Por Matheus Britto
Inspirado em uma lenda urbana que viralizou nos fóruns de internet e no YouTube, Backrooms: Um Não-Lugar, lançado na última quinta-feira (28) nos cinemas brasileiros, segue Clark (Chiwetel Ejiofor), um arquiteto fracassado que comanda uma loja de departamentos que está em vias de ir a falência e, enquanto busca entender a razão pelo aumento exponencial de sua conta de luz, descobre a existência de uma brecha dimensional no porão do local.
Parsons diluí a mitologia da creepy pasta, simplificando-a, tornando-a direta. É um não-lugar (como o subtítulo brasileiro faz questão de reforçar), fora do continuum espaço-tempo, de inúmeros níveis e diferentes geometrias, ora remetendo a uma cozinha ora uma sala de estar ora um corredor infinito, observado e estudado por um grupo de pesquisadores que pretende mapeá-lo. E isso basta. O que está em jogo em Backrooms: Um Não-Lugar – e é precisamente neste ponto que os problemas desapontam – não é a possibilidade de explicar o que é este espaço ou dar vazão à um subtexto referente a como a ausência de entradas e saídas sinaliza à uma metáfora para um determinado estado emocional e psicológico, e sim explorar o pânico e a inquietação da inescapabilidade dos cenários, algo que infortunadamente não tarda a perder a graça.
Há décadas, tanto na literatura quanto no cinema e até mesmo na TV, personagens têm sido levados (ou até mesmo guiados) a explorarem mundos até então desconhecidos, dobrados as suas próprias lógicas e leis. Foi assim com Dale Cooper ao descobrir sobre o Red Room e suas dopplegangers em Twin Peaks e com Alice em Alice no País das Maravilhas. Se nada os impediu, logicamente nada impedirá Clark, um solteirão solitário e deprimido, ou seja, alguém com menos a perder em comparação aos citados, de atravessar e explorar o que quer que esteja escondido por trás da brecha encontrada no porão de sua loja. Mesmo que brevemente, é esta descoberta que o ‘resgata’ da melancolia pós-separação e das frustrações do dia a dia.
Não demora até que outros sejam sugados por esta obsessão de Clark. Primeiro Bobby (Finn Bennett) e Kat (Lukita Maxwell), funcionários do local. E então Mary Kline (Renate Reinsve). No que concerne a passagem destes personagens de uma realidade a outra, Parsons é competente o bastante em recorrer a morbidez e a curiosidade enquanto ferramentas para construção da atmosfera, de inquietação. Entretanto, é somente ao desprender-se da polidez visual em demasiado e retomar o exercício de emulação do found footage, na textura e na composição, na imagem fora de foco e no som entrecortado, na redução do quadro até tornar impossível que o olhar dê conta do todo, que Backrooms consegue se comprometer com a tensão demandada pelas circunstâncias. É quando de fato se torna possível perceber um cineasta em potencial exercitando e experimentando com uma linguagem que lhe apraz.
Em teoria, Parsons entende bem como estes espaços, estes não-lugares que desobedecem a quaisquer explicações e justificativas plausíveis, funcionam. Porém, os filma na maior parte da rodagem, encena a dinâmica entre personagens, desavisados e curiosos, e espaços, não como um cineasta e sim como um fotógrafo de um ímpeto estilístico razoável que foi contratado as vésperas para coordenar um ensaio de decorados para próxima edição da Casa Vogue, cujo editorial tem por intenção dar início à uma estratégia de reposicionamento da marca dentro do mercado e reconheceu esta oportunidade através do incentivo a nomes que parecem avant-garde dado ao burburinho nas redes sociais, mas que, no final do dia, fazem coro ao comum e ao comercial.
A medida em que as travessias entre uma realidade e outra cessam e tem-se por intenção explorar o perigo em uma escalada contínua conforme as descobertas revelam o que está escondido por detrás das paredes daqueles cômodos ora simétricos ora assimétricos, a tensão em Backrooms é diluída. O longa, que outrora buscava conceber a perversão do senso de descoberta e explorar o que este ímpeto de sempre ir mais e mais afundo no desconhecido enquanto se está encarando o vazio pode revelar sobre a natureza humana, descamba para um dramalhão oco sobre pessoas presas em loops emocionais, reproduzindo inconscientemente e a exaustão determinados padrões de comportamento. De Ejiofor a Reinsve, não resta muito à suas personagens, ausentes de quaisquer cargas dramáticas e camadas, exceto atuarem como dispositivos narrativos que visam facilitar o deslocamento da história até seus finalmentes.
Nota: 3.5/10

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