Normalmente, quando vou assistir um filme recém-lançado, procuro saber muito pouco ou quase nada sobre ele. Acredito que quase sempre a possível magia do cinema esteja justamente em deixar a obra fazer o próprio trabalho, sem influências externas, e talvez (por sorte) te surpreender. É como ser criança, e não saber quais brincadeiras o dia reserva.

Tudo que eu sabia sobre MOSCAS era: uma senhora mora sozinha, e aluga um quarto da sua casa para um homem e seu filho, enquanto sua mulher está internada no hospital em frente ao prédio. Era só isso que eu sabia de antemão, antes de sentar na poltrona da sala de cinema. E o que eu vi ali é que o filme é basicamente isso mesmo. Mas todo o subtexto dessa história acaba sendo tudo isso, e muito mais.

A história vai se desenrolando sem pressa ou qualquer inclinação a uma narrativa pretensiosa. As cenas vão passando como os dias propriamente ditos vão se desenrolando, com toda a naturalidade (e talvez a crueldade) da vida como ela é. A história começa com um incômodo totalmente cotidiano. Uma mosca, que entra pela janela sem ser convidada. Um cenário de pobreza (de vários tipos) e solidão em tons de cinza, não metaforicamente falando mas também poderia ser.

Vamos conhecendo aos poucos Olga (Teresita Sánchez), essa mulher solitária, que vive em uma abafada e barulhenta cidade do México. Vivendo no tédio da sua própria companhia, ela precisa de dinheiro. E é assim que ela conhece o homem que está acompanhando a internação da esposa logo em frente à sua janela. Já no primeiro contato ela fala, na lata: “não quero saber nada sobre o seu parente doente”. Tulio, de início, tenta ocultar a presença de seu filho Cristián (Bastian Escobar). Ele tem o mesmo problema que Olga (e quem não?): dinheiro. Por isso, ele esconde o menino até ser descoberto, casualmente, almoçando pelo bairro. A dona da casa o confronta e quer expulsá-los. Tulio (Hugo Ramírez) deixa a semana paga para ele e para o menino e promete que vai sair. Para arcar com tudo isso, ele deixa o filho lá e vai trabalhar na cidade.

A mãe? Nada vemos nem sabemos sobre seu estado de saúde, só nos chega a informação que ela está com câncer. E que o filho não está autorizado a vê-la. Nós, espectadores, estamos limitados às poucas informações que escapam, nos mantendo em uma doce e perigosa ingenuidade. Somos tão poupados como Cristián, que começa a fazer de tudo para entrar no hospital e ver a mãe. Mas, diante da possível gravidade da situação, ele ainda é uma criança de nove anos. E meninos de nove anos gostam de jogos de videogame. Na busca pela mãe doente, Cristián também procura vencer em um jogo chamado Cosmic Defenders Pro, um vídeogame de arcade.

A trama encontra um paralelo na jornada do jogo em si, elemento essencial para mergulhar na história. Um combate violento aos inimigos indesejados, digitalizados na tela e nas células do corpo da mãe de Cristián. Inquilinos que devem ser eliminados, junto com a glória da vitória. Tão simples (ou complexo) quanto isso.

É com essa simplicidade, que o longa lentamente atinge uma profundidade gritante. Fernando Eimbcke traz a inevitabilidade da morte rodando o passar dos dias, sempre andando de mãos dadas com a banalidade com que a vida simplesmente toma forma, independente da nossa vontade. Não há um momento em que não saibamos que esse menino vai perder a mãe. Mas preferimos nos distrair enquanto o jogo está sendo jogado.

Os momentos são pincelados com bom humor, como se a dor em si estivesse sempre carregada de ironia. Ou como se fosse uma ingenuidade quase infantil. Os cortes no filme e os saltos temporais são essenciais para essa alternância entre a leveza e a desgraça. Ao tratar temas tão complexos, que rondam principalmente o abandono, as derrotas e as perdas, somos levados a parar de dançar em determinado momento e encarar fatos que não são nem um pouco alegres. A morte é brutalmente apresentada aqui apenas como um ponto em um cotidiano repleto de acontecimentos, que simplesmente acontecem. A vida sempre continua, ignorando nossas dores e nossos mortos.

O luto não é, de forma alguma, algo novo no cinema. Mas o frescor que esse filme trata sobre esse assunto, caminhando para uma redenção dos personagens que se encontram em suas perdas, é intensa. Nem eu, nem ninguém está preparado para lidar com algo tão natural à vida. Diante da morte, somos todos apenas crianças.

MOSCAS está disponível no catálogo da MUBI Brasil.

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