Por Matheus Britto.

Para elaborar um retrato visceral e excessivamente realista sobre a crueldade da guerra e suas consequências para com aqueles enviados para lutarem em defesa de uma fantasia imperialista, Tempo de Guerra parte do pretexto de resgaste das memórias de Ray Mendoza e dos demais sobreviventes de um episódio ocorrido durante a ocupação norte-americana no Iraque. O longa, uma espécie de lado B do épico apolítico de Alex Garland, Guerra Civil, descarta os planos e contra planos fáceis, focados em caixões cobertos pela bandeira estadunidense e em famílias lamentando seus mortos, representações comuns ao imaginário construído pelo complexo de entretenimento militar, para que possa sensibilizar e ultrajar por meio da luta pela sobrevivência destes combatentes no decorrer de 93 minutos.

Colaborando tanto no roteiro quanto na direção, Garland e Mendoza são diretos no que diz respeito a explorarem o caráter de contestação e ultraje por trás da ideia de rememorar e reencenar este acontecimento. Assimilando uma linguagem próxima ao documental e prezando pela sensibilidade do público ante a percepção de que estes rapazes, vistos inicialmente comemorando os closes do videoclipe de Call On Me como se fossem universitários em uma fraternidade, são apenas rapazes, seduzidos e enviados para morrerem em defesa de uma fantasia imperialista, Tempo de Guerra segue um pelotão das forças especiais da Marinha, de comunicação breve e referidos segundo suas patentes, e a missão em Ramadi.

É natural que Mendoza defenda os seus. Se à Garland coube a tarefa de manter em voga seu discurso contrário ao militarismo, ao ex-coordenador de dublês recém alçado à posição de diretor cabe então insistir para que lembremos de Tempo de Guerra não apenas como um filme de guerra, e sim como um filme que preza pelo reconhecimento da imagem humanizada do homem, do rapaz retirado do seio familiar e lançado em meio a um conflito bélico, por vezes ofuscada pelas representações do poderio militar do exército norte-americano. Contudo, na mesma proporção em que o ex-combatente permanece ciente do momento para articulá-lo dentro da encenação, ele parece ignorar deliberadamente as circunstâncias.

Os porquês da guerra, as circunstâncias que levaram à ocupação norte-americana ao Iraque, são relegados ao segundo plano. A presença do combate oscila entre seu afastamento gradual, tendo ciência do interesse de Mendoza em lidar com o homem como um elemento anterior a imagem do exército, e sua proximidade para com os soldados por meio das explosões, dos gritos, dos ataques e contra-ataques, da desorientação, e da surdez temporária. Todo rebuscamento esteta por trás da recriação do cenário de batalha de Tempo de Guerra esbarra no quão vago o acordo mútuo de crítica e reencenação destes cineastas pode ter sido no ponto em que se contempla e pondera sobre o que é externo ao ocorrido em Ramadi.

É, no final das contas, um filme de guerra tradicional, carregado por um ideal de companheirismo, de “nenhum homem será deixado para trás”, capaz de superar o espectro da morte que acompanha estes rapazes no decorrer da escalada de tensão, da observação de seus oponentes à tentativa de escaparem da emboscada. É um exercício amparado pela imersão através das técnicas empregadas no desenho de som e na composição da imagem, gráfica, extrema, suja. Em um cenário de esgotamento do gênero em Hollywood, Mendoza e Garland insistem no pressuposto de que o ineditismo, neste caso, estará no entendimento que teremos da guerra somente se a acompanharmos através de uma lente que permanece próxima o bastante dos soldados durante esta missão encenada como se em tempo real.

Nota: 6.0/10

Uma resposta a “Crítica: “Tempo de Guerra””

  1. Avatar de Notícias da Semana 14/04 – A24 Brasil – A24 Brasil

    […] Vale ainda destacar que “Guerra Civil” chegou hoje ao catálogo da Netflix. O filme estrelado por Wagner Moura conta com Alex Garland como diretor e roteirista. Ainda sobre Garland, nesta quinta-feira seu novo projeto estreou nos cinemas nacionais. Trata-se de “Tempo de Guerra”, filme dirigido pelo veterano de guerra Ray Mendoza e roteirizado por Garland. Nós já assistimos ao filme e o nosso Matheus Britto escreveu a crítica do longa: https://a24brasil.com/2025/04/16/critica-tempo-de-guerra/ […]

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