por que não contei a história de uma mulher de meia idade que está traindo o marido? Por que não fiz um filme de invasão zumbi na UnB ou um mocumentário sobre uma personalidade do rock inventada?
Tentei por um tempo fingir que não, e foi quando falhei miseravelmente que me entendi realmente como um cineasta (apesar de iniciante). Por mais que você tente fugir deste fato, suas histórias são suas. “Frutinha” existe porque, pra nós (entenda como quiser) é esta a forma de lidar com o que não podemos resolver, com aquilo do qual tentamos fugir ou não temos coragem de admitir que sentimos ou pensamos. A pergunta que realmente deve ser feita, ao contrário das do parágrafo anterior, é: por que histórias de primeiro amor são importantes? E principalmente as de amor não heterocisnormativo?

Sei que pode estar parecendo que estou falando mais do meu próprio filme do que do longa em questão, mas peço paciência porque acredito que esta é a maneira mais interessante de discutir os temas que me tocaram e me fizeram refletir (posso estar completamente maluco? Sempre uma possibilidade). Mas o que tentei fazer ao contar um pouco da minha história, e das minhas produções audiovisuais, é responder a pergunta “por que nossas histórias de primeiro amor são importantes?” É bizarro pensar que, na sociedade em que estamos inseridos existem pessoas (não poucas!) que desejam controlar algo como o amor! Nunca tinha parado para pensar o quanto isso me afetava, mas justamente por ter entrado eu mesmo na iniciativa de fazer um filme de primeiro amor gay senti o quanto o assunto ainda é delicado e o quanto as pessoas ainda conseguem envenenar um assunto que na prática é puro, inofensivo, e muito, muito bonito.
Considero “Corações Jovens” um filme corajoso. Geralmente não gosto de usar essa palavra, e tampouco gostei quando começaram a utiliza-la para descrever o “Frutinha”. Sei que soa prepotente, mas vou explicar. O meu maior “objetivo”, meu maior desejo com o “Frutinha” era que a cena final fosse realizada da maneira que estava escrita por mim no roteiro: com um beijo na boca entre os dois meninos, os dois ainda na fase da infãncia. Apesar de, no fim das contas, eu ter conseguido o que queria, o caminho pra isso não foi fácil. Encontrei resistência entre os professores, meus colegas, membros da equipe e até de familiares. Cheguei a pensar por um tempo que realmente eu estava errado, maluco e até coisa pior, por querer que a cena acontecesse. E, hoje, apesar de ter ficado em paz com minha decisão, ainda surgem alguns comentários sobre o filme no YouTube, ou mesmo algum comentário sobre outro filme similar, que me fazem pensar se, de fato, não há algo de errado na maneira como eu penso.
Pensei em não escrever sobre isso, mas há uma cena em “Corações Jovens” que foi o que me levou a empregar a palavra Corajosa à esta produção (quem assistir vai saber do que estou falando, mas dica na próxima imagem). Quando a cena aconteceu a sensação que me veio foi, infelizmente, de desconforto, o que não é de forma alguma demérito do filme. Aliás, pelo contrário. Foi apenas curioso ter percebido que, eu, um homem gay de 24 anos, que já se assumiu pra família, que lutou para manter uma cena de beijo entre dois meninos no seu filme, ainda possa ter algum tipo de homofobia internalizada, de algum modo. Ou talvez seja algo que vá ainda mais fundo e que não caiba tentar desenvolver aqui. De qualquer forma, isso me levou a ver que a verdade pode sim ser corajosa às vezes. Este filme não é espetacular e nem extraordinário, não é super original e nem quebra paradigmas do gênero, mas é verdadeiro. Ou seja, corajoso.

Para finalizar, gostaria apenas de discutir um pouco mais sobre a sensação do primeiro amor. Quem se lembra da frase de Alex para Elias? (eu disse que voltaria no assunto). “Se apaixonar é a melhor sensação do mundo”.
É engraçado como o próprio filme discute esta afirmação sem muitas apelações. Nós passamos por Elias em todas as fases de uma paixão: desde o primeiro momento em que soube estar apaixonado (se você não acredita em amor à primeira vista é porque nunca aconteceu com você), passando por momentos de euforia e também pelas desilusões e dores que estar apaixonado implica. Nosso protagonista diz que quer morrer, o que mais uma vez é engraçado, pois o amor é justamente este sentimento em direções opostas. Ao estar com a pessoa amada sentimos que poderíamos morrer ao recebermos um simples olhar, quem dirá um beijo ou algo mais. E da mesma forma sentimos uma vontade de desaparecer e temos no peito a sensação de que o coração vai parar e iremos cair mortos se a pessoa não voltar a falar conosco logo.
Acredito, ao menos por enquanto, que meus filmes são reflexos de meu primeiro amor, quer eu queira ou não. Não por esta experiência ter sido algum tipo de trauma não superado, ou um momento tão incrível que ainda não consegui reproduzir, mas…será que é por isso? Em uma cena entre Elias e seu avô, este diz à criança que tal sentimento não é sentido duas vezes na vida, o que é algo bonito de se dizer mas também bastante deprimente se pararmos para pensar. Afinal, ter a conexão humana mais forte e significativa da sua vida aos 12, 13 ou 14 anos com a vida toda pela frente parece mais um castigo do que um presente, ao menos para mim.
Mas também estou escrevendo de uma faixa etária diferente, e sinto que a opinião sobre isso é algo muito mutável. Meu primeiro (e único) amor foi um amor não correspondido, o que para mim era definitivamente a pior sensação do mundo, e que talvez ainda me assombre até hoje nas pequenas coisas que cheguei a comentar. Pensar que nunca mais terei a chance de sentir algo tão forte é um pouco deprimente, e talvez por isso mesmo eu me refugie nas minhas próprias histórias de amor inventadas. Minhas versões diferentes do mesmo filme que nada mais é do que o filme que gostaria de estar vivendo. Mas o que importa é que para Elias e Alex, E+A, apesar de tudo, estar apaixonado parece estar realmente sendo a melhor sensação do mundo.

“Corações Jovens” (“Young Hearts”) estreia em dezembro na Bélgica, seu país de produção, e ainda não tem data nem distribuidora no Brasil. Sei que meus textos não são muito influentes, mas gostaria muito que alguém se inspirasse e considerasse trazer esta pérola do cinema gay contemporâneo para as salas comerciais brasileiras. Um longa que (felizmente) lembra muito mais “Me Chame Pelo Seu Nome” do que “Close”, tanto por sua linda trilha sonora como por seu roteiro emocionante sem deixar de ser verdadeiro.
De qualquer forma, agradeço muito a quem leu a crítica toda, vocês são fofos e têm um lugar especial no meu coração. Este filme mexeu muito comigo por motivos que já expliquei demais e outros que nem eu mesmo sei ainda, mas fico feliz de compartilhar ao menos alguns pensamentos sobre ele. Espero que nos vejamos em breve em outras críticas da Mostra de SP. Até loguinho 🙂
Nota: Não terá pois meus pensamentos estão muito complexos para serem organizados numericamente.

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